A IEER*, A MORAL E O FUTEBOL

O ex-jogador Roberto Perfumo, astro argentino, escreveu a um dado momento, que é preciso entender o futebol para entender o mundo. Através dele, e do quadro que se pode recortar, denominando-o “mundo do futebol”, se pode chegar a compreensões sobre o nosso mundo, as relações, os nós e as linhas de fuga que existem e que se compõe-decompõe no corpo social.

Como no mundo todo, as chamadas drogas estão também no futebol. E não diferente de outras vertentes, o jornalismo esportivo, quando trata desta e de outras questões, se coloca na posição do julgador, condenando ou absolvendo, na maior parte das vezes aplicando a pena do ostracismo ou do estigma social.

O ex-jogador Walter Casagrande Jr, ao se aposentar, foi quase que automaticamente para a cabine da rede globo. Tornou-se comentaristaCasagrande da emissora, e nela chegou a ser cogitado para o cargo de técnico do time que o consagrou, o Corinthians. Há alguns meses, Casão, como é conhecido, simplesmente desapareceu da telinha esportiva da vênus platinada, após um acidente. No entanto, somente agora, com a publicação de uma reportagem sobre o caso, veio à tona o real motivo do afastamento do jogador: Casagrande é contumaz consumidor de substâncias entorpecentes ilegais, como cocaína e heroína, e está internado em um centro de reabilitação, donde não pode sair de vontade própria, sequer ver os filhos. Os médicos já informaram que é um caso gravíssimo de dependência química.

A maior dependência é a dependência do mercado, já explanou este Bloguinho. Trata-se, portanto, de examinar a atuação da imprensa e sua posição diante da exposição do caso Casagrande.

A revista Placar, responsável pela reportagem – que ainda nem foi às bancas – foi duramente criticada por quase toda a imprensa esportiva, acusada de se intrometer em um assunto familiar, e colocar à execração pública um “bom homem” como Casagrande.

TODA MORAL É UMA MORAL DE CLASSE

Já dizia o companheiro Nietzsche, craque das perspectivas, que toda moral serve a um propósito definido: estabelecer posições sociais e delimitar atuações. Ou, Foucaultiando a questão, o enunciado moral é um demarcador de poder.

MaradonaA moral burguesa, filha direta da moral judaico-cristã (sem Cristo), tem dois elementos que saltam visivelmente do caso Casagrande e a forma como foi tratado pela imprensa. O primeiro aspecto é que a moral jamais permite uma análise. Do enunciado moral jamais nasce outro enunciado, exceto aquele que carrega o aspecto judicativo: condena ou absolve. Não há espaço para transbordamentos, questões outras que existem, mas que não interessam à moral, pois eliminariam sua força. O segundo aspecto é que a moral, como enunciado judicativo, só tem força quando usada para se referir ou posicionar no mundo como objeto ao outro. O verdadeiro burguês, o disseminador da moral, ele próprio, quando se crê afastado do olhar do outro, elimina de si a força do enunciado. Por isso, quase sempre o defensor de um aspecto moralizante é pego transgredindo justamente o pecado que no outro condena.

Assim, a imprensa esportiva age como o enunciado reverberador da Moral. A mesma moral que condenou Maradona, agora absolve Casagrande.

Enquanto a imprensa, à época da descoberta – que não foi descoberta – da adicção de Diego, condenou-o, colocando como mau exemplo, perseguindo, exibindo a feiúra e a chaga moral do ex-craque (escroque?) Maradona (Maracoca!), no caso de Casagrande, o bom moço, as críticas recaíram sobre a revista que publicou o material. Um, santo que caiu numa armadilha. Outro, demônio que se compraz no pecado, e deve ser usado como imagem da pedagogia do medo a disciplinar criancinhas incautas.

Enquanto a imprensa mundial e a nacional não pensam duas vezes em publicar cada escorregadela de Dom Dieguito, enquanto se busca constantemente o clique que melhor capture a deformação corporal, ícone da deformação de caráter do sujo Maradona, aquele que beijava lascivamente o não menos pecador Caniggia, a cada gol marcado, no caso de Casagrande, a revista é acusada de não respeitar a decisão da família, que não queria que a adicção viesse a público. A mesma imprensa que condena a revista por adotar uma postura sensacionalista, explorando a dor de um ídolo para vender mais, também é ávida consumidora das fotos e manchetes da imprensa sensacionalista internacional, quando o assunto é mostrar a imagem do erro, a chaga moral, a violência quando sintoma da violentação social.

