A OBNUBILAÇÃO DA IMAGEM FUTEBOLÍSTICA NA GLOBO

A Globo acredita, equivocadamente, que a câmera é o olho. Guiada pela lógica do lucro, ela crê produzir imagens que seduzem o telespectador-videota, capturando o seu olhar, transformando este olhar no produtor da mais-valia imagética, transfigurada na audiência.

A televisão não é o cinema. O cinema, arte, imagem e pensamento, resolveu a questão do corte imagético do real, problema proposto por uma psicanálise do cinema: cada plano é um recorte do real. O cinema, kinema, resolve isso criando imagens que transbordam o ecrã, corpos afetantes, imagem-tempo, imagem-pensamento. Nada de clichês; estes, são cortes no real e interdições à inteligência, independente do tamanho do plano. Mesmo que ele reproduzisse o olhar em sua amplitude neurocerebral, de 360o, jamais sairia da interdição.

Assim, a Globo se quer produtora do novo, sem carregar os elementos epistemológicos para tal. Ao mesmo tempo em que corta a imagem, retirando dela aquilo que não interessa à sua lógica, ela vende como real a possibilidade irrealizável de exibir tudo de uma partida de futebol. Duas ilustrações, opostas e iguais:

Um: os clubes, a título de exibir na telinha global – como de resto, em todas as outras – o logotipo do patrocinador, passou a realizar suas entrevistas tendo como pano de fundo um padrão de imagem seriada com o dito logotipo, geralmente em dupla com o escudo. A Globo inventou o superclose, que mostra até as rugas das rugas dos entrevistados, a fim de não exibir a parede de fundo. Lance de resposta dos clubes: o microfone, item indispensável à capturação da imagem do falante, posto que está à frente do rosto, carrega o logotipo. A globo já acena com mostrar apenas parte do olho, da boca, ou mesmo um plano longínquo, usando para tal o recurso telemático de borrar as imagens indesejadas. Corte perceptivo.

Dois: na partida entre Flamento e Botafogo ontem, pela final da Taça Guanabara, o repórter, muito saltitante, entrevista um jogador do rubro-negro, e mostra-lhe uma pequena tela, donde, afirma ele, é possível capturar as imagens da tevê digital, na qual o jogador, no intervalo, caso faça um gol, poderá vê-lo. Microfone de volta ao locutor, este decreta, muito solene, o fim do radinho de pilha nos estádios, e prevê que em breve as pessoas levarão suas pequenas tevês aos estádios para assistir aos jogos.

Duas obliterações da imagem: sem referencial no plano do real, e sem os elementos de diferenciação formal e de conteúdo, necessários para que o aparelho neurocognitivo a forme como representação mental, a imagem desaparece. Quando a Globo castra a imagem em nome do lucro, e faz desaparecer o fundo, automaticamente destrói a figura. Quando, ao contrário, pretende fazer prevalecer a ilusão de que o torcedor-consumidor verá “tudo”, igualmente faz desaparecer a imagem. A imagem na telinha obnubila o estádio, os jogadores, o árbitro, o gol. Se a imagem da tevê é o hiper-real futebolístico, câmera-corte epistemológico que mutila a visão do jogo real, o que dizer de um torcedor que vai ao estádio, mas prefere levar consigo o seu seguro e imóvel olhar amestrado, videota da pelota? O hiper-real nunca foi tão hiper, e o torcedor que nisso crê nunca foi tão “torcido” na sua inteligência. Dupla censura. Duplo corte, desaparecimento do real. Sem real, não há imagem. Sem imagem, o que resta?

Nem mesmo um indiferenciado. A Globo, como de resto todas as emissoras de tevê, praticam uma antipedagogia do olhar: pobres dos torcedores que não têm tevê! Não; pobres dos torcedores que precisam da tevê. Pois nela não se vê.

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