FILÓSOFO VICTOR LEANDRO*: A ISOFONIA PÓS-MODERNA E DECLÍNIO DA FICÇÃO

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ECJ - multidão
A isofonia pós-moderna e o declínio
da ficção
Publicado em
Periódico Héstia
Curitiba, V.3, N.1, 2019
www.periodicohestia.org
Victor Leandro da Silva
Que a democracia tem seus perigos e contradições, isso era
sabido pelo menos desde os gregos. Entre estes, a isegoria, o igual
direito à palavra, era universalmente praticado, com o cuidado de que
esse universo abarcasse somente os bem-nascidos, os quais, segundo
seu misticismo, deveriam ser também os mais providos de capacidade
reflexiva. De todo modo, algum crivo era necessário, no que se via
uma preocupação presente com a necessidade de tornar os debates
minimamente significativos.
Ora, é absolutamente estúpido acreditar que o destino pode
previamente definir quem tem melhores condições de atuar nos
assuntos públicos. Também isso tem pouco a ver com democracia.
De igual maneira, é inútil instituir critérios meritocráticos, que
continuam sendo uma grande loteria mítica. A única solução para
democratizar o debate na ágora é propiciar a todos o acesso à
instrumentalização crítica. Nisso, nossa sociedade contemporânea
parece ter se empenhado com algum vigor. No entanto, falhou
exatamente no momento crucial, pois colocou em lugar do
questionamento radical uma inteligibilidade meramente operativa, a
razão da lógica e do número. Como resultado, produzimos um sem
número de máquinas moventes de calcular, que agora serão
substituídas de maneira impiedosa pelos computadores e outros
dispositivos digitais, enquanto a criticidade permanece em franco e
inexorável desaparecimento, incapaz de afirmar seu lugar no mundo.
Numa linha inversamente proporcional, os meios de
comunicação e, por conseguinte, de acesso ao debate público
aumentaram vertiginosamente. De sua cama, no meio de seus
seriados e livros de fantasia, um adolescente pode a qualquer
momento emitir opiniões sobre os mais diversos temas, do filme da
moda ao cenário político internacional. E, fazendo uso dos jargões
típicos da linguagem jornalística, ele é capaz de revestir seu texto de
uma pseudo-acuidade incontestável à massa distraída de seus leitores,
colocando-se ao pé de igualdade com os mais atentos e esmerados
analistas do assunto.
Mais uma vez, para os menos perspicazes, a democracia
parece ter triunfado retumbantemente, quando na verdade suas
conquistas são pura aparência. Grandes veículos de informação e a
indústria cultural seguem dando as cartas, de modo que o que se tem
mais fortemente são seus pressupostos disseminados numa
velocidade absurda. Em certas ocasiões, alguma coisa parece sair do
controle, porém é logo tranquilizada por uma reação na mesma
medida, de modo que o estado de coisas permanece inalterado. Por
outro lado, os indivíduos parecem estar plenamente satisfeitos, pois
agora supostamente dispõem de meios para serem ouvidos,
acreditando na originalidade e na autonomia de suas colocações. Os
conflitos, agora mais constantes, não produzem de forma alguma o
novo, posto estarem sistemicamente assimilados. Nesse cenário de
rebeldia totalmente organizada, a verdadeira contradição desaparece
por completo.
Desse modo, o que se forma por meio desse coro é um
conjunto de vozes indistintas. Perdida no emaranhado de
observações difusas, a crítica autêntica e contundente perde sua força
por não poder ser percebida. Os argumentos saltam de todos os lado
e saturam as mentes dos que tentam compreendê-los. Na praça
pública, a massa faz um coro cujos sons e cantores não podem ser
discriminados nem em suas mais destacadas variações, tamanha é a
algazarra provocada pelos maldizentes, deixando como única opção
reforçar o caos ou retirar-se para lugares mais tranquilos.
Como resultado, o que se produz é uma anulação, uma
incômoda neutralidade entre as vozes atuantes, que permitem a
constituição da isofonia. Nela, não existem mais atores destacados,
muito menos minorias a serem ouvidas. Somente uma amorfa massa
sonora pode ser percebida. E, se isso é bastante cômodo para os que
não querem ouvir as vozes dos imbecis, mais cômodo ainda o é para
ofuscar as antes silenciadas manifestações das massas, que agora se
deixam iludir pela ilusão de que há receptores para suas mensagens
desesperadas e pedidos de ajuda.
