VOTO APRISIONADO
A forma como a mídia tem noticiado o ato criminoso das milícias do Rio de Janeiro — grupos para-militares formados principalmente por policiais — que estão ameaçando e chantageando eleitores para que votem em candidatos indicados por elas, sobre pena de sofrerem severas punições se não acatarem essas ordens, vem afirmar a vetusta opinião que não existe inteligência no jornalismo, e que seu grande talento é transfigurar os acontecimentos em benefício do lucro.
Apresentando o fato como novo, a mídia confirma que não entende nada da história do populismo anti-democrático com todos os seus instrumentos sórdidos de manipulação dos eleitores, que vigorou, e ainda vigora, em tempos de eleições. Ao mesmo tempo que tenta ocultar, publicando a notícia como nova, a sua participação direta, não como coadjuvante, mas como personagem principal, neste tipo de chantagem. Para tal, basta lembrar da anti-democrática atuação do jornal o Globo contra a candidatura de JK. “Não pode se candidatar. Se se candidatar, não pode ganhar. Se ganhar, não pode governar”. O que já era uma ação miliciana. Que, por coincidência histórica, aconteceu também no Rio de Janeiro. O que não faz do estado de Roberto Marinho o único nesse tipo de trama politicamente conspiratória.
A VELHA NOVIDADE CHANTAGISTA
Não há nada de novo. A única novidade, se for novidade, é o modus operandi (o latim que foi adotado pela linguagem policial) dos psicopatas milicianos cabos eleitorais: eles se apresentam sem nenhum receio de punição diante da população e a justiça. Como se diz na gíria prepotente: “De cara limpa”. O resto é tudo tão velho como a glorificação que a própria mídia fazia (e ainda faz: a quem interessa Tropa de Elite) de certos policiais, elevando-os à categoria de heróis urbanos. Principalmente quando eles protegiam (e protegem) particularmente a insegurança das chamadas elites. Quem visitar a galeria encontrará desfilando Padilha (cantado por Moreira da Silva), Perpétuo (referente à prisão do meliante Cara de Cavalo), Mariel Mariscot (homem de ouro do governo), Fleury (torturador elogiadíssimo pelo apresentador de Tv Flávio Cavalcante), entre tantos. A didática miliciana de aprisionar o voto do pobre foi concebida no mesmo ventre miserável do coronéis de barranco que rebanharam os votos dos interioranos e os confinaram nos currais eleitorais para servirem aos seus propósitos legislativo e executivo. Currais que ainda hoje são usados em muitas regiões, mantidos pela força de tanger e ferrar o eleitor desprovido de qualquer segurança social que o possa assegurar em tempos de eleições, o exercício cidadão: o direito democrático de exercerem livremente, através do sufrágio universal, a escolha de seu candidato.
A MÍDIA MILICIANA NO PLEITO
Depois da ditadura militar, apareceu a ditadura televisiva. Dos anos 80 até esse 2008, a mídia, mormente a televisiva, foi tomada de assalto por programas violentamente teratológicos, nos quais os pobres são humilhados como mercadorias necessárias ao único fim: eleger seus apresentadores. Para tal objetivo, todos os meios são válidos. É o que se vê nos chamados quadros policiais apresentados nos programas, onde o apresentador se confunde com a polícia para ser tomado como um protetor dos pobres e oprimidos. O que, na prática antidemocrática, é convertido em voto. O Brasil está cheio destes parlamentares que, milicianamente, aprisionam os votos destes eleitores abandonados pelos governos que construíram este estado de insegurança em que sub-vivem e é um território fértil para proliferar este tipo de patologia política. É conhecida a prática de ameaça e chantagem que estes eleitores sofrem por parte destes candidatos patologizados, apresentadores de programas televisivos. Vai além do ato violador de tomar nota do número do título de eleitor até a promessa de “armar uma” (outra gíria policial usada pelos apresentadores-policializados), se eles não votarem conforme é indicado.
De sorte que o estardalhaço da mídia sobre a milícia cabo eleitoral não passa de uma abstração formal: metamorfosear um acontecimento desativado histricamente com o propósito capitalista de lucrar. E com uma bela pose moralista. Vide exemplo, a face do analista político da BAND, Fernando Mitre, insinuando, muito preocupado, a necessidade de intervenção, nestas eleições, da Força Especial no Rio de Janeiro. Logo ele, que miliciou claramente contra a reeleição de Lula.