LUIS NASSIF: PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA E NÃO SE REPITA: A DELEGADA FEDERAL DENISSE RIBEIRO

 

Na semana passada, o Ministério Público Federal de Minas Gerais opinou pelo arquivamento do inquérito, por falta de indícios e de provas. Mas como ficarão os abusos da delegada Denisse Ribeiro e seus colegas?

A delegada federal Denisse Ribeiro invadiu o hospital, armada de um mandado judicial, e interrogou Carolina Pimentel de Oliveira, esposa do ex-governador mineiro Fernando Pimentel, grávida de 8 meses.

Para uma mulher prestes a dar a luz ela insistia que aceitasse delatar o pai de sua filha, oferecendo em troca atenuar ou encerrar as investigações contra ela.

A mídia calou-se. Os Ministros do Supremo ignoraram. A cada 15 dias saia uma reportagem em cima de informações vazadas. E as reportagens alimentavam redes de ódio, fake news, memes desmoralizantes de Carolina, a mesma tática utilizada, tempos depois, contra jornalistas e Ministros do Supremo, suscitando, aí sim, justas manifestações de indignação.

O país viveu o Estado de Exceção de 2013 até o ano passado. Houve invasões de universidades, de escolas, prisões arbitrárias, trataram os adversários como inimigos, toleraram-se todos os abusos. Mais do que tolerar, estimularam abusos, em um macarthismo amplo que dividiu os atuais campeões da legalidade em dois grupos: os que delatavam e os que se calavam.

Mas nenhum personagem teve papel mais abjeto que Denisse Ribeiro. Talvez Erika Marena humilhando professores da Universidade Federal de Santa Catarina e levando o reitor ao suicídio; Igor Romário de Paula exibindo Sérgio Cabral Filho algemado pelos pés e pelas mãos.

Mas dentre as vilanias do período, nenhuma se equipara a uma delegada, mulher, pressionando uma investigada, mulher prestes a dar luz, a delatar o pai de sua filha.

Não apenas isso.

No início da gravidez, a Policia Federal invadiu o apartamento do casal Pimentel, sem autorização do Superior Tribunal de Justiça, vasculhando quartos, móveis, gavetas, fazendo apreensões ilegais. E provocou o diagnóstico de gravidez de risco que acompanhou Carolina até o nascimento de sua filha.

Não apenas isso.

Periodicamente, eram vazados para a mídia informações enviesadas criando uma falsa escandalização.

Todas as denúncias saiam da mesma fonte, um marqueteiro acusando Carolina de ter atuado para impedir que o BNDES desse um financiamento para Abilio Diniz recomprar sua participação no Pão de Açucar. Ora, colunistas do próprio O Globo atacaram a tentativa de Abilio de obter empréstimos do BNDES.

Sobre esses vazamentos, vinha uma enxurrada de notícias falsas, memes usando o nome de Carolina como marca de sabão em pó para lavar dinheiro. Era a mesma estrutura de robôs que, tempos depois, atacaria jornalistas e provocaria enorme comoção nacional e enorme união da mídia em defesa dos seus.

A maior demonstração de apego à legalidade é defender os direitos dos adversários de ideias, como ensinava Sobral Pinto defendendo Luiz Carlos Prestes. Na ditadura instalada a partir de 2013, todos os abusos não apenas foram permitidos, mas foram estimulados. O mesmo Estadão que publica um editorial histórico contra os abusos da Lava Jato era o jornal que, a cada 15 dias, abrigava um vazamento proporcionado pelas investigações da Operação Acrônimo, alimentando a indústria das fake news contra Carolina.

Na época, calaram-se Supremo, mídia, associações de jornalistas – Carolina é jornalista -, porque o estado de exceção, o direito penal do inimigo, já havia sido assimilado pelo grande arco do ódio que se criou em um país sem tradição democrática, no qual o ranço da selvageria mora no coração não apenas da classe média baixa, mas dos que se pretendem elite.

A campanha criou constrangimento até em mulheres da esquerda, relata Carolina, em cima da máxima de que onde há fumaça há fogo. Me lembra certa vez, quando defendi o deputado Orlando Silva de ataques baixos, inverossímeis contra ele, em cima do depoimento de um ex-PM alucinado. Fui a um evento e, sogra e esposa vieram agradecer pelas matérias porque, assim, poderiam mostrar aos próprios parentes que Orlando era um político sério.

“Já as mulheres de direita buscavam quase sempre desmoralizar pelo ridículo. De outro lado, por ofício ou por opção ideológica, não faltaram colegas de profissão multiplicando os questionamentos, explorando ilações descabidas”, diz ela, em depoimento publicado no El Pais.

A delegada Denisse Ribeiro ganhou poder, influência, massacrando pessoas indefesas. Tempos depois, foi incumbida pela PF de chefiar a operação solicitada pelo Ministro Alexandre de Moraes, do STF, contra youtubers bolsonaristas. Recusou a entrar nas casas, alegando que a operação poderia criar instabilidade política.

Mas, enquanto viver, ao lado de Erika, e de Igor, serão lembrados para sempre, seja pela mídia recém-liberal, seja pelos arquivos do Google que, certo dia, invadiu um hospital para pressionar uma mãe prestes a dar a luz a denunciar o próprio pai de seu filho.

A verdadeira democracia será alcançada quando os órgãos civis da repressão limparem seus organismos trazendo para fora os abusos do período.

Na semana passada, o Ministério Público Federal de Minas Gerais opinou pelo arquivamento do inquérito, por falta de indícios e de provas.

Mas como ficarão os abusos da delegada Denisse Ribeiro e seus colegas?

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