Quanto a isso, não pode haver engano. Uma melodia tão
harmônica não poderia se constituir se não houvesse um maestro que
conduzisse o andamento de uma orquestra tão destoante. Este, como
bem se pode prever, não é mais do que o bom e velho capitalismo,
que, com sua batuta pesada, conduz os corais a cantarem todos ao
mesmo tempo, com o máximo que seu fôlego permite, até que
produzam juntos um som unívoco, sob o qual as oligarquias dançam
tranquilas a valsa do lucro.
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Qual a gênese desse processo? Novamente, é preciso olhar
para as grandes transformações ocorridas no início do século XX, das
quais o capitalismo de hoje é tributário. A ameaça comunista trouxe
à baila a necessidade de aplacar a sede de direitos do proletariado nas
grandes economias liberais, que temiam serem varridas pela onda
vermelha. Como resposta, propuseram algumas reformas que
desembocaram na formação do Estado do bem-estar social, que
conferia a cada indivíduo acesso aos bens mínimos necessários à
vida. Com isso, saúde, educação, aposentadoria e alguns bens de
consumo tornaram-se palpáveis para boa parte da população, o que,
se não impedia as pessoas de continuarem a serem exploradas,
atendia ao propósito de minar revoltas mais contundentes.
Porém, não foi o bastante. O proletariado não se contentou
em ter melhores condições sociais. Queria também tomar parte das
ações político-culturais. Concomitantemente, a indústria cultural
ansiava por atingir um número cada vez mais expressivo de
consumidores, o que a levou a elaborar produtos específicos que
fossem apropriados às camadas mais volumosas da sociedade. Por
apropriados, entenda-se aqui aquilo que as mantivesse num constante
estado de alienação e alívio mental necessário depois de horas
extenuantes de exploração pelo trabalho. Como contrapartida, a
grande massa da população passou a exigir, gradativamente, que seu
ethos e sua estética estivessem refletidos nesses produtos, no que
foram prontamente atendidos, mas não sem que nesses objetos de
entretenimento estivesse incutida a ideologia dominante. Na
convergência desses interesses, o que resultou foi a abertura de
espaços que permitiram a um quantitativo cada vez maior de
indivíduos falar sobre si e seu mundo, adquirindo uma relativa
visibilidade, a qual ia sendo obviamente controlada, por meio dos
governos e dos veículos de comunicações, que nada mais são do que
mecanismos de cerceamento da chamada opinião pública.
O aprimoramento das teletecnologias, em especial a internet,
inauguraram um novo momento nesse processo. Com ela, a
centralização dos produtos ideológico-culturais se tornou bem mais
difícil de ser realizada, promovendo espaços de abertura que
começaram a criar campos de tensão e forças antagônicas, com o
propósito de subverter alógica de sua utilizaçãoe apropriar-se dos
mecanismos difusores de cultura. Tal quadro só viria a se tornar ainda
mais acentuado com o aparecimento das redes sociais, que, do ponto
de vista da ordem dominante, tornou a situação bem próxima do
caos. Em algumas nações periféricas, levantes puseram em xeque e
derrubaram governos já quase que cristalizados no poder, tendo seus
movimentos sido iniciados por meio de propaganda e organização de
protestos através do Facebook. Nos Estados Unidos, o Occupy
provocou uma séria contestação do capitalismo onívoro praticado em
Wall Street. No Brasil, as jornadas de 2013 deram início a inúmeras
contraposições à forma de organização política do país. Obviamente,
estas não eram as primeiras revoltas levantadas contra o status quo
nesses lugares. No entanto, o fato novo era a velocidade com que
estas eram realizadas, que apontava para a possibilidade iminente de
que a qualquer momento uma rebelião generalizada pudesse estourar
de forma simultânea em todo o mundo.
Ao mesmo tempo, comunidades antes excluídas começaram
a ser visibilizadas. Culturas relegadas ao segundo plano encontraram
espaço para o protagonismo. Pessoas passaram a criar grupos de
interesses comuns, e, com isso, potencializaram-se as suas
capacidades de alcançarem um público cada vez mais numeroso.
