FILÓSOFOS VICTOR LEANDRO E MAURÍCIO BRAGA: O NEOPOLÍTICO DISTÓPICO: PROCESSOS SOCIODIGITAIS E ESCALADA CONSERVADORA

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Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.12, n.35, p. 70-86, jun.-set.2019
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O neopolítico distópico: processos sociodigitais e a escalada
conservadora
Victor Leandro da Silva1
Mauricio Nascimento Braga2
Resumo: Nos anos mais recentes houve um deslocamento do debate político
outrora circunscrito aos grandes veículos midiáticos e às ações praticadas corpo a
corpo, para o ambiente das redes digitais. Com isso, constitui-se um novo cenário
para esse tipo de discussão, o qual, embora tenha sido assimilado inicialmente
com otimismo, desembocou para a organização maciça de iniciativas repressoras.
O presente estudo visa abordar os aspectos conceituais estruturantes desses
movimentos, bem como analisar de que maneira tais fenômenos atingem em
cheio a cena pública brasileira, marcada por um forte predomínio comunicacional
das frentes conservadoras, que, amparadas por uma base virtual falsamente
democrática, promoveram a ascensão da extrema direita a patamares antes
improváveis pelas vias eletivas.
Palavras-chave: Virtual. Redes digitais. Política. Democracia. Movimentos
sociais.
1 Licenciado em Filosofia pela UFAM. Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade
Federal do Amazonas. Professor Adjunto da Universidade do Estado do Amazonas.
2 Licenciado em Letras pela Universidade do Estado do Amazonas. Membro do Grupo Sdiscon-
Linha Semiótica, pós-modernidade e crítica da cultura.
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O NEOPOLÍTICO DISTÓPICO (…) VICTOR LEANDRO SILVA E MAURICIO NASCIMENTO BRAGA
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Abstract: In recent years, the political debate once limited to the media vehicle
and to the face-to-face discussion shifted to the social network environment.
Therewith, a new scenario is created for this type of discussion that led to the
massive organization of repressive initiatives although it was optimistically
assimilated at first. The present paper aims to approach the structuring concepts
of those movements, and to analyze in which way these phenomena fully reach
the public Brazilian scene marked by a strong communicative predominance of
the conservative front supported by a virtual base falsely democratic which raised
the extreme right to unlikely levels through the elective paths.
Keywords: Virtual. Social network. Politics. Democracy. Social movements.
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Introdução
O advento e a massificação das redes sociais provocaram uma série de possibilidades
que, com o passar do tempo, foram sendo aproveitadas por diversos setores da
sociedade. A política, como parte integrante do corpo social, não escapou a esses
desígnios, tendo muito dos seus processos atravessados pelas grandes mudanças
ocorridas a partir da inserção de seus agentes nos meios digitais.
Com isso, surgiram diversos movimentos transformadores da formatação
de poder em diversos países. No Brasil, tais modificações também se fizeram
presentes, em especial a partir do ano de 2013. No entanto, o que parecia uma
nova virada democrática, acabou se tornando mais um mecanismo de opressão
social e de expansão do pensamento conservador e autoritário, gerando uma
série de novas organizações que atentam fortemente contra as bases coletivistas
e o estado de direito, pilares fundantes do Estado brasileiro formado desde a
constituição de 1988.
Assim, discutir a presença da internet no panorama político é de
importância central para entender os processos vigentes. No entanto, tal somente
se realiza se entendermos a gênese de sua organização, motivo pelo qual o debate
deve se iniciar pelo estudo de seus princípios, os quais encontram-se concentrados
no conceito de virtual.
Sobre a virtualização
Com a popularização da internet muito tem se falado sobre o meio virtual.
Contudo, para além do senso comum, o que é a virtualização? Como, e a partir
de quando, começou esse fenômeno? Quais são suas consequências? De que forma
afeta nossa vida?
Alguns pensadores tentaram responder essas e outras questões sobre o
tema. Entre eles, destacam-se dois filósofos: Jean Baudrillard e Pierre Lévy. O
primeiro nasceu em 1929, em Reims, e morreu em 2007, na capital da França;
e é considerado um dos maiores teóricos da pós-modernidade, além de ser um
escritor profícuo, cuja obra ultrapassa mais de 50 títulos. Já o segundo, nasceu
em 1956 na Tunísia, à época colônia francesa, e vive atualmente em Paris, onde
desenvolve pesquisas sobre cibercultura, inteligência artificial, tecnologias e afins.
