FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR DE OLIVEIRA: RISO E LUTA DE CLASSES EM TEMPOS RIDÍCULOS
José Alcimar de Oliveira *
01. Ridendo castigat mores (castiga os costumes rindo) era o lema do grande
Molière (1622-1673). Em regra, a direita, e a ultra ao extremo, é carente!de humor.
Melhor dito: de bom humor. O poder autoritário, à! esquerda ou à direita, sempre foi
refratário ao bom humor. A potência da alegria, livre e inteligente, é constitutivo
ontológico da liberdade do povo-multidão.
02. Com Espinosa e Marx,num itinerário dialético comum,a teoria se converte
em potência material quando se faz unidade com o povo-multidão. Unido, livre e alegre,
ele jamais será vencido. O bom humor, inteligente e livre, é potência do pensar e do
agir. A força do bom humor reside em sua leveza. O bom humor subtrai peso às
relações que se edificam pela política do ódio, do medo e da!aversão ao pensamento.
Que humor pode haver no riso ridículo e travado de um fanático ou fundamentalista,
político ou religioso?
03. Um dos meus mestres literários,Milan Kundera,assegurava que tudo que se
reveste de obrigatoriedade é não sério, porque o sério é necessariamente facultativo. Por
que a ortodoxia eclesiástica do medievo condenava o riso? Porque o riso afastaria o
temor de Deus, e sem o temor a fé seria impossível. Mas a boa teologia ensina que o
maior inimigo da fé é o fanatismo, a superstição, não a dúvida ou o riso. Talvez por isso
Nietzsche dissesse ser incapaz de acreditar num Deus que não soubesse dançar.
04. Sim,o riso. Os fanáticos não costumar rir.Foi a coragem do riso livre da
criança que se contrapôs à farsa servil e ridícula dos que se negavam a declarar que o rei
estava nu. O ridículo também se combate com o riso. E os maus costumes igualmente.
O riso livre, inteligente, é parte da bene morata civitas, a cidade dos bons costumes, de
que falava Cícero. O bom humor é constitutivo da sanidade pessoal e coletiva.
05. Onde houver concentração de poder,o bom humor será sempre sacrificado.
Nenhuma forma de autoritarismo convive com o bom humor. O mau humor, o humor
de baixa extração, tem sempre carência reflexiva e cognitiva. Ao fustigar os maus
costumes, o grande Brecht lembrava da necessidade de recuperar um novo grande
costume: o costume de refletir novamente diante de cada situação nova.
06. Riso e pensamento contra o mau costume desses tempos tomados de ridículo e
de obscurantismo. Sócrates,!ao ser questionado por visitar diariamente os “shoppings
center” de Atenas, ele que reconhecidamente vivia em contínua penúria financeira,
limitou-se a responder: para ver as coisas de que não necessito para viver.
07. É necessário combinar riso e luta de classes como dispositivos de saúde
coletiva e de consciência de classe para que a classe que vive do trabalho potencialize o
projeto comum de que um outro mundo é possível.
* Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e filho
dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, 03 de novembro de 2019.