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Então, O Chico, cantou: “Todo dia ela faz tudo sempre igual. Me sacode às seis horas da manhã. Me sorrir com um sorriso pontual. E me beija com a boca de hortelã (Cotidiano).

Recognição da cotidianidade. ” A existência é cotidianidade entre o nascimento e a morte”, diz o filósofo Heidegger. São as realizações dos possíveis, mas a morte é possibilidade impossível, visto que já se nasce com ela. É o humor da pre-sença. Homem.  

Você acorda, faz sua higiene, olha-se no espelho, o reflexo diz de um além-você, mas você não percebe. O cotidiano clama em seu discurso-recognitivo. O café, a TV, as notícias-acalmadoras, o horóscopo, o tempo. Já na rua você observa o vendedor de jornal na esquina, observa os que se deslocam para seus afazeres. Você é um trabalhador em busca de seu salário, diria novamente Chico. Um cidadão-comum, diria Belchior. Recognição do mesmo que nem sequer desconfia da mais-valia. “Trabalhador, tu é otário!”, proclamaria Gonzaguinha. Este seu princípio de realidade. 

Você acorda, faz sua higiene, olha-se no espelho e sorrir um sorriso dos vitoriosos. Sua mulher lhe beija, seus filhos pedem a bênção, engole o café com a pressa habitual de sua classe. Entra no carro e inicia seu cotidiano trajeto. Buzina, engarrafamento de veículos, nada disso lhe tira de sua preocupação maior: o lucro. A recognição do mesmo em forma de satisfação-exploração. O mundo do seu lucro. Suas leis, seus valores, seus projetos, tudo lhe pertence. Este seu princípio de realidade. Se dominasse algumas doutrinas filosóficas diria com o filósofo Leibniz que o mundo é uma mônada, uma harmonia pré-estabelecida em forma de capital. 

Você acorda, faz sua higiene, olha-se no espelho, porém o espelho não mais lhe reflete. Toma um café amargo. Na rua não, não percebe mais o vendedor de jornal, não há mais transeuntes, você está só no meio do deserto-urbano. Você treme diante da impossibilidade de recognição. 

Você acorda, faz sua higiene, olha-se no espelho, porém o espelho não mais lhe reflete. Ao café sua mulher lhe beija sem “a boca de hortelã”. No carro, em plena a avenida, percebe o ameaçador vazio. Treme e teme o inusitado. Procura se acalmar imaginando seu amor maior: o lucro. Se não fosse ateu e tivesse lido Marx, imaginaria, para se acalmar, seu deus maior: Mamom. Pelo contrário, sua imaginação só intensifica seu tremor e temor. Inapelável: impossibilidade da recognição.

Ambos percebem a cruel dissipação da cotidianidade. A impossibilidade da recognição do mesmo que sustentava a doce alegria da segurança do mesmo como infalível-existência. Agora, o princípio de realidade se apresenta cru, incapaz de ser digerido, indigesto. Crudelis, cruel, despojado de qualquer ornamento-sedutor-enganador. A crueldade do real sem qualificação moral, mas  “o caráter único, e consequentemente irremediável e inapelável, desta realidade – caráter que impossibilita ao mesmo tempo de conservá-la à distância e de atenuar seu rigor pelo recurso a qualquer instância que fosse exterior a ela”, como afirma o filósofo Clément Rosset. 

É este cruel princípio de realidade que não mais permite a correspondência entre o interior, hábitos, costumes, modus de ser cotidiano, com o exterior-cruel. Não é angústia, visto que a angústia é o móbil da vida. É medo. O medo cruel espalhado por todos os lados. Como diz o poeta-filósofo Gérard Nerval: “Hipocondria-melancólica: É um mal terrível: faz ver as coisas tais como são”. Não há como fugir desta presença-cruel que se impõe. Nem o recurso do pensamento mágico quando alguém contabiliza números sem saber que nada muda, nem sua própria condição de medo cobrado como pendência por ter negado a vida. 

Esta é a Situação, diz o filósofo Sartre: ser responsável por suas escolhas. Não trata-se de se fazer contabilidade de mortos, mas de saber o quanto se fugiu com medo da existência, se tornando o covarde da nadificação. A exaltação-histórica do Nada. Daí a preocupação com os números de mortos. Sem se saber que um morto é toda a humanidade morta, assim, como um nascimento é o nascimento de toda humanidade. Embora ela seja pessoal, todavia sua historicidade é ontológica revelação do impessoal. 

O corpus do sistema-capitalista é o propulsor da morte. É por isso que ele precisa dos delírios mistificadores, mitificadores, fetichistas e  alienados para se manter o que faz com que muitos que se tomam como esclarecidos, intelectuais, artistas, militantes, também engulam esses pratos tratados por bons nutricionistas do capital, principalmente em forma de modus de ser imposto pela sociedade de consumo.  

Construiremos outro mundo sem precisar ligar os pedaços dos espelhos estilhaçados para não corremos o perigo de reanimar  a medíocre cotidianidade esculpida pelo psicopatologia-burguesa que serviu de modelo-dominante para ser seguido e defendido que nos empurrou para o atual princípio de crueldade. Para isso, é preciso destruirmos nossos medos que diante da crueza da situação nos permite sublimar, disfarçadamente, nossa dívida Ôntica e Ontológica como o Estar-No-Mundo para a Vida. Medo que o psiquiatra W. Reich chama de abstinência-sexual, deslocamento-projetivo do sentimento de culpa 

Com o mundo impossibilitado de re-recognição – não re-repetição do passado-alienado -, não haverá elementos políticos-afetivos-cognitivos para o burguês recantar, Benito di Paula: “Tudo está no seu lugar, graças a Deus, graças a Deus”. 

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