“O MOMENTO NÃO É TÃO DIFERENTE DO MOMENTO EM QUE O NAZI-FASCISMO CRESCEU”, DIZ PESQUISADORA

17 DE JANEIRO DE 2020.

Em entrevista à Fórum, a antropóloga Adriana Dias, que é especialista no tema, jogou luz em inúmeros aspectos nazistas no governo Bolsonaro para além do discurso do agora ex-secretário da Cultura

Bolsonaro durante desfile dos Artilheiros da Reserva, da Ativa e de Alunos da Escola Militar em Santa Maria (RS) (Foto: Alan Santos/PR)

Para a colunista da Fórum, Adriana Dias, que é doutora em antropologia social pela Unicamp e que há anos pesquisa o fenômeno do nazismo, o discurso do ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, que imitou o ministro nazista Joseph Goebbels tanto na estética quanto no texto, não é um caso isolado no governo Bolsonaro. Para a pesquisadora, além do próprio Jair Bolsonaro e integrantes de seu governo flertarem com ideias nazistas, o momento que estamos vivendo carrega características parecidas com aquele que, nos anos 1930, possibilitou a ascensão do nazismo na Alemanha.

“Existem muitas semelhanças entre o governo Bolsonaro e o início do nazismo na Alemanha de 1930 (…) É muito importante a gente pensar que essa explosão cultural que a gente estava vivendo e essa tentativa de refrear com essa questão do discurso moral também foi uma tática hitlerista. Dizer que a Alemanha era um país moral, também houve essa questão e, por isso, Hitler devia assumir o poder e controlar aquela liberação cultural que estava acontecendo. Todas essas questões já aconteceram na Alemanha. Se a gente fosse capaz de olhar um pouco a história, o passado, com calma, a gente veria que esse momento não é tão diferente do momento em que o nazi-fascismo cresceu”, disse a pesquisadora em entrevista à Fórum.

Adriana Dias ainda elencou uma série de exemplos que escancaram aspectos nazistas dentro do governo.

Confira, abaixo, a íntegra da entrevista.

Fórum – O que você, como pesquisadora do nazismo, pensa sobre esse discurso em referência a Goebbels do agora ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim?

Adriana Dias – Eu acho que o discurso do Roberto Alvim, ele, tanto em estética – e eu considero estética a forma como ele tá sentado, os objetos de mesa, o rosto dele, a maneira como ele penteia o cabelo, as roupas que ele escolheu, o tom da roupa, a maneira como ele colocou o quadro de fora de enquadro, a música que ele escolheu, que inclusive é uma ópera de Wagner, de uma pessoa que não pode revelar a verdadeira natureza, que demonstra que talvez ele esperasse não ser descoberto – quanto o texto, o programa que ele definiu, eu os considero absolutamente nazistas.

O Bolsonaro dizer que o nazismo e o cristianismo não combinam é uma verdadeira falácia. O nazismo utilizou os elementos cristãos para poder sobreviver dentro da Alemanha, no período de formação e para poder se construir, se solidificar na Alemanha. A gente deve lembrar que 90% do partido nazista se dizia cristão, e dentro desse povo que se dizia cristão os elementos de sangue, de transubstanciação, foram utilizados à exaustão pelo nazismo. Então, qualquer pessoa que estude minimamente o discurso nazista vai ver que os elementos cristãos estão presentes.

Até porque o nazismo vem de uma herança cultural antissemita que é cristã. Lutero escreveu um livro chamado ‘Judeus e suas mentiras’, que foi fundamental para se criar uma cultura antissemita dentro da Alemanha, uma cultura que já existia, inclusive, dentro do cristianismo desde Agostinho. Agostinho de Hipona criou o antissemitismo, ele escreveu o livro ‘Ódio aos Judeus’, que fundamentou todo o antissemitismo da cristandade e a própria Inquisição. Então, dizer que ser cristão não é ser nazista é uma falácia. Na verdade, você pode ser cristão e ser nazista. Agora, você não pode realmente viver o cristianismo de verdade, vivo, seguindo os preceitos de amor de Cristo e ser nazista. Mas “ser cristão” como 90% das pessoas se dizem cristãs, de denominação, é absolutamente possível, tanto que foi o que o Hitler fez, ele utilizou os elementos do cristianismo, o próprio Hitler vinha de uma família cristã.

Fórum – O discurso do secretário Roberto Alvim pode ser considerado como apologia ao nazismo? Isto é, pode ser considerado criminoso?

