LINCOLN SECCO: É HORA DE UMA GREVE GERAL HUMANITÁRIA

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italia
28/03/202

Crise e Oportunidade, Por uma Greve Humanitária

Por Lincoln Secco*

Nunca antes a classe trabalhadora brasileira enfrentou um dilema assim: optar por um emprego letal ou lutar pela vida e exigir do Estado a inversão de suas prioridades.

O Governo apostou em mobilizar sua base social com um discurso arriscado, porém racional em sua irracionalidade genocida.

A famiglia no poder sabe que não tem opção: se aceitar a união sagrada com partidos, congresso e mídia vai se tornar parte do establishment e perderá qualquer possibilidade de reeleição.

Em Movimento

O bolsonarismo só existe como mobilização permanente.

A pandemia retirou os holofotes de suas performances bizarras.

E por um motivo óbvio.

Seu discurso sempre teve como base uma doença imaginária.

O corpo nacional íntegro, são e masculino só poderia ser violado pela “ideologia” que é tão invisível quanto o covid 19.

A “ideologia” não pode ser vista, mas suas manifestações são sentidas no modo de vida.

Aquele que acredita no discurso (ideológico) contra a ideologia sabe que seu inimigo está enraizado no cotidiano.

Por mais que deseje a submissão da mulher, a erradicação da homossexualidade, o controle da educação e o fim das artes, reconhece que isso não é possível e que o “vírus” ideológico pode estar dentro dele mesmo.

O líder manipula exatamente esse sentimento para a mobilização perene.

Promete repressão para os que já se reprimem.

A Novidade

Ora, diante de um vírus real a manipulação entrou num curto circuito.

As pessoas passaram a temer uma ameaça verdadeira.

Paradoxalmente, o chamamento de Bolsonaro foi para a morte.

Isso não nos deve espantar: os alemães sitiados ainda acreditaram na arma secreta do Führer.

Na atualidade os fascistas creem no sacrifício para que continuem a rodar as roletas dos cassinos financeiros.

É claro que seu apoio popular se fundamenta em interesses reais.

Ao contrapor os efeitos da pandemia aos custos econômicos do lockdown o governo reaviva suas redes sociais e dialoga com milhões de pequenos comerciantes que fecharam as portas, inquilinos sem renda para o aluguel, famílias endividadas, os que temem uma onda de saques…

A Saída

Até que haja um remédio eficaz e uma imunização massiva para o vírus real a classe trabalhadora só terá uma saída: recusar-se a trabalhar.

Se for bem sucedida a conjuntura vai mudar radicalmente.

Porque isso só acontece a partir da base produtiva e não de disputas parlamentares.

As relações de produção são antes de tudo relações de força.

As centrais sindicais estão emudecidas diante de uma oportunidade única.

A perspectiva para uma classe que não pretende morrer é não se alistar nos exércitos suicidas que reabrirão as empresas e, se necessário, promover uma greve geral humanitária internacionalista.

É preciso declarar isso desde já.

*É professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo

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