EDUARDO RAMOS: SOBRE O LUIS INÁCIO LULA DA SILVA, O NOSSO LULA”
Foi esse ser humano que, em sua simplicidade, um equívoco grave cometeu em sua avaliação de Brasil: esqueceu do lado perverso, maligno, ordinário mesmo, de nossas elites e classes médias.
Sobre o Luís Inácio Lula da Silva, o nosso Lula!
por Eduardo Ramos
Das milhares de fotos do Lula facilmente encontráveis nas redes sociais, hoje, dia do seu aniversário, e no contexto de tudo o que ele viveu nos últimos anos, era exatamente essa a que eu queria que ilustrasse esse texto. Porque quero falar mais do ser humano do que do político, apesar de ser tarefa enjoada: poucos líderes no mundo foram ou são, na política, tão intensamente o que são como pessoas, como tem sido Lula em sua trajetória. Essa imagem, que gente tosca comentou à época ser “uma jogada de marketing”, ilustra essa verdade – a popularidade, o carisma, a admiração que Lula até hoje desfruta de multidões no Brasil e no mundo têm a ver sim, com o ser humano raro, humilde, sensível, que usou o poder para, acima de qualquer outro objetivo, tirar o máximo que pôde da miséria e de condições de vida indignas, o povo pobre e miserável do Brasil. Ou seja, o político encarnou o ser humano, foi por ele comandado, e não ao contrário.
Na época dessa foto não é errado dizer que Lula era o estadista mais famoso e celebrado do planeta. Janeiro de 2010, início do último ano de seu segundo mandato, sua popularidade em torno dos 85% de aprovação, a Globo enlouquecida com editoriais repetitivos contrários a um terceiro mandato que, se quisesse – nunca desejou! – Lula teria conseguido através de uma mudança na Constituição, pela maioria esmagadora no Congresso.
É aí que muitos não compreenderam e não compreendem o homem Lula, o político Lula. Dava sua missão por cumprida, que viesse outro(a) a dar prosseguimento, o homem simples de Garanhuns-PE, ex-sindicalista, vivido metade de sua vida na pobreza ou classe média baixa, tendo realizado tudo o que realizou, tendo chegado à estatura que havia chegado aos olhos do mundo, o que mais poderia desejar?
Foi esse ser humano que, em sua simplicidade, um equívoco grave cometeu em sua avaliação de Brasil: esqueceu do lado perverso, maligno, ordinário mesmo, de nossas elites e classes médias. Esqueceu que “Casa Grande”, no Brasil, não é apenas uma “expressão sociológica de um sentimento dessas elites” – Casa Grande segue sendo o que sempre foi – um clube fechado, oligarca, de algumas centenas ou milhares de pessoas, com uma renda bilionária, um poder político avassalador através da mídia e dos militares, a quem recorrem de um jeito ou de outro, e que têm, historicamente, lacaios submissos e ansiosos para servir, no Poder judiciário em geral. Lula esqueceu que todo ele, para essa turma, sempre será SENZALA, por suas origens, suas ideias, sua aparência física, seu pouco estudo acadêmico, e, o pior dos crimes, por querer subverter a ordem “natural” das coisas, que a Senzala, no Brasil, assim deve permanecer.
Por essa ingenuidade, talvez tenha demorado a socorrer Dilma, quando essa se perdeu completamente sob a avalanche chamada Lava Jato, onde Moro, Globo e os procuradores açoitavam a presidente, o próprio Lula e o PT 24 horas por dias, num processo de satanização jamais visto em nosso país.
O resto é História! Assistimos, desesperados e impotentes, nós, os que estávamos lúcidos e não tornados em fanáticos enfermos, a demolição de nossa democracia, o golpe final sobre Dilma e a prisão de um inocente, o que hoje está sobejamente provado.
Quem é esse Lula que sobreviveu ao inferno da família massacrada, o desprezo e o nojo de parte da sociedade, a morte de dona Marisa, à prisão, e hoje, tendo passado por esses sofrimentos tão indizíveis, mais uma vez se coloca à disposição do povo brasileiro para nos livrar do horror, de Bolsonaro, e ao povo, do desemprego, da miséria, da fome…?
Ah, essa é a maior das grandezas de Lula: é o mesmo Lula de Garanhuns, é o mesmo Lula que virou sindicalista, é o mesmo Lula que depois liderou o maior sindicato do Brasil, é o mesmo Lula que fundou o PT num rasgo de esperança ousada, e o mesmo Lula que presidiu esse Brasil por duas vezes e foi recebido por estadistas, reis, rainhas, intelectuais em todo o mundo…
Essa é a nossa esperança e a nossa homenagem, o Lula, “o nosso Lula”, como diz o título. E não escrevi isso por ser petista – não sou! – mas porque Lula, para os minimamente lúcidos e não enfermos por preconceitos doentios, é um PATRIMÔNIO NACIONAL, é o líder que nos mostrou ser possível – quando enfrentarmos nossas oligarquias do modo devido… – tirar a Senzala da miséria e da vida degradada.
Feliz Aniversário, presidente Lula. Que sua capacidade extraordinária como conciliador, nos resgate de tanto horror.
(eduardo ramos)