Ambos possuem perspectivas divergentes sobre a virtualização, a qual abordam
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principalmente nos seus livros Simulacros e Simulação (1991) e O que é o Virtual?
(1996), respectivamente.
Baudrillard e Lévy se distanciam, sobretudo, no tom adotado. Enquanto
para Baudrillard a virtualização é negativa, uma vez que nos coloca em uma hiperrealidade
que destrói os referenciais e, por conseguinte, “anula o real” (Baudrillard,
1991, P. 105); Para Lévy “a virtualização não é nem boa, nem má, nem neutra”
(Lévy, 1996, p.12), é apenas um processo inerente à humanidade, que, inclusive,
“constituiu-se na e pela virtualização” (Lévy, 1996, p. 75).
Segundo o filósofo de Reims, a virtualização é a “substituição no real
dos signos do real” (Baudrillard, 1991, p. 9), tendo sido deflagrada na pósmodernidade;
onde se verifica a “passagem dos signos que dissimulam alguma
coisa aos signos que dissimulam que não há nada” (Baudrillard, 1991, p. 14). Ou
seja, quando a sociedade entra em um estágio de simulação em que ela “não tem
relação com qualquer realidade: ela é o seu próprio simulacro puro” (Baudrillard,
1991, p. 13), no qual passamos a ser “zumbis autocomunicantes, com apenas o
relé umbilical do retorno-imagem” (Baudrillard, 2004, p.44). O autor salienta
ainda que tal situação não pode ser confundida com um fingimento. Pois, como
ele ilustra, um paciente que finge estar doente, se prostrando na cama, difere de
outro que simula estar doente, manifestando de forma psicossomática os sintomas.
Este último fica em um entre-lugar de doente e não-doente, sendo nem um e nem
outro, e, portanto, “pôe em causa a diferença do <<verdadeiro>> e do <<falso>>,
do <<real>> e do <<imaginário>>” (Baudrillard, 1991, p. 9-10). Exemplos do
conceito baudrillardiano de simulação são abundantes na atualidade. Podemos
citar o incêndio na Catedral de Notre-Dame em Paris, em 15 de abril de 2019,
pois, antes mesmo das chamas serem apagadas, a opinião pública já falava em
reconstruir, tal como era, a parte destruída pelo fogo. E assim, dez dias após o
incidente, já haviam sido arrecadados 750 milhões de euros em doações para esse
fim. O interessante neste caso é que, mesmo sendo impossível substituir parte de
um edifício de mais de 600 anos, as massas viram a empreitada com naturalidade,
sem admitirem que o que está perdido não pode ser restaurado, uma vez que
possuía valor histórico. A ação então seria para anular um fato – o incêndio – e,
através da recriação do “real”, seguir como se nada tivesse acontecido.
Para o pensador da Tunísia, entretanto, o virtual não aniquila ou se opõe
ao real, mas sim ao atual. Pois Lévy parte do pressuposto da filosofia escolástica
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que prega que “é virtual o que existe em potência e não em ato” (Lévy, 1996, p.
15). Dessa forma, a virtualização, segundo Lévy, esteve presente desde a origem
da civilização; através, por exemplo, da virtualização da violência pelo contrato,
do momento presente pela linguagem, ou da ação pela ferramenta. Cabe salientar,
também, que essa mudança na atualidade acarreta uma desterritorialização,
isto é, uma “não-presença”. No entanto, o autor pondera: “ Mas nem por isso o
virtual é imaginário. Ele produz efeitos. Embora não se saiba onde, a conversação
telefônica tem ‘lugar’[…]” (Lévy, 1996, p.21). Ademais, é interessante notar que
a virtualização, para ele, é um processo autônomo ao próprio ser humano, posto
que “ela está inscrita na própria história da vida” (Lévy, 1996, p.23). Em suma,
A humanidade emerge de três processos da virtualização. O primeiro
está ligado aos signos: a virtualização do tempo real. O segundo é
comandado pelas técnicas: a virtualização das ações, do corpo e do
ambiente físico. O terceiro processo cresce com a complexidade das
relações sociais: para designá-lo da maneira mais sintética possível,
diremos que se trata da virtualização da violência” (Lévy, 1996, p.77)
À luz dessas informações, é possível fazer uma aproximação entre
conceitos tão opostos? Baudrillard desenha uma distopia; Lévy, por sua vez, vê
com naturalidade as alterações no tempo e lugar, uma vez que “cada forma de
vida inventa seu mundo e, com esse mundo, um espaço e um tempo específicos”
(Lévy, 1996, p.22). Resguardando o caráter de cada um, é possível fazer os dois
rios afluírem em um ponto comum?
