FASCISMO É CAPITALISMO EM SEU REAL PROPÓSITO
A ideia de que ‘a ralé’ representava a base política nazista desafia tanto a história quanto a lógica política básica. Os nazistas se alinharam com o poder econômico existente
As abrangentes caracterizações de atos políticos são, elas mesmas, políticas no sentido de que elas emergem de visões de mundo que lhes conferem significado. Elas podem ser descritivas; nesse caso, por que não deixar os atores políticos falarem por si próprios? O medo contemporâneo de dar ‘palanque’ para pontos de vista desagradáveis levanta a questão: como você sabe que suas posições são desagradáveis sem tê-las ouvido? Por exemplo, li Mein Kampf e minha opinião sobre Adolf Hitler e suas teorias piorou depois de ter lido. O objetivo era entender o homem, não concordar com ele. Por que a premissa contemporânea é que as pessoas são estúpidas demais para chegarem a suas próprias conclusões?
Uma das razões para essa crença é que o governo federal e suas agências têm, há um século ou mais, ativamente lançado mão de desinformação e manipulação psicológica para influenciar na direção de resultados políticos que atendam aos propósitos da classe governante. Embora o caso do Russiagate esteja ainda muito fresco para a maioria dos democratas enfrentar, é um clássico no gênero de mesclar o medo com a história falsa para produzir um nacionalismo reacionário de direita entre as classes “sofisticadas”. No entanto, e em contraste, os movimentos políticos de direita e esquerda ligam a história a gatilhos materiais. O fascismo europeu surgiu depois que os capitalistas destruíram as economias que eles tinham vindo controlar.
Para entender esse ponto, o Russiagate foi amplamente desconsiderado como um absurdo fabricado pelas mesmas pessoas que em 2003 foram voluntariamente ao Iraque para lutar uma guerra lançada por uma conspiração de ex-executivos da indústria do petróleo no governo George W. Bush. Em outras palavras, o apelo do nacionalismo reacionário ‘funcionou’ quando as pessoas perceberam uma unidade de interesses pelo bem nacional. Por volta de 2008, essas mesmas pessoas entenderam que haviam sido feitas de bobas. Barack Obama foi eleito para liderar um caminho diferente. As pessoas que acharam o Russiagate plausível foram aquelas que se beneficiaram com as políticas de Obama. As pessoas que não se beneficiaram ficaram desinteressadas ou ativamente céticas em relação ao Russiagate.
O ponto: para que a desinformação “funcione”, é necessário que haja tanto atores que a disseminem quanto um público que seja receptivo a ela. Outra fatia do grupo que achou o Russiagate plausível é a burguesia que vendeu a guerra contra o Iraque, mas não lutou nela. Isso não implica dizer que haja valor na guerra. É para afirmar que aqueles que apoiaram a guerra a partir de suas confortáveis cadeiras da revista The New Yorker, da National Public Radio ou dos jornais The New York Times e The Washington Post também foram os proponentes centrais do Russiagate. Isso conforma o Estado, seus intermediários que distribuem a propaganda do Estado, os burgueses que apoiam guerras nas quais não lutam e as pessoas que lutaram no Iraque. Foram estes últimos que concluíram que o Russiagate era uma besteira.
No entanto, essa visão do Estado como algo distinto de Wall Street, do complexo militar-industrial, da indústria de tecnologia, mídia social, da indústria de petróleo e gás, farmacêutica e do complexo industrial de saúde, requer ignorar, não apenas o controle, mas uma lógica motivadora conjunta. Com a guerra dos EUA contra o Iraque, as indústrias de petróleo e gás e militares desenvolveram uma política nacional em conjunto com a Casa Branca. A fachada de defesa nacional demonstrou ser uma fraude. O governo Bush acreditava em suas próprias besteiras? Todos os seus protagonistas centrais trabalharam na indústria de petróleo e gás. A visão deles era a partir de uma perspectiva conjunta corporativo-estatal.
Isso é fascismo. A militarização da polícia, a construção de um estado de vigilância, a maior população carcerária relativa e absoluta do mundo, a elevação da segurança interna, enquanto os norte-americanos têm maior probabilidade de morrer por um móvel que sobre suas cabeças do que em um ataque terrorista, acordos comerciais que transferem poder soberano às corporações e a primazia dos interesses corporativos no desenvolvimento das políticas do governo federal. A reclamação sobre a mídia social – que a coerção psicológica é seu modelo de negócios e seus usuários são o produto, aponta para a questão do controle. O pânico oficial começou quando um segmento significativo da população não respondeu mais à propaganda do governo como esperado.