Com um simples smartphone, era possível realizar vídeos e falar
sobre si, contando histórias que seriam vistas por milhões. Aos olhos
de muitos, isso pareceu uma grande conquista, e seria, não tivessem
todas essas iniciativas sob o controle de um punhado mínimo de
empresas que controlam o fluxo de informação. Através de seus
mecanismos de censura e moderadores atentos, elas começaram a
moldar as iniciativas destoantes e anárquicas, de modo a configurá-
las sob um padrão aceitável perante os seus princípios. Quanto
àqueles que insistiam em se opor, foi necessário intensificar
antagonismos até que não se pudesse mais fazer diferenciação entre
direita e esquerda, civilização e barbárie, regimes ditatoriais e
democracia. Agora, todos fazem parte do mesmo espetáculo de uma
timeline, que rola indistintamente no ecran das máquinas brilhantes.
Como resultado, definiu-se novamente um padrão que não
pode ser demovido. Para ter acesso à tribuna pública, não se pode ir
além de um certo número de caracteres. Também não é permitido
compartilhar conteúdos que firam as sensibilidades socialmente
constituídas. A nudez, por exemplo, quaisquer que sejam os
propósitos estéticos de sua exposição, está proibida. O
multiculturalismo vence, porém como forma aguda de repressão, já
que só é corroborado nele aquilo que se coaduna com uma certa
lógica moral zuckerberquiana.
A produção audiovisual, regulada proeminentemente pelo
Youtube, também sofre um forte controle. Os vídeos mais acessados
estão ligados de maneira inescapável à propaganda, de modo que não
é possível ter um número maior de espectadores sem propagar o
consumo, e gerar lucro ao sítio que os abriga. No plano estético,
elaborou-se uma fórmula que desfavorece a reflexão, com uma
velocidade de exposição de argumentos lancinante e cortes rápidos
que fazem os quadros passarem sem o mínimo instante para que se
possa pensar na imagem anterior. Nessa ordenação, o clímax é
absolutamente extinto, posto que não há nem progressão nem pontos
altos, somente um movimento único e lisérgico em que a menor
pausa é sinal de vacuidade estéril, e deve ser preenchida com algum
conteúdo que, embora sem nenhuma substância, mantém a
celeridade do conjunto. O humor também é uma marca indelével
desse modelo. É preciso rir, sobretudo de si mesmo. Assim, alternam-
se frequentemente as partes que compõem a exposição geral com
outras normalmente em preto e branco, contendo cenas de bastidores
ou comentários jocosos, propondo uma narrativa paralela que muitas
vezes é mais aguardada que a principal. Aliás, somente de maneira
formalista podemos falar no que é principal ou secundário nos
vídeos. Na verdade, o objetivo destes, como peça de desinformação,
é tão somente conduzir a plateia de um nada a outro, atravessados
por uma falsa materialidade que contém a mensagem única do
consumo da imagem como mercadoria.
Nesse entrelaçamento, a forma acaba por engolir o fundo ou,
melhor, fundo e forma tornam-se indistintos no que diz respeito ao
plano político sugerido. Um comentarista revolucionário não se
distingue em nada do mais reacionário, pois todo o seu plano de
composição está delimitado por um rígido conjunto semiótico que
não pode senão exprimir aquilo pelo que foi criado. Desse modo, o
dito também só pode ser fixado na ordem lexical estabelecida, o que
faz com que se apresente como simples exercício de variação inócua
de um mesmo tema. Dentro desse esquematismo, as iniciativas
destoantes são menos do que rebeldia ou oposições; sem força, elas
se sujeitam involuntariamente ao sistema constituído. Daí ser uma
simples ingenuidade achar que modificações estruturais possam advir
desses meios, quando de sua tentativa resulta apenas a sua ampla
replicação.
Assim, na produção isofônica, não há espaço para inflexão, e
não é possível enunciar de nenhuma forma o novo, muito menos o
velho. Sua ascensão inaugura a era do completo fim dos
antagonismos, das oposições, dos movimentos. Fica, portanto, a
possibilidade pálida de seguir por rotas alternativas, as quais, no
momento presente, encontram-se quase que inteiramente apagadas e
esquecidas, o que significa dizer que são de fato a única forma
autêntica de contestar sua hegemonia.