Uma convergência é a constatação de uma perda de fronteiras. Essas
fronteiras são qualquer polo que antes servia para distinguir uma posição. A saber,
interior e exterior, privado e público, subjetivo e objetivo, autor e leitor, ativo e
passivo, público e atração, etc. No caso do público e privado, Lévy exemplifica
que, ao contrário do trabalhador tradicional, que se deslocava da esfera privada
da sua casa para à pública do trabalho, “o teletrabalhador transforma seu espaço
privado em espaço público e vice-versa” (Lévy,1996, p.24).
Não obstante, Baudrillard dá mais ênfase para o fim das fronteiras entre o
imaginário e o real. Segundo ele, “já não há ficção nem realidade, é a hiper-realidade
que abole ambos” (Baudrillard, 1991, p. 145), sendo a etapa de apagamento o
início do estado de simulação, como Baudrillard (1991, p.46) sentencia:
De facto, todo esse processo não pode ser entendido por nós senão
sob forma negativa: já nada separa um pólo do outro, o inicial do
terminal, há uma espécie de esmagamento de um sobre o outro […]
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É aí que a simulação começa.
[…] onde a distinção dos dois pólos já não pode ser mantida, entrase
na simulação e, portanto, na manipulação absoluta – não a
passividade, mas a indistinção do ativo e do passivo.
Após essa tentativa de contato entre os dois filósofos, é interessante,
novamente, salientarmos suas diferenças. Uma delas é, por sinal, referente à
virtualização do corpo. Para Baudrillard, tal virtualização acontece de diversas
formas, sendo a mais perceptível através da televisão; posto que, segundo seu
livro, ela “transforma-nos em personagens holográficas” (Baudrillard, 1991, p.
133). Esta imagem holográfica não deve ser compreendida como semelhante
ao real. Afinal, para o autor, a semelhança não existe na virtualização: “Quando
um objeto é exatamente semelhante a outro, não o é exatamente, é o um pouco
mais” (Baudrillard, 1991, p. 136). A imagem virtual, portanto, tem que ser
compreendida como um segundo objeto, que não mantém relação com o primeiro
que ela supostamente representa.
Lévy, no entanto, pensa o contrário. Para ele, o real continua preservado
mesmo após sua duplicação: “A virtualização do corpo não é portanto uma
desencarnação mas uma reinvenção, uma reencarnação, uma multiplicação, uma
vetorização, uma heterogênese do humano” (Lévy, 1996, p.33). Indo assim de
encontro a Baudrillard, cuja teoria afirma que nem ao menos existe duplo:
[…] o duplo desapareceu, já não há duplo, está-se já sempre noutro
mundo, que já não é outro, sem espelho nem projeção nem utopia
que possa refleti-lo – A simulação é intransponível, inultrapassável,
baça, sem exterioridade – nós já nem sequer passaremos << para o
outro lado do espelho>> (Baudrillard, 1991, p. 155-156)
A partir desse ponto fica visível o otimismo de Lévy. Este esforça-se em
apresentar aspectos positivos da virtualização. É o caso do hipertexto, que é visto
como uma produção da inteligência coletiva, onde todos colaboram. Além de
oferecer mais ferramentas de leitura e escrita, ao contrário do texto não digital
que, embora também seja um hipertexto, já que um escrito sempre se correlaciona
com outros, não é dinâmico. Em contraste, Baudrillard (2011, pgs.131 – 132)
não se mostra entusiasmado com as supostas contribuições da internet para a
inteligência coletiva:
Há no cyberespaço a possibilidade de realmente descobrir alguma
coisa? Internet apenas simula um espaço de liberdade e de descoberta.
Não oferece, em verdade, mais do que um espaço fragmentado, mas
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convencional, onde o operador interage com elementos conhecidos,
sites estabelecidos, códigos instituídos. Nada existe para além
desses parâmetros de busca. Toda pergunta encontra-se atrelada
a uma resposta preestabelecida. Encarnamos, ao mesmo tempo, a
interrogação automática e a resposta automática da máquina.