Adriana Dias – O discurso do Roberto Alvim é claramente um plágio de um nazista. E, sendo plágio de um nazista, ele é inaceitável, é criminoso, embora a nossa legislação considere apologia ao nazismo uma coisa muito complicada. Alguns juízes não têm dado apologia ao nazismo para coisas que são claramente apologia ao nazismo. Então, eu acho que a nossa legislação precisa ser revista, eu tenho defendido isso há muitos anos. Eu tenho um Projeto de Lei para essa revisão, porque eu acho que a nossa legislação tem que se aproximar mais da legislação alemã, porque o nazismo e o neonazismo têm mais símbolos hoje, tem mais elementos. Então, a gente não pode ficar só no uso da suástica, porque já tem muitos elementos e símbolos que são adquiridos pela narrativa neonazista que precisam ser incluídos.

Eu considero criminoso [o discurso de Alvim], eu acho que ele tem que ser punido. Eu espero que esse senhor, além de punido, não consiga emprego mais em lugar nenhum, por ter mostrado a verdadeira face dele, mas eu não tenho essa esperança de ele ser punido, na verdade. Eu ando bastante desacreditada com a Justiça brasileira quanto aos aspectos de criminalização do nazismo.

Fórum – Essa manifestação do Alvim pode ser considerada como um caso isolado no governo? Ou considera que esse governo, de fato, tem aspectos nazistas? Em caso positivo, quais?

Adriana Dias – Eu não acho o Alvim um caso isolado no governo, porque eu já vi muitas manifestações no governo que falam de um nazismo. Primeiro que a plataforma desse governo é de uma supremacia branca, de uma maioria, que já é, por si só, uma questão nazista. Quando a gente diz ‘ah, mas esse governo aceita Israel’… Tá, mas outros nazistas aceitam Israel.

O atentado de 22 de julho na Noruega, em 2011, na ilha de Utøya, feito por Breivik, ele é um atentado claramente de extrema direita, nazista. E ele é um cara que, diz o manifesto que ele publicou, aceita Israel, que ele aceita que Israel seja um Estado. Então, hoje, Israel sendo um Estado, seria difícil um governo nacional-socialista se opor a Israel, porque teria medo de uma reação. Isso eu acho que protege um pouco o judaísmo, que é uma minoria no mundo.

Mas esse governo já deu várias provas da sua orientação ideológica. Por exemplo, uma delas foi ano passado, no 7 de setembro, quando a banda da Marinha cantou uma música de saudação nazista, a música do soldado nazista que vai pra guerra.

Um outro momento foi quando o Exército Brasileiro fez uma homenagem a um membro do exército nazista, o que chocou todo mundo, inclusive. Outro momento foi quando o pai do Ernesto Araújo [ministro das Relações Exteriores] tentou impedir que fosse extraditado um nazista, aqui no Brasil. Então, eu acho que tem um somatório de problemas, e tem as próprias falas do Olavo de Carvalho, que é um antissemita, inclusive um seguidor de Agostinho que, como eu falei, foi o primeiro antissemita da história. E você pode ver que, quando o Olavo de Carvalho nega a Inquisição, ele tá fazendo um revisionismo histórico muito violento do judaísmo, que foi muito perseguido na Inquisição.

Agora, as maiores características desse governo não são suas reminiscências nazistas, mas os aspectos mais claros da sua constituição. Esse culto exacerbado da masculinidade, da supremacia branca, que imerge o Brasil em uma narrativa de cultura do estupro, cultura de armas, cultura armamentista de violência e militarismo, que só visa a gente esquecer os elementos mais empáticos da natureza brasileira; e, com isso, ficar completamente odioso ao outro, construindo outros convenientes, como o judeu, o negro, o imigrante, o nordestino, o gay, a serem odiados. A cultura de ódio do governo Bolsonaro é profundamente xenófoba. A gente pode apresentar o caso da jornalista japonesa, que ele falou que deveria voltar pro Japão, foi horrível. É um exemplo muito forte de como ele está formando uma cultura de ódio. Essa cultura de ódio é um aspecto nazista terrível desse governo.

Uma outra questão são os aspectos eugênicos desse governo, por exemplo, segregando as pessoas com deficiência e querendo criar instituições para essas pessoas permanecerem apenas em casa ou instituições, o que é, de uma forma, uma facilitação de uma futura esterilização ou extermínio. Foi assim que o nazismo começou, segregando as pessoas com deficiência em instituições. Além disso, essa verbalização do discurso contra a pobreza, que ele [Bolsonaro] fala que pobre deve ser esterilizado, ele já falou, essa discussão horrorosa sobre a viabilização de venda de órgãos, que é uma outra forma de extermínio. Essa transformação de pobre em um objeto a ser eliminado, não ver a pobreza como algo a ser resolvido, mas como a ser eliminado. Isso é uma coisa muito forte também. A sociedade nazista se utilizou muito das grandes empresas e transformou as pessoas que reagiam ao sistema ou que não queriam entrar na luta do sistema em miseráveis que foram mandados para o campo. Então, eu tô vendo a hora desse governo mandar confeccionar estrelas vermelhas pra os comunistas e os diferentes, e mandar confeccionar algum tipo de cor de estrela para quem eles vão chamar de vagabundos que são os pobres.