****
Mas, o que essa isofonia tem a ver com a literatura, ou, mais
especificamente, com a ficção, e, mais radicalmente ainda, pode
contribuir para seu enfraquecimento e desaparição? Em diversos
meios ligados ao mundo literário, já se insinua uma grande
preocupação com as quedas nas vendas e com o possível déficit do
estatuto social do livro e, consequentemente, dos seus autores.
Nessas análises, o diagnóstico mais ligeiro é o de que há uma
concorrência crescente entre os meios de entretenimento, no qual os
livros levam uma forte desvantagem, o que tem impactado de
maneira séria sua difusão. Isso, sem dúvida, é verdadeiro, porém não
compõe de maneira decisiva o nexo de relações causais relativas a
esse fenômeno.
Se observarmos historicamente, os adversários do livro
encontram-se aí há um bom tempo, sem que tenham podido incliná-
lo acentuadamente para a destituição. O cinema, como atividade que
integra música, narrativa e imagens em movimento, foi, desde o
princípio, um fortíssimo algoz e candidato a substituto da leitura, o
que não ocorreu. Muito pelo contrário, se olharmos para o que se
passa no cinema hoje, veremos que ele também está ameaçado, e
mantém sua relevância muitas vezes devido à introdução de enredos
advindos de obras literárias, beneficiando-se do êxito e visibilidade
obtidos por elas. Isso é válido tanto entre os chamados “filmes de
arte” quanto na grande indústria, da qual a Disney, hoje praticamente
dominante no mercado, dita as modas a serem seguidas pelos filmes
mais recentes, tomando por tema principalmente as adaptações de
quadrinhos do universo Marvel – as quais já faturaram, juntas, mais
de quinze bilhões de dólares -, cuja origem remonta também à
literatura. Portanto, não é no cinema que encontraremos o
antagonista que o mercado procura.
De igual maneira, os seriados não representam uma ameaça
ascendente. A rigor, eles integram o conjunto dos divertimentos
televisivos, que, tal como o cinema, estão há muito tempo em voga,
e nem por isso serviram como elemento de supressão mais aguda às
obras da literatura. Sua recente condição de maior destaque na
indústria não altera em muito o que já se tinha no que diz respeito à
distribuição dos interesses dos espectadores. Houve, somente, uma
reordenação da ordem de importância dada a cada item, em que estes
se tornaram maiores protagonistas, mas sem ampliar os domínios
anteriormente constituídos por eles em conjunto com as telenovelas,
os programas esportivos, o próprio cinema ou o noticiário
jornalístico, que sofre igualmente influência da cultura de
espetacularização.
Na verdade, essas discussões servem apenas para explicar o
caráter particular das questões que afetam a literatura no plano das
disputas dentro do mercado de bens culturais, mas não servem para
analisar o problema em ascensão, uma vez que o que se encontra em
queda não é somente a literatura, mas a ficção em sua totalidade. As
diversas formas de invenção narrativa encontram-se em condição de
ameaça generalizada. Entretanto, as desvantagens concorrenciais da
literatura com relação aos outros meios de entretenimento – isso
porque nem mesmo estamos falando da literatura séria, pois esta se
encontra numa condição mais perigosa ainda – fazem com que esta
se torne o alvo mais fácil e, por conseguinte, o primeiro a ser atingido.
Desde antes de chegar à escrita, a literatura se notabilizou pela
liberdade conferida ao indivíduo. Com ela, ele estava liberado para
criar suas imagens e ações conforme determinava sua inventividade.
Mas essa qualidade, que há muito se mostrou tão cara e significativa,
tornou-se, com as transformações sócio-econômico-culturais que
foram aos poucos oferecendo produtos de cada vez mais fácil
consumo, sem a necessidade de esforço para sua utilização, um ponto
problemático dentro de sua composição.
O indivíduo, acostumado
que está a receber os objetos prontos, não quer mais se dar o trabalho
de ter de realizar ele mesmo a prática de figuração mental da narrativa,
preferindo dirigir-se a lugares em que este esforço já se encontra
realizado. Some-se a isso o tempo demandado para a leitura de uma
obra, e têm-se os elementos para que os textos se encontrem em forte
descompasso com o modo de vida da contemporaneidade.
A essas qualidades próprias da literatura, que a determinam
enquanto uma adversária menos competitiva na indústria, vem
somar-se uma outra que, essa sim, pertence à ficção como um todo
pelo menos desde a modernidade.