Esta moral, que se pretende enunciado definitivo, tábua de salvação (ou leito de Procusto), serve a um e não a outro. Por que?

CasagrandeÉ que um é a imagem-simulacro desta própria Moral. Casagrande é bom moço, ouve o rock inócuo de Rita Lee, fala mal do governo, trabalha na Globo, penteia o cabelo, não reclama do lanche, não toca nas feridas abertas do futebusiness mundial, tem opinião formada sobre tudo, mas não analisa nada. Um exemplo para a juventude!

E o outro? O mal, feio, gordo, gênio mau, não sorri para as fotos, não esconde a sujeira familiar debaixo do tapete, acha que seus problemas são do interesse das pessoas, diz que a guerra é injusta, que Bush é a encarnação do deus Mercado, é amigo de Fidel, de Lula, de Chávez, tem tatuagem, é crítico do futebusiness, inimigo da FIFA, torcedor do Boca Jrs, crítico da seleção do próprio país, fez gol com a mão, beijava outro homem na boca, eliminou o Brasil de uma Copa do Mundo e feriu o orgulho nacional, cheirou, tornou público, colocou o elefante brancoMaradona against Bush das drogas na sala de estar da boa família burguesa, mijou, foi eliminado da copa seguinte, acusou a toda poderosa FIFA de armação – não, logo ela! Não… – a lista de pecados é interminável, e o homem está longe de morrer, apesar dos problemas sérios de saúde.

Tal condenação é resultado de uma moral da classe fraca, moral do rebanho, do ressentimento, da impotência, da imobilidade, da sociedade decadente.

A moral do rebanho, do escravo, portanto, aparece corporificada na imprensa que condena uma igual – a revista nem de longe tem condições epistemológicas de abordar o tema de forma elucidadora – e que em suas opiniões e editoriais demonstram os dois principais aspectos da moral de classe. Uma ilustração: toda a imprensa paulista sabia da adicção de Casagrande. Não publicaram por respeito à família. Respeito que teria faltado no caso do ex-centroavante Reinaldo (Atlético Mineiro), do próprio Maradona e de seu parceiro-afeto, Caniggia? Ou a “família” que pediu sigilo seria a patroa Globo, sempre pronta a condenar Diego no Jornal Nacional, com beicinho e meneios de cabeça condenadores do casal Bonner-Simpson, mas que quando se trata de discutir problemas sociais no seu próprio seio familialístico, se omite. Enunciado típico do burguês: “meu filho é doente, o da vizinha é viciado”; “minha filha é liberal, a do vizinho é puta”; “meu pai teve um deslize, o pai do vizinho foi chifrado”, “minha mãe é excêntrica, a do vizinho é louca”; “meu filho é homossexual, o do vizinho, bicha doida”. A moral do Escravo, filha do ressentimento e da impotência, nasce do Não “a um ‘fora’, a um ‘outro’, a um ‘não-eu’.

Ao caracterizar Maradona e Casagrande como estereótipos do bom e do mau, a imprensa se revela acéfala repetidora do enunciado da moral de classe, estabelecendo valores a serem copiados pela sempre titubeante classe média. A moral de rebanho não é apenas um divisor hierárquico social; é também um demarcador de status.

Não espere o leitor intempestivo, portanto, de nenhum – nos arriscamos sem nenhum risco a dizer – jornalista da imprensa esportiva que está aí, uma análise que leve em conta aspectos para além da moralidade ‘bola murcha’ que posiciona o intempestivo Maradona como o diabo a ser evitado e o good boy Casagrande como o exemplo a ser seguido. O que dirão, caso Casão não consiga superar a adicção? Casão não chega a D10S, nem dentro, nem fora de campo.

Há, ao menos, uma boa notícia neste imbróglio todo: Walter Casagrande Jr, ótimo centroavante de Corinthians, Torino, Flamengo, dentre outros, deixou temporariamente de usar um tipo de entorpecente. A Rede Globo.

* IEER: Imprensa Esportiva Epistemologicamente Reduzida.

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