Fórum – Os discursos de Bolsonaro e integrantes de seu governo fomentam o fortalecimento de grupos neo-nazistas?

Adriana Dias – Eu não vejo o Bolsonaro fazer discurso, eu vejo ele fazer ataques e vociferar ódio. Eu não consigo entender a fala do Bolsonaro como discurso, porque ela teria que ser coerente o suficiente para ser um discurso. Como não é, eu diria que o que o Bolsonaro faz, na maioria das vezes, é vociferar ódio, agir como uma grande, enorme besta. Então, eu realmente não consigo ler o que ele fala como discurso. Mas se a gente for ler a prática dele como discurso, aí sim eu diria que ele tem um discurso. Os seus integrantes e a prática dele fomentam [o fortalecimento de grupos neo-nazistas]. O dobro dos grupo estão surgindo no Brasil desde que ele se candidatou à presidência, pesquisas provam.

Mais do que isso, as pessoas estão perdendo o medo de se dizerem nazistas no Brasil. Elas estão saindo em cena pública com faixas, com suástica, e o discurso nazista, que antes estava em uma parte mais interna da sociedade, agora tá absolutamente exposto nas ruas. Isso que eu acho mais perigoso, porque tá dentro de um balizamento, uma aceitação por parte do governo desses discursos da extrema-direita, de Klu-Klux-Klan, mesmo. E isso tem me deixado muito chocada, porque faz com que as pessoas que verdadeiramente desejam um país pacífico, democrático, estejam se sentindo sufocadas.

Fórum – Como você avalia o comportamento da imprensa com relação a aspectos extremistas do governo Bolsonaro? Acha que há uma certa “timidez” em associá-lo, de fato, ao nazismo? Seria correto o fazer?

Adriana Dias – A imprensa já perdeu o trem da história, no sentido de chamá-lo de extrema-direita. Eu acho que outros países tiveram mais coragem, de chamá-lo do que ele é, e acho que tá na hora da gente desmascarar de vez o Bolsonaro, e eu acho que é a única forma de combater Bolsonaro nesse momento, e o pensamento nazista, que tá aí submerso, e que começa a tomar essa faceta pública… Não que todo mundo que votou no Bolsonaro seja nazista, teve gente que foi enganada. Mas as pessoas que utilizaram esse momento para expressar o seu nazismo, eu acho que a única forma de lidar com isso é resistência e rua. É claro que não dá mais para ficar só fazendo panfleto, porque nós não estamos mais na Comuna de 1848, mas a gente precisa ir para a rua, precisa realmente sair dessa acomodação. Eu acho que o brasileiro ainda tá no susto de que “ele fez o que ele prometeu”, mas eu acho que a gente precisa sair dessa acomodação imensa e começar a formar uma resistência mesmo, porque o nazismo foi vencido com resistência, e é na resistência que a gente vai vencer.

Existem muitas semelhanças entre o governo Bolsonaro e o início do nazismo na Alemanha de 1930. Eu recomendo muito que as pessoas vejam uma série chamada Babilônia Berlim, que fala disso, como, por exemplo, o uso de milicianos, que era muito parecido com o uso de milicianos no momento, nas tensões políticas das cidades, o lugar que os milicianos ocupam. Também falo que é muito importante a gente pensar que essa explosão cultural que a gente estava vivendo e essa tentativa de refrear com essa questão do discurso moral também foi uma tática hitlerista. Dizer que a Alemanha era um país moral, também houve essa questão e, por isso, Hitler devia assumir o poder e controlar aquela liberação cultural que estava acontecendo. Todas essas questões já aconteceram na Alemanha. Se a gente fosse capaz de olhar um pouco a história, o passado, com calma, a gente veria que esse momento não é tão diferente do momento em que o nazi-fascismo cresceu. Então, a gente tem uma certa lição a aprender, que é a lição da resistência. A gente tem que formar uma resistência muito sólida, muito sólida mesmo. Resistência e rua. Acho que agora cada brasileiro tem que ficar cada vez mais consciente de que tem dois lados a escolher: ou o lado desse governo, ou o lado da humanidade. Não tem outra opção.

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