Desde as suas mais tenras elaborações, a literatura teve como
preocupação constante o real. Este, ainda que não pudesse aparecer
em sua mais intensa representação, estava prementemente
manifestado na tão bem definida por Aristóteles ideia de
verossimilhança, que retrata não o que foi, mas o que poderia ser.
Essa preocupação em relatar os fatos como verossímeis e passíveis
de ocorrer no mundo marcou a forma como as poéticas eram
produzidas, a despeito dos aspectos fantásticos que pudessem conter.
Por mais que falassem de deuses e figuras sobrenaturais, elas
precisavam estabelecer um rígido plano de coerência entre os
acontecimentos reunidos, os quais, quanto mais se aproximassem das
vivências do público, mais seriam reconhecidos e apreciados por este
em sua fruição.
Com a ascensão do romance, o que era antes mais um dos
requisitos da trama ascende como o radicalmente principal, a ponto
de promover uma sensível renovação literária. A sociedade burguesa,
da qual o romance se origina, já não tem interesse em ver
representadas narrativas exemplares que refletissem os mais altos
valores da humanidade, e sim histórias que tratassem daquilo que era
vivido cotidianamente por ela. Em outras palavras, os burgueses
queriam ver a si mesmos na literatura que consumiam, e começaram
para isso a dar maior importância aos escritores que atendiam a esses
propósitos, os quais, com o passar do tempo, findaram por converter
as características distintivas de suas obras em imperativo estético.
Surgia, então, o realismo que, embora tenha se desdobrado em
algumas especificidades que influenciaram a escrita de autores de
períodos determinados, configurando-se num estilo de época,
transcendeu essa condição, estabelecendo-se como a pedra angular
sobre a qual é erigida toda a tradição romanesca.
Essa procura pelo real, disseminada pela literatura, espalhou-
se pelas demais artes e construtos culturais, de modo a ser o grande
propulsor de suas manifestações, até mesmo naquelas pautadas na
reprodução de universos fantasiosos, dos quais o cinema talvez seja
o exemplo mais prolífico. As narrativas sobre viagens espaciais,
monstros extraordinários e super-heróis só ganharam proeminência
nas telas quando foi possível desenvolver efeitos gráficos que
tornassem indistintos da realidade os eventos fantasiosos expostos e
contados. Por outro lado, foi através da refiguração dos caracteres
das personagens que estas puderam humanizar-se a ponto de se
acreditar que elas poderiam de fato existir, ou melhor, que já existiam
entre nós sob formas menos fantásticas.
Mas, o que foi por muito tempo seu triunfo, tornou-se a
chave para sua queda. A aparição das teletecnologias, aliadas às redes
sociais, puseram os indivíduos em condição de expor seus fatos
cotidianos em praticamente todas as horas do dia para milhões de
pessoas e numa velocidade quase simultânea aos acontecimentos.
Com isso, o real, que antes se afigurava distante, tendo de ser criado
pela imaginação, passou a frequentar as telas dos smartphones em
“ao vivo”, e, conforme a vontade dos envolvidos, de forma
ininterrupta. Dessa maneira, pessoas que antes apenas liam, ouviam
e viam histórias alheias passaram a, por meio dos recursos existentes,
converter sua própria realidade diária em uma narrativa, de modo a
oferecer a si e aos outros o contato com o mundo tal como é e
conforme ansiado por estes.
Essas mudanças colocaram na mente dos sujeitos uma
questão que põe a literatura em perigo. Ora, se temos o real em sua
totalidade a nossa disposição, por que haveríamos de recorrer a
romances forjados pela mente dos outros? Nesse momento, é que a
ficção perde seu terreno. Nada mais precisa ser inventado ou
imaginado, porque o mundo está aí, a sua disposição. A literatura,
como cópia do real, não pode equiparar-se a este. Ademais, podemos
agora tranquilamente tornarmo-nos protagonistas de nossas próprias
narrativas, sem mais sermos pensados por cabeças alheias, no que
nossas existências elas mesmas fornecem integralmente o material de
que precisamos para virarmos personagens de nós mesmos, e ainda
sermos com isso abraçados pelo mundo da virtualização.
O crescente número dos chamados “youtubers”, que postam
vídeos no canal controlado pelo Google, atesta esse fenômeno.
