FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: A ESPERANÇA FRAUDADA: QUE FAZER DIANTE DO PODER DA DISTOPIA?

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Por José Alcimar de Oliveira *

Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque

passou a primeira condição (Ap 21,4)

 

01. O texto da epígrafe acima, no Livro do Apocalipse, remete à
utopia da Nova Jerusalém, do novo céu e da nova terra. Quando o mostrei
ao camarada Sartre, ele de imediato reagiu, sem ser reativo, e
fundamentado no denso estudo de sua ontologia fenomenológica em o Ser
e o nada, de 1943, fez-me ver que não temos outra condição senão esta que
não escolhemos e nela nos damos conta que nos cabe viver. O ser-em-si
que nos joga no mundo não se faz acompanhar de essência, é carente de
explicação e sem razão de ser. Ao tornar pública sua teoria, Sartre recebeu
um duplo ataque, dos marxistas e dos cristãos. Respondeu a ambos. Na
verdade, com mais vagar aos marxistas do que aos cristãos, se
considerarmos o acerto de contas que fez com a tradição do materialismo
histórico e dialético em sua portentosa Crítica da razão dialética, de 1960.
Sartre, intelectual militante, insistia que é necessário agir sem esperança.

 

02. Pelos marxistas Sartre foi questionado quanto à alegada
tendência à inação e ao fatalismo de sua teoria, e que pouco peso dava aos
condicionamentos que a história impõe ao ser social. O texto marxiano de
O 18 Brumário o deixou muito intrigado: “Os homens fazem sua própria
história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de
sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e
transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime
como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Em sua célebre conferência, O
existencialismo é um humanismo, de 29 de outubro de 1945, publicada no
ano seguinte, Sartre começa a mover-se em direção ao marxismo, por ele
depois designado como “filosofia insuperável de nosso tempo” nos idos de
1960, ano em que visitou o Brasil e veio até Manaus. Não fossem as
restrições de Simone de Beauvoir, que muito reclamou do quente e úmido
baré, Sartre teria saboreado um jaraca frito no velho Adolpho Lisboa.
Quanto a mim, aos quatro anos e morando numa pequena casa no distante
bairro de Flores, onde meu pais Marcondes e Ana Nilda trabalhavam como
caseiros, ainda me encontrava inteiramente sob o regime do ser-em-si.

 

 

03. Quanto aos cristãos, mais precisamente a oficialidade cristã,
guardiã da ortodoxia doutrinal tutelada pela Sagrada Congregação para a
Doutrina da Fé, Sartre preferiu não investir maior energia intelectual. Além
do mais, seus livros já haviam sido incluídos no terrível Index Librorum
Prohibitorum (o catálogo dos livros proibidos pela Igreja). Foi somente em
1965, no pontificado de Paulo VI, que o ex-Santo Ofício teve o nome
mudado para Sagrada Congregação, a mesma que impôs ao teólogo
Lonardo Boff um ano de “silencio obsequioso” no início dos anos 1990, em
razão da crítica que ele fez ao sistema de poder da Igreja em seu livro
Igreja: carisma e poder. Embora abolido em 1965, o famigerado Index dos
livros proibidos persiste por meios mais difusos e sutis, haja vista a força
do fundamentalismo religioso capitalizado pela próspera teologia da
prosperidade. Hoje a economia assumiu prerrogativas de ciência religiosa.
Nunca esteve no horizonte do pensamento sartreano afirmar ou negar a
existência de Deus. Já estava por demais assoberbado com a existência do
ser contingente.

 

04. O agir sem esperança sartreano parece bem menos enganador do
que a esperança retida na caixa da deusa Pandora. Abandonado pelas
demais divindades que preferiram o refúgio sereno no Olimpo às agruras
do mundo sublunar, o ser social nem sempre pode confiar na esperança,
única deusa que Pandora deixou para a humanidade. Por isso, é melhor
apostar na ação do que na esperança. A esperança, sobretudo a falsa
esperança, pode malbaratar a ação. A falsa esperança conduz à distopia,
porque manipula a ação. A esperança verdadeira tem seu movente na
utopia e na práxis seu fundamento. Sob esse itinerário, Jesus de Nazaré,
Marx e Sartre, por distintas ontologias de compreensão do real, foram
pensadores utópicos: todos apostaram na ação. Todos fundamentaram a
esperança na ação. Não é este o princípio gramsciano: combinar de forma
dialética o pessimismo da inteligência (a crítica) com o otimismo da
vontade (a ação)?

