EFEITOS ELEITORAIS
A propaganda eleitoral gratuita na televisão para os candidatos a prefeito de Manaus só veio reafirmar o sabido: a tentativa dos que detém maior poder econômico para produzir programas com tecnologias virtuais acreditando na eficácia persuasiva destas teletecnologias para conseguir votos; e os de menores poderes econômicos que recorrem à fórmula glauberiana: “uma câmara na mão e uma idéia na cabeça”.
Nos virtualizados, encontram-se os candidatos Amazonino (do PTB), Omar (PMDB) e Serafim (PSB). Nos glauberianos, encontram-se os candidatos Luiz Navarro (do PCB), Ricardo Bessa (do PSOL) e Praciano (PT).
Pode ser que alguns replicantes não acreditem, mas os que melhor podem apresentar programas e conseguir dos eleitores confiança, por vivenciarem imagens e discursos claros, sem nenhuma interferência deslocadora da percepção e da cognição, são os glauberianos, o que não quer dizer que poderão ser eleitos. Mas que, objetivo precípuo do candidato, fazer-se entendido em sua mensagem, será mais assimilado. Além do que, o tempo destes partidos, por serem diminutos, permitem menos exposição dos candidatos, e impede que o telespectador-eleitor seja dissipado em sua percepção áudio-visual pelas estruturas que compõem a tela da TV: seus milhares de pontinhos luminosos, suas cascatas de imagens e sua acústica sintética, agressão virtual a todos que se expõem muito tempo ao aparelho domesticador áudio-visual.
EFEITOS VIRTUAIS
O que se viu na abertura da programação dos candidatos virtualizados comprova o que o telespectador sentiu. O programa do candidato Amazonino teve dois pontos virtuais: um, o místico/mítico, quando procura lhe transformar em predestinado à salvação do Amazonas. Evoca os ‘simbolismos’ da água amazônida, um Moisés manoniquim, e da salvação: “Vai, menino, salvar teu povo!”. Um virtual que o filósofo Nietzsche chamaria de consciência reativa/pessimista. Outro, a teletecnologia propriamente dita. O nome Amazonino é misturado com imagens de obras, monumentos, prédios, floresta, formando um quadro colagem que logo é fragmentado, reduzido ao fundo em um único ponto, para depois ser ampliado, tomando toda a tela com sua imagem atual. Como na cascata de imagens anteriores, Amazonino é super-exposto em imagens ainda jovem; quando aparece atual, é desrealizado por aquelas imagens, ao mesmo tempo que o atual desrealiza as imagens antigas. O filósofo Paul Virilio diria: Produziu-se colateralmente no telespectador-eleitor a fusão/confusão virtual.
No programa de Omar também predomina o recurso virtualizante com muitos planos deslocados em velocidades, compostos por imagens antigas de quando era estudante, para lhe conferir um engajado rebelde apresentado pelas palavras do ex-governador Gilberto Mestrinho que lhe anuncia como líder dos anos 80 que lutou contra a ditadura, quando esta já havia há muito acabado. Cenas da convenção das alianças com o governador Eduardo Braga, seu cabo eleitora oficial, e o ministro Alfredo Nascimento lhe pousando nos píncaros da capacidade e do denodo político. Entretanto, quando surge atual, sozinho, diante da tela, ocorre com ele o contrário do que ocorreu com Amazonino: a fusão/confusão não é produzida só pela imagem-visual, mas, principalmente, pela auditiva. Não surge o engajado, atuante, vibrante e denodado Omar, virtualizado. Surge uma voz que parece ser dublada, sem força de convencimento democrático.
Já o candidato Serafim, ao contrário da eleição passada, que era glauberiano, agora é virtual, inclusive com mais bonecos. As cenas derramam-se como feitos maravilhosos de sua administração. Personagens dos partidos coligados tecem honras coloridas a sua candidatura. É um tentativa teletecnológica de construir uma festa das grandes realizações. Mas Serafim também falha, porque toda a alegria construída virtualmente desrealiza-se quando ele e seu grande suporte, Arthur Neto, aparecem para comentar os mesmos feitos: faltam os afetos contagiantes da potência comunalidade como atualização do real democrático.
Como os eleitores sabem que as teletecnologias tomaram conta da sociedade pós-moderna, querendo-se como poder de criação de verdades irrefutáveis, cabe a eles um esforço de deslocamento das percepções e cognições para ver se por trás das virtualizações, ou não-virtualizações, aparecem idéias fundadoras da democracia.