Retornando à linha otimista de raciocínio, Lévy (1996, p. 117) declara:
“cessemos de diabolizar o virtual (como se fosse o contrário do real!). A escolha
não é entre a nostalgia de um real datado e um virtual ameaçador ou excitante,
mas entre diferentes concepções do virtual”. É interessante observar, no excerto,
o uso do termo nostalgia. Pois tal termo é uma constante na obra de Baudrillard,
que aponta que a sociedade de consumo pós-moderna é predominantemente
nostálgica. Seja em seus filmes, hábitos ou qualquer outra coisa que faça ou
consuma. Finalmente, o entusiasmo de Lévy, segundo ele próprio,
consiste apenas em reconhecer dois fatos. Em primeiro lugar, que o
crescimento do ciberespaço resulta de um movimento internacional
de jovens ávidos para experimentar, coletivamente, formas de
comunicação diferentes daquelas que as mídias clássicas nos
propõem. Em segundo lugar, que estamos vivendo a abertura de
um novo espaço de comunicação. E cabe apenas a nós explorar as
potencialidades mais positivas deste espaço nos planos econômico,
político, cultural e humano. (LÉVY, 1999, p. 11)
Constata-se, portanto, que Baudrillard e Lévy possuem abordagens
antagônicas em relação à virtualização. O otimismo do segundo choca-se ao
pessimismo do primeiro diante da constatação de que “a simulação corresponde
a um curto-circuito da realidade e à sua reduplicação pelos signos” (Baudrillard,
1991, p. 39).
Se o momento inicial de ascensão dos mecanismos virtuais deu vantagem
à leitura de Lévy, os fenômenos mais recentes, em especial os ocorridos na política
brasileira, põem em forte evidência a crítica baudrillariana, tornando-a não
somente significativa, como também indicadora de muitos dos processos que ora
encontram-se em franco desenvolvimento, motivo pelo qual a análise do momento
presente das teletecnologias e da virtualidade precisa ter como arcabouço os
pressupostos estabelecidos em suas concepções.
Não obstante, alguns teóricos defendem que o termo “virtual” está
obsoleto, uma vez que, com o avanço da tecnologia, atualmente é possível ficar
online o tempo todo. Esses ainda afirmam que o mais adequado seria usar em
seu lugar o termo “digital”. No entanto, para Baudrillard, esses dois termos
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possuem conceitos diferentes; sendo o “virtual” mais abrangente, pois abarca
um fenômeno típico da pós-modernidade, cujo desdobramento é o meio digital.
Resgatamos, portanto, o termo “virtual” para fazer uma leitura mais ampla do
que ocorre na internet, contextualizando com o cenário geral de nossa sociedade.
Por isso, tomamos a liberdade de usar exemplos que vão além da web, como no
caso da catedral de Notre Dame, por exemplo. Ao nosso ver é importante não
nos limitarmos ao sentido stricto sensu de virtual, e sim vislumbrar o panorama
completo de como a virtualização se manifesta.
Redes sociais: passagem da esperança ao obscurantismo
O advento e a proliferação da internet conferiram ao virtual um novo momento
de sua realização, cujas repercussões puderam atingir, de modo nunca antes visto,
a quase totalidade dos eventos relativos à vida social, especialmente no que diz
respeito às relações entre indivíduos que, mediadas pela ascensão das redes sociais,
expandiram-se em um ritmo bastante intenso.
Com isso, a política alterou de forma significativa sua configuração. Em
diversos lugares, passaram a surgir, nos ambientes digitais, movimentos que
davam conta de uma nova forma de atuação na esfera pública, agora pautada na
interação entre usuários de programas como Facebook e o extinto Orkut. Dessa
forma, diversos grupos puderam proliferar mais facilmente suas ideias e expandir
de maneira vertiginosa o número de adeptos as suas causas, ao mesmo tempo em
que se tornaram capazes de organizar, com rapidez cada vez maior, ações em prol
de seus objetivos de mudança.
Criou-se, com isso, um clima de grande euforia em torno das possibilidades
de luta contra a opressão através desses meios, o que não deixou de ser justificado
pelo curso tomado pelos acontecimentos. No Egito, a juventude se mobilizava
virtualmente para derrubar a prolongada ditadura de Hosni Mubarak, o que
se repetiu em vários outros países árabes. Na Espanha, surge o Movimento dos
indignados, e, em Wall Street, centro do capitalismo financeiro mundial, ocorre o
Occupy, cujo objetivo é protestar contra as desigualdades e a ganância dos grandes
grupos econômicos. Assim, o cenário geral que se apresentava no início da segunda
década do milênio é de mudanças políticas estruturais importantes, e que tinham
na virtualidade um mecanismo fundamental de articulação.