 

05. O sentido radicalmente humano e utópico da ressurreição reside
na afirmação da vida. O choro de Maria Madalena diante do sepulcro vazio
e sua visão dos dois anjos apontam para o futuro, para a utopia do Reino,
ao contrário do anjo da história de que nos fala Walter Benjamin, cujo
olhar estranhamente se volta para o passado. Um tipo de retrotopia
(Bauman). A distopia de Madalena foi momentânea. No imediato de sua
visão parecia haver somente lugar para o corpo morto de Jesus de Nazaré.
Um topos distópico. Mas logo sua distopia cede lugar à utopia. O teólogo
João registra em linguagem demasiadamente humana como Maria

Madalena, mulher discriminada, foi a primeira pessoa a ver o Cristo
Ressuscitado. Madalena, porque de Magdala, um pequeno povoado perto
do lago da Galileia. Seguramente um povoado de má fama, tão
estigmatizado pelas autoridades farisaicas no tempo de Jesus quanto
estigmatizada foi até ao século XXI, pela Igreja Católica, sua filha
Madalena: tachada de prostituta, pecadora, adúltera e possuída por sete
demônios.

 

06. Registra o teólogo João: “Chorando (Maria Madalena), inclinou-
se para olhar dentro do sepulcro. Viu dois anjos vestidos de branco,
sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés.
Eles lhe perguntaram: ‘Mulher, por que choras?’. Ela respondeu: ‘Porque
levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram’. Ditas essas palavras,
voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Perguntou-lhe
Jesus: ‘Mulher, por que choras? Quem procuras?’. Supondo ela que fosse o
jardineiro, respondeu: ‘Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o puseste e eu
o irei buscar’. Disse-lhe Jesus: ‘Maria!’ Voltando-se ela, exclamou em
hebraico: ‘Rabôni’ (que quer dizer Mestre). Disse-lhe Jesus: ‘Não me
retenhas, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-
lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus’. Maria
Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor
e contou o que ele lhe tinha falado” (Jo 20, 11-18). Em conclusão: numa
exegese fielmente heterodoxa, diria que Madalena tem precedência
apostólica sobre Pedro, o chefe dos apóstolos.

 

07. Tenho certeza que neste domingo da Ressurreição, 04 de abril de
2021, Dercy Gonçalves (1907-2008), também mulher irredenta e filha de
Magdala (Santa Maria Madalena, RJ), juntamente com Maria Madalena da
Galileia, celebrarão com Jesus de Nazaré a vitória ontológica da vida sobre
a necrocracia que, combinada à pandemia de Covid-19, está convertendo o
Brasil no maior cemitério a céu aberto do mundo. Maria Madalena e Dercy,
ambas de Magdala, nos protejam a nós brasileiros. Para os devidos
registros no Grande Memorial da Vida, este escrevinhador e teólogo sem
cátedra atesta que desde 2016, por obra do Papa Francisco, o mais
franciscano dentre os jesuítas, Maria Madalena (a mulher mais citada nos
evangelhos) foi incluída no Calendário Romano como Santa Maria
Madalena, cuja festa litúrgica é celebrada no dia 22 de julho. Ela, agora, é
apostola apostolorum (apóstola dos apóstolos) e, desde já, para
conhecimento de São Pedro, faço lembrar que Dercy Gonçalves é a mais
fiel amiga e escudeira de Santa Maria Madalena.

 

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo heterodoxo e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus,
AM, no Domingo da Ressurreição, aos quatro dias de abril do ano (ainda coronavirano) de 2021.

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