GRAVAÇÃO INÉDITA DE EDNARDO FEITA EM 1972 TRAZ VÁRIAS CANÇÕES QUE SE TORNARAM CLÁSSICOS, ALÉM DE “AUSÊNCIA” INSPIRADA EM UMA NAMORADA ASSASSINADA NA GUERRILHA DO ARAGUAIA
MPB
“Sarau Vox 72”, chega às plataformas por demanda com 17 canções suas e de amigos, registradas pelo compositor em fita cassete
Ednardo em 1972.
Créditos: Gerardo Lima/Arquivo Pessoal
Por Julinho Bittencourt
OPINIÃO – 20/4/2022 ·
O cantor e compositor cearense Ednardo tem uma das obras mais renovadas e luminosas da nossa canção. Apesar de meio desaparecido desde o grande sucesso que fez na década de 70, sobretudo com a canção “Pavão Mysteriozo”, sua obra persiste tanto entre os saudosistas que o acompanharam quanto entre os mais jovens.
O compositor, que não lança nada de novo desde 2005, tem um álbum em gestação desde 2018 que deve chegar às plataformas ainda este ano. Enquanto isso não acontece, acaba de chegar aos seus perfis o belo e curioso “Sarau Vox 72”, com 17 canções suas e de amigos, registradas, como todo compositor de então fazia, em uma fita cassete.
A gravação foi feita em uma sala comercial do Edifício Parente, onde também funcionava a loja de discos Vox, de José Gerardo Lima, espécie de ponto de encontro da época que ficava no centro de Fortaleza.
A fita foi cedida ao compositor pelo filho do comerciante, o colecionador e pesquisador musical Gerardo Lima, que a guardou por mais de 50 anos. A foto que ilustra este texto também é de autoria dele.
Na gravação estão algumas canções do próprio autor que ele viria a gravar depois, além de algumas de amigos que virariam celebridades logo a seguir – como Belchior e Fagner – e as canções sucessos retumbantes, como “Hora do Almoço”, “Mucuripe” e “Paralelas”.
O que há de mais curioso e, para os fãs, prazeroso, é perceber como eram essas canções antes de ganharem os arranjos que as eternizaram, seminuas executadas apenas com a bela voz e o violão vigoroso e certeiro do cantor e intérprete.
O álbum abre com a emblemática “Ausência”, gravada posteriormente no álbum “O Romance do Pavão Mysteriozo”. A história por trás da canção, revelada recentemente pelo autor, conta sobre um romance que ele teve com uma moça que, descobriu depois, veio a morrer na guerrilha do Araguaia, logo após se despedir dele aos prantos.
A partir de então, Ednardo desfia um lindo repertório de canções que tinha até então. Muitas delas foram gravadas posteriormente ao longo de seus álbuns, como “Carneiro”, “Mais um Frevinho Danado” e “Varal”.
Além destas, o álbum traz também a quase inédita “Bip bip”, dele e Belchior que foi apresentada por Claudio Ornellas em 1972, durante eliminatória da sétima e última edição do Festival Internacional da Canção (FIC), mas nunca gravada em disco.
O álbum traz também uma comovente versão de Ednardo para o clássico “Mucuripe”, de Fagner e Belchior, que acabou se tornando uma das grandes obras-primas da nossa música, regravada por vários cantores, entre eles o próprio Fagner, Roberto Carlos e Elis Regina.
“Sarau Vox 72” é, enfim, um belo esboço do que vários artistas cearenses vieram a fazer alguns anos adiante. Um documento histórico que vale ouvir e guardar.
Veja sua postagem abaixo e ouça a canção “Ausência”:
*CRÔNICA SOBRE AUSÊNCIA*
*Ednardo Sousa*
Passamos quase a noite toda dançando ao som de várias músicas brasileiras. Era início dos anos 70.
Uma foi especial – “Você só dança com ele e diz que é sem compromisso”… cantada por Chico Buarque de autoria de Geraldo Pereira.
Ela se entusiasmava e pedia para repetir a música e a dança.
E colava o corpo e suava, parecia um rito de partida em uma festa simples de estudantes em Fortaleza.
O ingresso de entrada era segundo os organizadores para juntar um pouco de dinheiro para estudantes que sairiam no dia seguinte em “excursão”.
Lá pelas três horas da manhã a festa acabando, ela me pergunta – Você está de carro ?
– Tenho um fusca e ela rindo – Serve… rsrs..
– Me deixa em casa…
– Vamos…
E o fusca chacoalhando nos calçamentos irregulares de Fortaleza, até chegar a um bairro distante.
Pensei, pronto a moça está em casa, mas ela nada de sair do carro e me olhava como se fosse a última vez, deitava a cabeça em meu ombro, me beijava e dava carinhos, de repente vi seus olhos se encherem de lágrimas e foi uma cachoeira, e eu sem entender muito do que estava acontecendo falei – Que é isso, amanhã a gente se ver de novo.
Ela disse – Amanhã estou viajando e não sei se volto…
Achei a situação dramática, não sabia o que estava acontecendo.
Tempos depois soube que um grupo de estudantes de Fortaleza havia ido para Araguaia e participar da guerrilha, e ela foi uma das pessoas junta a muitos outros.
Nunca mais a vi, foi morta junto a outros e outras.
Fiz duas músicas pra ela e de forma geral pr’aqueles jovens – “Ausência” e “Araguaia” era o tempo que exigia dos jovens uma definição de ação, e a que eles encontraram foi esta.
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*AUSÊNCIA*
*Ednardo*
Tu lembras, a rua estreita, estrada tão antiga
E eu mostrava a ti uma cantiga
Uma cantiga antiga do lugar.
Na rua, na paz da lua, o sonho se fazia
E sem querer então eu esquecia
Que já não temos tempo prá sonhar.
Sorrias, e a tua voz a cada instante amiga
A um só tempo em
um abraço
estreito
Fazia vida ao violão num jeito de se fazer amar.
Sorrias, e a tua voz, estranho, estrada, amiga
Perdeu-se ao longe na partida
E não ficou ninguém em seu lugar.
Sorrias, e a tua voz a cada instante amiga
A um só tempo em
um abraço
estreito
Fazia vida ao violão num jeito de se fazer amar.
Sorrias, e a tua voz, estranho, estrada, amiga
Perdeu-se ao longe na partida
E não ficou ninguém em seu lugar.
TEMAS
Ednardo
Fagner
Belchior