A ilusão implícita de que pendurar um retrato de FDR [presidente Roosevelt] era tudo o que a liderança de Weimar precisava fazer para desviar a ascensão dos fascistas alemães apoia-se em uma leitura seletiva da história. O fato de os EUA terem as maiores populações carcerárias relativas e absolutas do mundo – construídas por quase-fascistas (Nixon, Reagan) trabalhando em conjunto com liberais esclarecidos (Clinton, Biden), sugere que os oligarcas estavam / estão testando estratégias de governança que melhor se adaptem a suas necessidades. A questão que os campos de concentração alemães abrigavam ativistas anticapitalistas (comunistas) e ‘deploráveis’ antes de serem “racializados” é abordado com mais profundidade abaixo.
No documentário The Fog of War, o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara, afirmou que só anos depois do fim da Guerra do Vietnã é que ele percebeu que ninguém dos Estados Unidos jamais perguntou aos norte-vietnamitas o que eles queriam politicamente? Embora isso seja historicamente simplista – a resposta sem dúvida era difusa e a liderança política e militar norte-americana acreditava ter obtido respostas por meio de intermediários que atuavam em seu próprio interesse, isso ilustra o problema de decidir como outras pessoas viverão ou morrerão a 13 mil quilômetros de distância. A ameaça ao império seria a conclusão, por parte do povo norte-americano, de que fazer isso é, de fato, uma péssima ideia.
Outra justificativa para não dar voz às pessoas é que os que estão no poder temem que essas vozes encontrem ressonância mais ampla. Os motivos de Adolf Hitler para escrever Mein Kampf provavelmente incluíam seu poder de influenciar as pessoas a apoiá-lo politicamente. A questão então, puxada de cima, é: a ascensão do nazismo foi o resultado do poder de persuasão do nazista, ou das circunstâncias históricas da Grande Depressão, dado o resíduo da Primeira Guerra Mundial com o qual a Alemanha estava vivendo? Essas não são considerações mutuamente excludentes. No entanto, a coincidência da pior desaceleração econômica global desde a Grande Depressão em 2008 com a desmobilização da Guerra do Iraque apresenta circunstâncias que rimam assustadoramente com o presente.
O fato de os burgueses norte-americanos estarem totalmente alheios a essa ameaça de 2008 a 2016 sugere que eles ou não a reconheceram ou imaginaram que poderiam “administrar” sua saída dela. No entanto, também existe uma terceira possibilidade. Enquanto o corporativismo estatal puder ser usado para manter os ricos em iates e casas de veraneio e os burgueses em cozinhas dos sonhos, muito mais do que isso não importa (para eles). Por outro lado, se o governo Biden compartilhava do medo do fascismo que tanto motivou o discurso burguês nos últimos anos, ele poderia concluir que o problema é o mesmo establishment estatal-corporativo que o levou ao poder.
O fato de Ashli Babbitt, a mulher que foi baleada e morta durante a invasão do Capitólio, era uma veterana da Guerra do Iraque que apoiou Barack Obama sugere que descrevê-la como fascista e racista serve aos propósitos políticos de quem está fazendo a descrição. Dado o número de bandeiras confederadas e símbolos fascistas em exibição, não há dúvida de que muitos norte-americanos têm opiniões que não compartilho. No entanto, em termos de distribuição, um quarto dos democratas é abertamente racista contra um terço dos republicanos. Em vez de classe em termos marxistas, a proximidade com o poder do estado corporativo agora parece separar os fascistas de terno daqueles que podem fazer uma instalação elétrica ou hidráulica em uma casa.
Embora George W. Bush tenha aprendido que o uso do termo ‘Cruzada’ para descrever a má aventura no Iraque era menos do que politicamente vantajoso, que ele e o resto do funcionalismo se sentiam confortáveis em fazer acusações como árbitros morais e políticos depois de matar um milhão de iraquianos e destruir vários e diversos estados-nação, certamente parece uma visão do poder. Sem saber se é relevante informar, mas em várias aglomerações sociais norte-americanas, o idiota é sempre a pessoa que cai. O verdadeiro poder sabe como conseguir o que quer e sair do outro lado parecendo inocente.
É através da análise da sociedade por suposta ideologia, em vez de fazê-lo pelas alianças políticas e econômicas de classe, que The New Yorker, NPR, New York Times e Washington Post não foram considerados politica e moralmente responsáveis pela guerra dos EUA contra o Iraque. Este é o braço de propaganda do Estado que vendeu a guerra. Eles venderam uma guerra equivocada e extremamente destrutiva no Iraque e, em seguida, dobraram a aposta com o Russiagate, onde os “liberais” estavam prontos para bombardear a Rússia por US$ 75.000 em anúncios na Internet, veiculados principalmente após as eleições de 2016. No entanto, eles agora se posicionaram com sucesso como uma vanguarda antifascista?