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No Brasil, essa onda atingiu o seu ápice em 2013 quando, a partir de
manifestações localizadas em torno do aumento da tarifa de ônibus em São Paulo,
teve início uma série de protestos que culminaram nas Jornadas de Junho, em que
foram reivindicadas inúmeras mudanças no cenário político e econômico vigente.
O sociólogo Manuel Castells, ao analisar as conjunturas articuladoras
desses movimentos, aponta para uma nova fase das lutas sociais e da defesa dos
direitos democráticos no mundo, na qual a mobilização pelas redes exerce papel
fundamental:
Repetidas, os movimentos sociais em rede de todo mundo têm
exigido uma nova forma de democracia, não necessariamente
identificando seus procedimentos, mas explorando seus princípios
em sua própria prática. Os movimentos, assim como a opinião
pública em geral, coincidem em denunciar os escárnios a que são
submetidos os ideais democráticos na maior parte do mundo [..]
esses movimentos sociais em rede são novos tipos de movimento
democrático – de movimentos que estão reconstruindo a esfera
pública no espaço de autonomia constituído em torno da interação
entre localidades e redes da internet (CASTELLS, 2013, p. 180)
Tal otimismo manifestado por Castells quanto às revoltas em rede
também chega às terras brasileiras, o que ele evidencia em seu comentário
produzido em julho de 2013, pouco tempo depois do início das manifestações
que movimentaram todo o país:
De forma confusa, raivosa e otimista, foi surgindo por sua vez
essa consciência de milhares de pessoas que eram ao mesmo
tempo indivíduos e um coletivo, pois estavam – e estão – sempre
conectadas, conectadas em rede e enredadas na rua, mãos na mão,
tuítes a tuítes, post a post, imagem a imagem. Um mundo de
virtualidade real e realidade multimodal, um mundo novo que já
não é novo, mas as gerações mais jovens veem como seu […] pela
primeira vez, desde que, em 2010, se iniciaram esses movimentos
em rede em noventa países diferentes, a mais alta autoridade
institucional declarou que ‘tinha a obrigação de escutar a voz das
ruas’ (CASTELLS, 2013, p. 184)
Assim, os levantes produzidos em rede, disseminados nos diversos países
espalhados pelo mundo, geraram uma euforia da qual Castells e outros não puderam
se esquivar, e se empenharam em imediatamente classificar como uma nova etapa
do processo das lutas sociais, que teria agora novas possibilidades de transformação
da realidade comum. Contudo, mesmo diante desses acontecimentos animadores,
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houve vozes que alertaram para os perigos dos desenvolvimentos da sociedade
virtual e das contraofensivas que poderiam ser geradas nas próprias redes contra eles.
Julian Assange3, agora feito prisioneiro do Reino Unido e sob risco de
extradição para os EUA, foi um dos que mais veementemente atentaram para os
riscos de se promover uma revolução pelos mecanismos digitais. O Wikileaks,
organização fundada por ele e que divulga documentos sigilosos de interesse das
grandes potências econômicas, frequentemente libera papéis acerca da cooperação
entre os grandes conglomerados internéticos e os países de que são parceiros,
mostrando as finalidades repressivas que se ocultam por trás das aparentes
liberdades concedidas pelas redes.
Assange reconhece os benefícios da ampliação comunicativa promovida
pela internet e seus agentes. Desse modo, ele não se coloca de forma alguma
contrário ao uso de tais meios. Na verdade, o que ele procura esclarecer são os
antagonismos que giram em torno deles, especialmente aqueles oriundos da
relação entre mais comunicação e maior vigilância:
A vigilância é muito mais óbvia atualmente do que quando o grosso
dela era feito apenas pelos Estados norte-americano, britânico, russo
e alguns outros, como o suíço e o francês. Hoje isso é feito por
todo mundo e por praticamente todos os Estados, em consequência
da comercialização da vigilância em massa. E ela tem sido muito
mais totalizadora agora, porque as pessoas divulgam suas ideias
políticas, suas comunicações familiares e suas amizades na internet.
