FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: ISAÍAS, O PROFETA DO MESSIAS VERDADEIRO
Por José Alcimar de Oliveira*
01. São belas, verdadeiras e fortes as palavras do Grande Profeta
Isaías. A verdade é da ordem da beleza e também o modo de ser do real.
Jesus de Nazaré faz do Profeta Isaías a referência programática de sua
missão. Não é à toa que em Lc 4, 16-19 encontramos o relato de que Jesus,
num sábado, na pequena Nazaré onde ele foi criado, entra numa sinagoga
para rezar e faz a leitura pública de um texto de Isaías. Chamar Nazaré de
cidade é um exagero. Na verdade, era um povoado e, pior, vítima de
reconhecida e construída má fama, haja vista que por diversas vezes
chegava aos ouvidos do Nazareno o preconceito corrente que repetia: pode
vir alguma coisa boa de Nazaré?
02. Sim, pode. E veio. De Nazaré veio o melhor para o mundo.
Assim como Patativa deu nome à sua pequena Assaré, no Ceará, também
Jesus universalizou a Nazaré em que aprendeu o valor da vida partilhada
com os pobres.
03. Ao entrar na sinagoga lhe dão um livro, escrito na forma de um
rolo, e Ele escolhe para ler esta passagem do Profeta Isaías:
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; enviou-me
para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração,
para anunciar aos cativos a libertação, aos cegos a restauração da vista,
para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ANO DA GRAÇA DO
SENHOR.
04. Ponho em caixa alta o final do texto acima porque ele resume o
sentido da missão de Jesus de Nazaré. Graça é força que procede do
Espírito e faz a liga ontológica entre o Deus do Povo e o Povo de Deus. A
publicação do Ano da Graça do Senhor, a partir daquele pequeno povoado
em terras palestinas, não se confunde com um outdoor, ou uma nota
publicitária paga.
05. Estamos diante de um projeto utópico em ato. Ali ele torna
público o projeto de sua vida, que também lhe vai custar a vida, em razão
de uma injusta e dupla condenação: pelo fundamentalismo religioso e
hipócrita dos Doutores da Lei, de um lado, e pelas autoridades do Império
Romano, de outro.
06. Não podemos nos esquecer que a Palestina de Jesus, naquele
tempo, estava ocupada pelas forças imperiais romanas. Mas Jesus enfrenta
os dois poderes. Não negocia sua liberdade. É por isso que Santo Irineu
(nome que vem do grego eirenaios e que traduzimos por pacífico), que
viveu no século II depois de Cristo, afirma que Jesus de Nazaré foi o único
homem livre da história.
07. Na liturgia da missa de minha ordenação sacerdotal, em 26 de
fevereiro de 1983, na Igreja de São Jorge, em Manaus, escolhi como leitura
este belo texto escrito por Lucas. A burguesia costuma repetir que os anos
de 1980 perfizeram a década perdida. Digo o contrário: foram anos
luminosos, de lutas e conquistas sociais. Porque onde há luta por justiça e
direitos coletivos, há luz. Ninguém apaga a verdade da história: da luta
pelas diretas, da Constituição de 1988, das Pastorais Libertadoras, das
Comunidades Eclesiais de Base, da Teologia Latino-Americana da
Libertação.
Anos de semeadura libertária. Estas sementes, a despeito das
cinzas produzidas pelo neoliberalismo, continuam vivas como brasas à
espera de um sopro coletivo.
*José Alcimar de Oliveira, teólogo sem cátedra, em Manaus, AM, 05 de fevereiro de 2021.