Elevados ao patamar de grandes celebridades, eles costumam ser
admirados por pretensamente mostrar os dilemas e inquietações das
pessoas comuns a sua classe, localidade e faixa etária, com o que
muitos se veem identificados. Para esse grupo de seguidores, trata-se
de figuras iguais a eles, que conseguem transmitir, por meio de seu
exemplo de vida, as mesmas experiências, porém com uma grande
habilidade, o que os torna equivalentes aos grandes artistas. Mas que
não se engane quem pensa que isso é reservado somente aos raros.
Qualquer um que tenha os meios e técnicas a sua disposição tem
potencial para contar a sua história e ser visto por todo o mundo.
Logo, é nessa ideia de igualdade que as relações se estabelecem e se
amplificam fortemente, tornado o real apresentado ainda mais
factível.
As ameaças de que a ficção é alvo só existem dentro de um
panorama geral crescente de isofonia. Somente quando todas as
vozes são conclamadas a falar de uma só vez, é que torna-se possível
emergirem as formas pelas quais a ficcionalidade é posta em
contestação. Do contrário, haveria um cenário de diferença em que
seria possível discriminar suas manifestações. Contudo, isso não pode
mais ocorrer, e é aí que a hegemonia revela sua face verdadeiramente
perversa; plenamente instituída, ela mostra que seu trabalho nunca
foi promover a democracia por meio do livre acesso de todos à cena
pública. Na verdade, o que ela sempre pretendeu foi disseminar
formas culturais que facilitassem seu domínio, e isso foi feito por
meio de uma atuação que primeiro vulgarizou os espaços destoantes,
e depois os submeteu a sua lógica até à desaparição. A literatura, que
primeiro seguiu as normas da indústria cultural determinada pelo
consumo, já não responde mais a nenhuma demanda do capital.
Logo, a fim de evitar suas ações transgressoras, deve-se começar a
apagá-la, tendo os storyes reais dos indivíduos em seu lugar. Este é o
caminho que lhe reserva a primazia youtuberiana.
Não é preciso ir longe para perceber a ilusão do realismo
proposto pela nova cultura. Basta um simples exame superficial, e ela
estará descoberta. Na sociedade espetacularizada, nenhum instante é
verdadeiramente real, todos eles participam de uma ordem
artificialista e pré-formatada. As histórias contadas nos vídeos são
reproduções de itinerários narrativos constituídos por terceiros. As
palavras se inserem por meio de jargões determinados
comercialmente. Os pretensos atores não são mais do que fantoches
que se deixam guiar pelo roteiro inicial das ideologias de massa em
vigor e, depois, por empresários do ramo de entretenimento. O
vestuário apresentado é invariavelmente o da moda, e a propaganda
permeia cada item com sua insofismável onipresença, fazendo do
próprio corpo dos apresentadores objeto de sua propagação. Nessa
miscelânea de performances vazias, não existe o menor espaço para
um vislumbre da realidade que se empurra para depois da câmera.
Mas, quem se importa? Para o sujeito pós-moderno, os
significados já foram perdidos há muito tempo. Vivemos na era do
cinismo e do escárnio, sem possibilidade de salvação. Nessa
perspectiva, é a mentira pura e simples, e não a inventividade da
ficção, que toma o lugar do que pode ser vivido como um real em sua
potência.
É cedo para falar que a ficção como um todo, ou somente a
literária, irá desaparecer, ou que a isofonia que a ameaça é um
fenômeno permanente. É provável que, em algum momento, ela se
torne desnecessária às forças dominantes. No entanto, será o caso de
saber se ela foi suprimida pelas razões corretas.
Logo, não é impossível que a ficção permaneça. Contudo,
este pode não ser o melhor de seus destinos. Exaurida por dentro, ela
pode ser obrigada a vagar sem rumo entre os corpos e mentes
humanos sem dizer-lhes coisa alguma, apenas reverberando palavras
difusas e alheias, sem o menor tom de vivacidade. Nesse momento,
alguns se lembrarão do tempo em que ela caminhava triunfante por
entre as gentes do mundo; porém, isso terá sido já há muito tempo,
e este lembrar-se ressoará não como uma volta ao passado, nem
como uma nostalgia, e sim apenas como um breve comentário, uma
memória curta, perdida na imensidão de relatos dos apresentadores virtuais e seus anunciantes.
*Victor Leandro é filósofo, doutor, escritor e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

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