Então a situação não inclui apenas uma maior vigilância das
comunicações em relação ao que existia antes, mas também o fato
de que atualmente temos muito mais comunicação. E não é só uma
questão do maior volume das comunicações, mas também de uma
proliferação dos tipos de comunicação. Todos esses novos tipos de
comunicação que antes eram privados agora são interceptados em
massa. (ASSANGE, p. 43)
A vigilância eletrônica emerge à medida que também proliferam as
possibilidades comunicativas. Desse modo, quanto mais a internet ganha
relevância, mais controlada ela passa a ser. Disso decorre que as ações produzidas
na rede passam a vigorar sob um crivo muito mais intenso, e que bloqueia ao
3 Julian Assange foi preso em 11 de abril de 2019 na embaixada do Equador em Londres, onde
estava refugiado desde 2012. Autoridades dos EUA o acusam de ter conspirado para hackear
computadores do governo e violado leis de espionagem. O tribunal de Westminster, na Inglaterra,
anunciou que a audiência de extradição de Assange para os Estados Unidos será realizada em
fevereiro de 2020.
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máximo as tentativas de subversão que tentam se efetivar na realidade. Como
os dados estão todos disponíveis, não fica difícil encontrar os mobilizadores e
inviabilizá-los de alguma forma, o que pode ocorrer inclusive pelo uso da força.
Protestos organizados virtualmente são protestos vulneráveis às forças dominantes.
Sempre atentas, elas estão prontas a captar mais rapidamente esses movimentos,
de modo a mantê-los sob constante contenção.
As consequências do crescimento da vigilância digital são visíveis.
Cada vez menos a rede tem sido acessada para esses fins sem que sofresse uma
grande interferência por parte dos opositores. O otimismo inicial cedeu lugar
à desconfiança. De forma dura e violenta, os grupos sociais perceberam que se
encontram dentro de uma grande armadilha, e passaram a agir com muito mais
comedimento.
Mais há ainda um outro aspecto dessas ofensivas de controle. É que não
somente os campos progressistas, mas também os grupos reacionários aprenderam
a atuar dentro do ativismo digital. Com isso, e gozando de uma liberdade de
trânsito que não é dada a seus opositores, eles instauraram uma verdadeira
máquina de guerra virtual, estabelecendo com vigor uma marcha de dominação
no campo da cultura, da qual o Brasil hoje talvez seja o maior exemplo de suas
práticas em grande escala.
Brasil: conservadorismo digital em ascensão
As eleições presidenciais de 2014 representaram um momento de mudança no que
diz respeito ao ativismo digital no Brasil. O que era antes um movimento informe
e indefinido assumiu definitivamente caracteres conservadores e reacionários a
partir do processo que culminou na escolha de Dilma Rousseff. Desse momento
em diante, não somente a classe média nas ruas, mas principalmente grupos
disseminados na internet passaram a organizar-se em torno de um oponente
comum, no caso, Lula, PT e seu aliados, trazendo também todo um conjunto de
valores ideológicos formatados dentro do que era considerado por eles como uma
cruzada contra o comunismo, no que perseveravam ideias como Estado liberal,
família, religião e uma série de pautas contrárias às diretrizes organizadas em
defesa das minorias políticas, as quais foram sendo postas em xeque desde esse
momento.
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Para a propagação de suas posições, a internet ofereceu um campo
vasto, rápido e de baixo custo. Além disso, a proliferação de aplicativos de
mensagens como o WhatsApp fizeram com que um imenso número de pessoas
costumeiramente inativas na rede passassem a receber conteúdos diários em que
se defendiam as causas da direita, as quais, em geral, eram apresentadas por jovens
que diziam lutar por um país menos corrupto e mais livre. Paralelamente, grupos
progressistas também passaram a aventurarem-se nesses espaços. Formou-se,
então, um cenário de disputa, e que passou a ter como grande arena a plataforma
de vídeos Youtube, onde proliferaram os canais de atuação política que mostravam
diariamente comentários e opiniões acerca dos principais eventos diários em
Brasília.
No entanto, o que poderia ser uma batalha acirrada, revelou-se com o
passar do tempo, extremamente desigual. Os canais conservadores impuseram-se
com muito mais força, alcançando uma plateia muito mais numerosa e assídua.
Isso pode ser verificado quando comparamos o número de seguidores dos canais
do tipo vlog, em que um ou mais indivíduos apresentam suas opiniões sobre um
tema, buscando influenciar de forma decisiva o espectador acerca da questão. O
estudo dessa categoria é revelador, pois indica uma participação mais ligada à
sociedade civil do que a veículos empresariais de comunicação, embora não se
possa negar de nenhuma maneira a influência de grupos econômicos sobre essa. De
todo modo, observando os dados4 obtidos, os canais ligados à direita apresentam
um número bastante expressivo. É o que revela a nossa pesquisa, onde analisamos
o conteúdo de canais do Youtube que tratam sobre política, para categorizá-los
como Conservadores/Liberais ou Progressistas. Dedicamos três semanas para a
análise dos canais de cada um dos campos, utilizando como corpus apenas os que
possuíam mais de dez mil inscritos. O resultado vemos a seguir:
4 Dados coletados no dia 10 de abril de 2019. Para esta pesquisa, com critério de relevância, foram
considerados os canais com no mínimo dez mil seguidores.