Em contraste com a mitologia liberal, logo depois que os nazistas chegaram ao poder, os comunistas alemães foram as primeiras pessoas colocadas em ‘custódia protetora’, também conhecida como detenção por tempo indeterminado, em campos de concentração. O segundo grupo caiu no que hoje seria descrito pelos liberais como ‘deploráveis’ – os veteranos da Primeira Guerra Mundial que foram destruídos pela guerra e aqueles despossuídos pela Grande Depressão que não se alinharam com os nazistas. Em meta-termos, os campos de concentração inicialmente aprisionaram os oponentes do capitalismo e aqueles despossuídos pela guerra imperialista e pela crise capitalista.
A ideia de que ‘a ralé’ representava a base política nazista desafia tanto a história quanto a lógica política básica. Os nazistas se alinharam com o poder econômico existente. O fascismo alemão era principalmente uma forma de economia política. Foi uma fusão do militarismo de Estado com o industrialismo corporativo. A ideia de que os nazistas seriam solidários com os diferentes proprietários de pequenos negócios, comerciantes e radicais de direita que invadiram o Capitólio é uma caracterização errônea. Seus ‘parceiros’ eram industriais – a classe dominante alemã.
O ‘Business Plot‘ [complô empresarial contra Franklin Delano Roosevelt], o único esforço amplamente divulgado para influenciar um golpe fascista nos Estados Unidos, foi concebido e executado por titãs de Wall Street e executivos de negócios, não por tratadores de animais de Des Moines. O complô desmoronou quando os conspiradores tentaram recrutar o General Smedley Butler. Felizmente, o general Butler era entusiasticamente antipático à causa fascista. A conspiração foi uma luta pelo poder entre interesses concorrentes da classe dominante. O fato de os EUA se aliarem à antiga liderança nazista após a Segunda Guerra Mundial, ao invés dos comunistas, fornece uma indicação de onde residem as simpatias oficiais.
Durante a Grande Depressão, a solidariedade dos trabalhadores industriais e agrícolas despossuídos migraram para o sindicalismo e, em menor medida, para o comunismo. Os conspiradores de negócios viram isso escrito na parede. Veteranos estavam acampados em Washington DC ameaçando queimar a Casa Branca até que os bônus fossem pagos. E aqueles que os desejavam receberam ofertas de empregos no CCC (Civilian Conservation Corps). O ponto: enquanto alguns da ‘ralé’ tinham simpatias fascistas, o Business Plot foi motivado pela antipatia da classe dominante em relação às reformas do New Deal.
Mais recentemente, aqui estava o titã dos fundos de investimento Steve Schwarzmann, em 2010, comparando a ameaça taxar os administradores de fundos, pelas mesmas regras que se aplicam aos caixas da Walgreens, à invasão nazista da Polônia. Por um lado, havia vinte e cinco milhões de trabalhadores desempregados em 2010. Por outro lado, havia um dos vilões que quebrou a economia reclamando que seu oitavo iate poderia ter apenas 32 banheiros por causa da taxação excessiva. Adivinha quem recebeu assistência? Em 2016, o emprego ainda não havia retornado aos níveis anteriores à Grande Recessão. Mas o mercado de ações havia triplicado de valor em relação às baixas de 2009.
O clichê / advertência de que os nazistas ascenderam ao poder por meios democráticos retrata o capital como um espectador inocente. O fato de a hierarquia nazista, incluindo Hitler e Goebbels, estudar o processo de industrialização dos Estados Unidos – incluindo as “contribuições” da escravidão e do genocídio para a acumulação de capital, aponta para o nazismo como uma industrialização gerenciada. Em termos provavelmente mais contundentes do que os norte-americanos estão acostumados, a BBC expõe o papel do capital financeiro norte-americano nos fracassos do regime de Weimar. A ‘racialização’ desse papel pelos nazistas foi usada para não admiti-lo. Mas foram os comunistas e os “deploráveis” que foram inicialmente presos pelos nazistas, não os banqueiros.
É significativo que os liberais nos EUA vejam a iniquidade racial como ‘o problema’ do encarceramento em massa. Se fosse racialmente representativo da população em geral, seria socialmente legítimo? Consertar a distribuição carcerária por raça não faria nada para consertá-la por classe. Os pobres são mandados para a prisão nos Estados Unidos, os ricos não. Isso não é redutivo – se a má distribuição por classe fosse corrigida, a má distribuição por raça seria corrigida (principalmente). Mas se a má distribuição racial fosse corrigida, ainda haveria uma esmagadora maioria de pessoas pobres na prisão. As prisões norte-americanas são depósitos para populações inconvenientes. Isso as torna (por definição) Campos de Concentração.
