FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: A QUEM COLETIVAMENTE EDUCA E SE EDUCA NO ATO COLETIVO DE EDUCAR
Por José Alcimar
Entre o otimismo messiânico, de um lado, dos que pensam que a educação pode tudo (a teoria de Amós Comênio) e hoje manipulado pela burguesia sob a forma de um otimismo fraudulento – como “o todos pela educação” e seu incentivo imbecilizante ao voluntarismo e ao voluntariado, como se a miséria das condições objetivas pudesse ser compensada pela boa vontade docente – e, de outro, o pessimismo, ainda que crítico (mas refém da fatalidade reprodutivista, como o de Althusser), para quem a escola está condenada a reproduzir a ideologia das classes dominantes, fico com a sábia sentença pedagógica do mestre Paulo Freire: a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa.
E desse poder alguma coisa não podemos abdicar, jamais. A tragédia maior da política educacional brasileira é também a não compreensão política dessa tragédia. O que é uma forma, a mais socialmente danosa, de manter a população na condição de massa disponível ao arbítrio da autocracia burguesa e sempre impedida de se reconhecer como povo e como classe.
Diante desse quadro regressivo o que nos cabe é lutar com as armas que temos para, desde o presente, na e pela práxis, materializar construção de uma outra sociabilidade. Brecht não gostava de lápides. Deixou apenas a recomendação de uma, caso lhe fizessem tal homenagem: fez projetos. Muito verdadeiro. Sua vida foi um projeto coletivo. O tempo de seu teatro era o espaço da formação humana. Nunca cedeu ao dramatismo da catarse burguesa. Investiu no épico da pedagogia popular. Movia corpos e mentes pela reflexão, jamais pela comoção do sadismo lacrimejante. Quem comove paralisa. Quem educa move.
Agir sempre, mesmo sem esperança, como nos ensina o mestre Sartre. Se alguma esperança houver, será necessariamente a que nasce da ação. Por fim, a lição do Mouro de Trier: somente quando assimilada pelas massas a teoria pode se converter em força material.
15 de outubro de 2020, no dia professorante e aos 176 anos do nascimento de Nietzsche.
José Alcimar de Oliveira, que na contabilidade histórica das perdas e danos mantém o entusiasmo pelo ato educativo, na sala de aula e fora dela.