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Quadro 1 – Canais conservadores ou liberais
Canal Número de inscritos
Nando Moura 3.198.154
Mamãe, Falei 2.540.319
MBL – Movimento Brasil Livre 1.495.103
Diego Rox Oficial 1.086.345
Olavo de Carvalho 671.037
Bernardo P Küster 649.125
Terça Livre 614.217
Ideias Radicais 552.264
Canal da Direita 123.871
Leandro Ruschel 94.824
Ana Caroline Campagnolo 90.945
Lobão Oficial 88.341
Daniel Mota 73.134
Bia Kicis 61.482
Mídia Sem Máscara. Canal do
astrólogo Olavo de Carvalho.
56.321
Rodrigo Constantino 56.045
Bruno Garschagen 53.516
Conde Loppeux 50.557
Percival Puggina 38.493
Canal Labre TV 36.012
Direita Já 18.275
Fonte: dados da pesquisa.
Tais números se tornam ainda mais relevantes quando colocados em
cotejo com os canais de esquerda do mesmo tipo, que possuem uma quantidade
de seguidores bastante inferior:
Quadro 2 – Canais progressistas
Canal Número de inscritos
Henry Bugalho 229.466
Aquias Santarem – CRITICA
BRASIL
185.059
Leonardo Stoppa 165.976
Tese Onze 152.562
Eduardo Moreira 144.309
Diego González – O Outro Lado da
Informação
120.705
Spartakus Santiago 112.923
Samuel Borelli 107.296
O Historiador 102.994
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Clayson 96.887
Normose 65.505
Saia da Matrix 58.787
Ad Junior 57.172
Debora Baldin 49.707
Tatoo no Toco 33.458
Mas Afinal 31.718
Os Mortadelas 29.378
Canal Questionamentos 24.639
Leonel Radde 23.418
A Nova Máquina do Tempo 22.914
Canal Púrpura 21.025
Tony Devito 19.328
Jones Manoel 18.385
Coisas que você precisa saber 18.281
Lili Schwarcz 14.767
Prof. Thiago Morais 13.648
Cibele Laura 13.085
Duard 12.437
Portal Rubem Gonzalez 12.097
Cifra Oculta 10.295
Fonte: dados da pesquisa.
Se somarmos todos os canais progressistas listados, o número alcançado
é de 1.865.227 (um milhão, oitocentos e sessenta e cinco mil duzentos e vinte e
sete inscritos), o que não chega nem mesmo ao quantitativo do canal de direita
Mamãe, falei, com mais de dois milhões e quinhentos mil seguidores. Ou seja,
todos os canais progressistas, juntos, chegam no máximo ao terceiro lugar entre os
ligados às ideias conservadoras. Em números totais, a diferença é de mais de oito
milhões e meio de seguidores.
Essa diferença diz muito não somente sobre o número de pessoas que
se encontram sob a influência dos discursos propagados por tais influenciadores,
como também são de fundamental importância para pensar a geração de bolhas
opiniáticas em torno dos acontecimentos políticos diários, em que a rápida reação
desses grupos consegue, num tempo bastante curto, produzir um conjunto coeso
de interpretações favoráveis aos seus interesses.
Um exemplo dessa atuação pode ser verificado quanto aos episódios
relativos à participação do ministro da economia Paulo Guedes na Câmara de
Constituição e Justiça, ocorrida no dia 4 de abril de 2019. Na ocasião, houve
altercações acaloradas entre o ministro e os congressistas presentes, e a sessão foi
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encerrada por força de um dos desentendimentos. Tão logo ocorreram os fatos,
os principais canais de direita e esquerda se apressaram em expor suas posições
sobre o que ocorrera. Contudo, a diferença de alcance entre os vídeos foi enorme.
Enquanto Nando Moura e Mamãe, Falei tiveram juntos mais de um milhão de
visualizações, Aquias Santarém e Henry Bugalho – que são os primeiros colocados
dentre os canais progressistas – reunidos, conseguiram pouco mais de cem mil
expectadores, ou seja, tiveram suas intervenções sobre o evento muito menos
difundidas.