A aliança da esquerda norte-americana com a segurança nacional de direita e oficiais de vigilância estaduais desde 2016 no combate aos “fascistas” parece inexplicável em termos ideológicos. O motivo? Os estados de segurança e vigilância nacionais são amálgamas corporativo-estatais que existem para impor uma ordem mundial imperial. A tentativa de golpe dos Estados Unidos na Bolívia foi para controlar o lítio para veículos elétricos liberais e verdes. O golpe dos Estados Unidos na Venezuela, que ainda está em andamento, é para controlar o petróleo. A construção do estado de vigilância domesticamente é para assegurar o controle da política interna pelo e para o capital. Isso é fascismo.
Um dos muitos bons argumentos contra a guerra de George W. Bush em 2003 contra o Iraque foi que as forças de combate se transformam em exércitos reacionários quando voltam para casa. Timothy McVeigh, o responsável pelas bombas de Oklahoma City, era um veterano da primeira Guerra do Golfo. O movimento de milícia do início da década de 1990 era formado por veteranos das guerras sujas dos EUA na América Central e da primeira Guerra do Golfo. Os veteranos que voltaram do fiasco de W. Bush no Iraque não conseguiram encontrar um emprego significativo durante a Grande Recessão. O que isso significava, na prática, uma escolha entre se tornar um policial ou trabalhar numa loja da Target colocando produtos nas prateleiras por um salário mínimo.
Os mais capazes de infligir danos entre os invasores do Capitólio parecem ser aqueles que tiveram treinamento militar combinado com uma alegada disposição de usá-lo. O fato que muitos policiais pareciam solidários com os invasores, muito provavelmente os liga por experiências compartilhadas reais ou imaginárias nas forças armadas. A militarização da polícia inclui a psicologia de ver os outros como combatentes inimigos, bem como o dever de cometer violência por um direito imaginado. Isso se manifesta em várias solidariedades, incluindo classe e os detritos residuais da história norte-americana, incluindo raça. O que está faltando nas afirmações sobre o que as pessoas ‘são’, fascistas, racistas etc., é qualquer noção de poder relativo.
Considere: os liberais realmente acreditam que os EUA estão tentando restaurar a democracia na Bolívia ou na Venezuela, expulsando líderes eleitos democraticamente e substituindo-os por peões de extrema direita dos EUA? Por que então a CIA se preocuparia com a democracia nos Estados Unidos? A CIA levou Saddam Hussein ao poder no Iraque. A CIA ajudou a instalar Pinochet no Chile. A CIA expulsou Mosaddeq no Irã e Arbenz na Guatemala. Embora seja uma organização grande e complexa, alguma proporção razoável de tudo o que é escuro e maligno que aconteceu desde 1948 pode ser sua responsabilidade.
O ponto: entre a aliança de interesses corporativos e estatais refletidos na Guerra do Iraque e os pacotes de resgates para Wall Street, e a longa história da CIA de destruir democracias em funcionamento para o benefício dos interesses comerciais norte-americanos, está o locus aproximado do poder norte-americano. Poucos atores envolvidos nessas maquinações são motivados pela ideologia. Uma das contribuições de Howard Zinn ,em A People’s History, é sua explicação dos motivos econômicos que pessoas e organizações poderosas escondem com explicações ideológicas de suas ações. Em outras palavras, o fato de que as pessoas são, por exemplo, racistas, fascistas, pouco explica a história.
Agora que Donald Trump está fora do poder, o que os oponentes liberais do fascismo pretendem fazer para separar o poder corporativo do poder político que o define? Uma das primeiras respostas é redefini-lo como domínio exclusivo de líderes autoritários. Na verdade, os nazistas basearam grande parte de sua economia política no modelo americano. Os norte-americanos forneceram a eugenia, a escravidão, o genocídio, a estrutura legal para as leis raciais nazistas e um modelo industrial que motivou uma boa parte do militarismo alemão. No presente, os norte-americanos têm encarceramento em massa, uma força policial militarizada, um grande e intrusivo aparato de vigilância, polícia política (FBI) e uma operação de espionagem doméstica público-privada.
A definição funcional que circula é: nós controlamos o Estado ou o Estado nos controla? Por implicância, esta definição exclui poder econômico e coerção. Lambert Strether brinca que os liberais a chamam de ‘nossa democracia’, o que significa que é a democracia deles. Mas isso é, em última análise, um argumento de classe. Quem quer que ganhe uma eleição, a CIA ainda tentará derrubar o governo venezuelano e a repressão política interna aumentará.
Rob Urie é artista e economista político em Nova York. Seu livro Zen Economics foi publicado pela CounterPunch Books.
*Publicado originalmente em CounterPunch | Tradução de César Locatelli