SE HOUVESSE TEATRO DE RUA NA RUA…

A rua, ou a ágora (a praça, para os gregófilos), é o espaço da aparência, afirma a filósofa Hannah Arendt. Território onde os homens se relacionam carregados por seus temas cotidianos múltiplos. Via pública das apresentações de opiniões e alternâncias dialéticas. Tudo que se refere à proteção e ao crescimento da polis, a cidade-democrática. Palco onde a encenação ontológica do homem, como teatralidade de sua liberdade em situação-engajada, faz dele sujeito histórico por si mesmo, como diz o filósofo Sartre. Local onde o ator observa o povo e encontra os ‘gestus’ de sua arte transformadora, diz o teatrólogo Brecht.

Esta a teatralidade do homem que se confunde com a arte teatral como reflexo analítico de sua condição existencial. Teatralidade que não separa o público do privado, já que a semiótica com seus signos-valores enunciam-se em movimentos difusos, envolvendo todos na mesma cartografia de saberes e dizeres que constituem a chamada realidade. Foi assim na Grécia antiga com a teatralidade tecida pelas forças dos deuses, heróis e mortais, construindo sempre a catarse social, que embora preenchida de elementos míticos, falavam simplesmente da existência humana. Foi assim na Idade Média com a teatralidade cristã com sua dogmática ‘orientadora’, mas que não impediu o desejo se fazer especulativo e preparar o acontecimento Iluminista. Foi assim na modernidade com o engendramento do capitalismo, a queda da nobreza e a ascensão da burguesia industrial e o capital financeiro. Foi assim, e é assim, a teatralidade que se confunde com a arte dionisíaca, pois conta sempre com os negócios de todos os homens que vão além dos “negócios do senhor Júlio César”, como escreve Brecht.

POBRE DO POVO QUE NÃO TEM TEATRO, MAS POBRE AINDA

É O POVO QUE PRECISA TER TEATRO PARA SER POVO

O teatro, como arte, não é nada mais do que a existência do homem posta em um plano duplicado: o homem se observando como produto social de si mesmo. O homem sujeito-examinador de sua obra. Livre das enunciações e designações mistificadas. Aí a necessidade do teatro como instância educativa capaz de tornar o público sujeito-ativo de sua própria história. Observando, examinando e em seguida transformando as contradições que encontrou em sua análise sobre o objeto que lhe foi dado a agir, ele passa, então, a produzir seu próprio texto, a teatralidade-ética de seu Bem Coletivo.

Eis tudo que os governos tiranos não pretendem para que o povo não tenha de si um entendimento de sua condição social em sua terra. E assim, seja fator fácil de aprisionamento pelos perversos interesses destes tiranos. Já que povo que não reflete sobre si mesmo, não conhece seus inimigos e muito menos sua potência criadora capaz de tecer sua própria cartografia de desejos constitutivos de uma história livre.

É desta forma que o povo se isola em si mesmo, sem suspeitar que a dor que sente em sua solidão doméstica (sua casa) passeia pelas ruas produzidas pelos governos que lhe querem como vítima. Isolado, o povo, quando caminha pelas ruas, não vê o texto que lhe escreveram para interpretar sempre como mero coadjuvante, cujo final é sempre previsível: sua dor, desespero, sua desilusão com o existir. Daí sua fuga para o misticismo alucinante.

Manaus tem ruas, mas não tem teatro. As ruas de Manaus são vias de devaneios da classe média que contracena com alguns ditos artistas, apêndices dos governos vampirizantes. Manaus é uma terra que não é fácil para a democracia: não tem teatro. E a democracia só se faz com teatro. Como também a filosofia que pensa a democracia. Que digam os gregos. O simulacro de teatro em Manaus são algumas peças alienadas para embalar bocejos do indiferentes.

É isto que os inimigos da democracia querem. Enquanto não houver teatro na rua, não haverá povo-politizado. E povo não politizado é um “bem” para os tiranos.

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