O que se observa com essas constatações é algo que já é pressentido entre
a maioria dos indivíduos que participam do debate político no país. Na batalha
virtual, as forças reacionárias e conservadores estão em ampla vantagem. Entretanto,
o que não se encontra tão evidente são os motivos que levam a essa diferença, e
que apontam para a própria constituição da ordem do virtual. Esta, como produto
capitalista, possui uma estrutura eminentemente favorável ao conservadorismo.
Retomando a terminologia de Baudrillard (SS), no virtual encontra-se o deserto
do real, ou seja, uma ausência de substância que, quando formata o território
político, opera justamente no vazio que os conservadores tencionam propagar
por meio de mentiras e manipulações. É isso que explica as campanhas levadas
adiante por figuras como Steve Bannon 5e que foram repetidas com êxito nas
eleições brasileiras. Fora isso, o controle realizado por grandes empresas, somado
às facilidades encontradas pelos Estados autoritários em exercer sua capacidade de
coerção sobre estas, faz com que a grande rede se torne um terreno amplamente
favorável para que as organizações imperialistas exerçam sua preponderância.
Pelo lado dos usuários, a estrutura formal dos canais comunicativos é feita
nos moldes da Indústria Cultural, estando pronta a atingir esse público que, sem
elementos de defesa, fica à mercê de suas ações, aderindo aos argumentos expostos
por empatia e familiaridade. Isso poderia ser válido também para a esquerda,
não fosse o fato de estar-se tratando de uma estética que é ligada imediatamente
ao consumo de massas, ao qual os grupos progressistas aderem com maiores
restrições.
5 Stephen Kevin “Steve” Bannon foi o diretor executivo da campanha de Donald Trump, nas
eleições presidenciais de 2016. Após Trump ser eleito, ele se tornou estrategista-chefe da Casa
Branca, até ser demitido em 5 de abril de 2017. Desde então tem atuado, sobretudo na Europa,
como assessor político, estando alinhado aos movimentos conservadores e nacionalistas da “nova
direita”. Em agosto de 2018, Eduardo Bolsonaro se encontrou com ele para receber conselhos para
campanha de seu pai (o então candidato de extrema direita Jair Bolsonaro).
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Desse modo, os resultados alcançados pelos conservadores não apenas não
surpreendem, como também são a consequência inescapável das condições em que
é travada a disputa. No virtual, a vantagem sempre será do capital e de tudo que
está nas suas redondezas. As revoluções à esquerda hoje fazem parte apenas de um
episódio na história do virtual, contra o qual o reacionarismo se impõe agora de
maneira agressiva e totalizante.
A ideia então de um retorno ao real se apresenta de forma interessante.
Embora haja críticas de que mesmo na virtualização ainda existe o real, não sendo,
portanto, necessário retornar a ele. Porém, como apontamos, para Baudrillard o
real não está imiscuído no virtual. É justamente esse o ponto do filósofo francês:
no virtual, cria-se uma aparência de real e se permanece nela. Sendo assim, é
aplicável a noção de retorno.
O retorno ao real
A virtualização da sociedade se apresenta como um movimento irreversível. Em
todos os lugares, proliferam os telefones celulares, os hipertextos e as demais
formas de manifestação das forças digitais. Nesse cenário, os grupos reacionários
encontram as condições ideias para fazer proliferar seus princípios.
Mas não quer dizer que não é possível reverter tal movimento. Em sua
materialidade, os processos políticos ocorrem sobretudo fora da virtualização.
Dessa maneira, é importante retomar as raízes da força política, a fim de fazer
virem à tona os componentes do contraditório, os quais, num segundo momento,
podem vir a modificar os elementos que organizam o plano da virtualidade.
Com isso, a própria organização do virtual pode ser reestruturada, e um
horizonte de mudança passa a ser possível. O mundo digital não existe somente
sob os códigos monocráticos e imperialistas. Como tudo, ele deriva de uma
elaboração histórica, de modo que este conserva seu dinamismo e mutabilidade,
o qual, partindo de um real transformador, pode rumar para um caminho muito
mais aberto e democrático.
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Referências
ASSANGE, Julian. Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet. São Paulo:
Boitempo, 2013.
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Lisboa: Relógio d’Água,
1991.
BAUDRILLARD, Jean. Telemorfose. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
BAUDRILLARD, Jean. Tela Total: mito-ironias do virtual e da imagem. Porto
Alegre: Sulina, 2011.
CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais
na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
LÉVY, Pierre. O Que é o Virtual? São Paulo: Ed. 34, 1996.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

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