FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: NINA (2006-2021) E A UTOPIA DE BALEIA
José Alcimar de Oliveira*
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um
Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num
chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos enormes (Graciliano Ramos).
01. O filósofo alemão Schopenhauer (sempre na companhia de seu fiel
amigo canino, Atma) ressaltava seu amor aos animais ao afirmar que entre
os cães, ao contrário dos homens, a vontade não se deixa dissimular pela
máscara do pensamento. Ou seja: nossos amigos caninos são como a
verdade: só têm uma face. Quem necessita de mil disfarces para se manter
é a mentira. Os mamíferos não humanos, como os cães, são
incondicionalmente fiéis e afirmativos. Em termos nietzschianos, não
necessitam de dever-ser, nem tornar-se, porque já são o que são para além
de qualquer horizonte teleológico ou moral. Estão vacinados contra o
negacionismo e o moralismo hipócrita. Estão próximos da verdade
filosófica das crianças que, de forma direta, afirmam a nudez e a nulidade
do rei.
02. Na foto acima, numa amizade canina, Flávia (filha de Nilda e
Clóvis) e nossa Nina. Nina partiu neste 12 de junho de 2021. Ela nos
adotou e nos acompanhou por 15 anos e um mês. Única sobrevivente de
uma ninhada de 12 salsichinhas, nasceu no dia 12 de maio de 2006. Filha
de uma relação anônima e estranhada entre a Indi (uma setter irlandesa do
casal amigo Sylvia e Bruce) e o Dib (um dachshund, o conhecido
salsichinha, do casal Nilda e Clóvis, cunhada e concunhado). É provável
que os ancestrais da Indi, mãe de Nina, tenham conhecido Mary Burns,
Engels e Marx. Mary Burns, irlandesa, foi a companheira proletária de
Engels. Quanto ao Dib, de origem alemã, não é de admirar que seus
antecedentes tenham perseguido ratos nos arredores do quintal de Marx.
03. Enquanto viveu, Nina só nos trouxe alegria. Voou para junto de
seus pais, Indi e Dib. Agora, integra-se definitivamente à mãe Natureza.
Deve estar a percorrer o ceu canino, com seu latir parecido a de um
cachorro grande e, dentre tantos que partiram, em companhia do Quincas
Borba de Machado de Assis, da Baleia de Graciliano Ramos, do Atma
de Arthur Schopenhauer, do Argos, o fiel cachorro de Ulisses, do Ralph de
minha mãe Ana Nilda. Todos cuidados por Espinosa, que conferiu à
Natureza estatuto divino. Deus sive Natura. Porque dizer Deus é dizer
Natureza. Nina terá muito tempo livre e não será importunada pelos ratos
que de vez em quando invadiam o seu território para lhe roubar a ração,
embora estes não sejam os mais ameaçadores. Quero apostar que no ceu
não haja ratos famintos.
04. Clarice Lispector afirma que Brasília “foi construída sem lugar
para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de
ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente
não presta”. Mais adiante, Clarice conclui sua visão de Brasília, que Nina
certamente aplicaria a Manaus: “O inferno me entende melhor. Mas os
ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível
nos jornais. – Aqui tenho medo. – A construção de Brasília: a de um Estado
totalitário”. Nina deverá relatar a Clarice sua militância canina no combate
aos ratos em Manaus, não daqueles que a arquitetura de Brasília desalojou
para dar lugar a outros mais predadores. Estes, de fato, estão corroendo o
Brasil. Constituíram-se como uma necrocracia.
05. Neste 2021, o ANDES – Sindicato Nacional dos Docentes do
Ensino Superior completa 40 anos como a nossa Universidade Nacional da
Militância. Nina participou, caninamente, dessa irredenta história. Por mais
de uma vez compareceu às manifestações políticas na Praça da Polícia, em
Manaus, quando da maior greve, a de 2012, das Universidades Federais.
Nina estava lá, com sua faixa vermelha enrolada em seu pequeno, mas ágil
corpo. Foi comigo, naquele 2012, prestar solidariedade ao Acampamento
Estudantil de apoio à greve, armado ao lado da sede da ADUA – Seção
Sindical dos (as) docentes da Universidade Federal do Amazonas. À época,
com seis anos, tentou imprimir suas patas numa ficha de filiação sindical, o
que não foi possível por não haver na ADUA uma subseção canina.
06. Com histórias desiguais, Nina e Baleia partilham de uma utopia
comum: um mundo reconciliado com a justiça. Baleia, tomada de feridas e
sem o tratamento veterinário a que Nina teve acesso, teve que ser
sacrificada pelo tiro de espingarda de Fabiano. Morreu sonhado com a
utopia de um mundo de fartura para a família de retirantes da qual fazia
parte. No seu sonho derradeiro, já quase desfalecida, Baleia imaginava o
paraíso como um lugar repleto de preás, grandes e gordos. Baleia, além de
caçadora exímia, ajudava Fabiano a ajuntar os animais rumo ao bebedouro
e ao cercado, e proteger as cabras dos ataques traiçoeiros das suçuaranas.
Nina não precisava ir à caça. Tinha a sua justa ração diária. E enorme teria
sido sua alegria se tivesse aprendido com Baleia a ajuntar as cabras; a caçar
preás, talvez não.
07. Quem conheceu Nina sabe de sua generosidade em receber
visitas. Se percebesse pelo faro que a visita convivia com os seus pares,
mamíferos não humanos, a recepção era ainda mais festiva. Malmente
ouvia o sino da visita tocar, ela corria com seu latido alegre e forte, a
mimetizar um animal de porte maior. Também exímia caçadora, era raro
uma catita escapar de sua investida. Nunca fez questão de recorrer às suas
origens irlandesas e germânicas. Era uma alegre mestiça marrom, caboca,
nascida e vivida em Manaus e jamais trocaria o quente e úmido da
Amazônia indígena pelo clima temperado da Irlanda ou da Alemanha.
Preferia Paulo Freire a Habermas e Mario de Andrade a Hegel.
Acompanhou cada passo de minha tese de doutorado, disputando minha
atenção com seu olhar carente. Sua presença subtraía peso a qualquer
ambiente. E, acima de tudo, gostava de gente. Nininha, agora, para nós,
Nira e Alcimar, tem o nome de saudade. Já deve ter encontrado, no céu,
Dona Nilda (minha mãe, que adorava esses mamíferos) e Dona Nice
(minha sogra mura), que também amava estes seres de quatro patas, e deu o
sobrenome de Nininha: Nina Nice.
*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do
cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe, aos 13 dias de junho do ano (ainda) pandêmico de 2021.
Parabéns Professor José Alcimar!
Seu texto me fez pensar na minha companheira de quatro patas Jaci que mesmo vivendo aqui(Brasília) é indiferente à presença de ratos ainda que os mesmos lhes roubem sua ração.