FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR*: FILOSOFIA, TEMPO E SENSAÇÃO
FILOSOFIA, TEMPO E SENSAÇÃO
José Alcimar de Oliveira *
Quanto menos a força muscular foi aplicada às máquinas colossais, quanto mais as pontas dos dedos e
os movimentos oculares foram motora e refinadamente alinhavados a aparelhos microeletrônicos,
mais se destaca para qual direção a transformação da exploração aponta: para a exploração da
concentração (Christoph Türcke).
01. Em tempos de pós-verdade, de supremacia do virtual sobre o
ontológico, apostar na sensação é a saída mais fácil, sedutora e eficiente
para subtrair direitos e manter corações e mentes em estado de permanente
contentamento. Se é possível substituir o direito universal à educação pela
sensação de que se pode educar por meio da falácia do ensino a distância,
seletivamente reservado ao andar de baixo, por que defender e despender
energia com a educação presencial? Além do mais, na via da sensação o
retorno é imediato e garantido. Lucrativo, sobretudo. Apostar no poder da
sensação, mais do que sensação de momento, converteu-se em estrutura
permanente de domesticação cognitiva. Sentir é bem mais agradável do que
pensar. A época da pós-verdade “corrigiu” o erro cartesiano, e trabalhoso,
de derivar a existência do pensamento. Aliás, a pós-verdade, justiça
epistêmica seja feita, conseguiu pelo recurso à sensação – o agora sinto,
logo existo – impor um golpe inflexivo e demolidor à compreensão do
cogito em Descartes, Kant, Hegel e Marx. Afinal, conceito não excita,
pensar é penoso e viver (segundo o Rosa) é perigoso.
02. Se pudesse e tivesse um mínimo domínio dessa arte, ou artifício,
e não fosse eu tão impermeável à epistemologia epidérmica da sensação,
em lugar deste escrito em sete reflexões e tecido por conceitos, recorreria a
recursos menos cefálgicos para exprimir o que penso em caracteres
sensitivos. Quem me salvará dessa aporia? Recorri ao meu mestre
franciscano medieval Guilherme de Ockham, a quem se atribui a famosa
navalha epistêmica da redução conceitual – não se deve multiplicar
conceitos sem necessidade –, sem que obtivesse, por inabilidade minha,
nenhum progresso no manejo dessa refinada arte. O máximo que consegui
se limitou à redução do título deste escrito – FILOSOFIA, TEMPO E
SENSAÇÃO – mais premido por exigências editoriais do que propriamente
por atender à recomendação da navalha epistêmica atribuída ao célebre
franciscano.
03. Sempre me iludiu o poder dos títulos, não os acadêmicos, mas os
de um simples artigo. Sinto-me inseguro em escrever o que quer que seja
sem o abrigo de um título. Por conta dessa crença, ao titular algo,
invariavelmente agrido o princípio lógico, e também dialético, de que se
alargamos a extensão, comprometemos a compreensão. E vice-versa.
Termino cedendo à extensão. Estou longe de chegar à maestria estilística e
substantiva de um Graciliano Ramos. O seu Vidas secas é paradigmático
para mim. O que falsamente me conforta é que nem o Velho Graça escapou
dessa armadilha. É de conhecimento comum que o título inicialmente
pensado para Vidas secas era Um mundo coberto de penas. Seria uma pena
encontrar este romance abrigado sob título tão esvoaçante e anêmico. Se
for possível pensar em título perfeito, Vidas secas é uma referência
incontornável. Dez caracteres que concentram à perfeição o vínculo
ontológico entre título e obra.
04. Escritor substantivo, perito na arte de reduzir ao essencial da
linguagem a transposição do mundo para os códigos da escrita literária,
Graciliano Ramos, da estirpe dos grandes comunas brasileiros,
seguramente seguiu a recomendação de Ockham sem que tivesse mantido
relação conhecida com o velho franciscano. Arriscaria a dizer que
provavelmente viesse a se interessar, não sem alguma reserva, pela obra do
frankfurtiano Christoph Türcke, Sociedade excitada: filosofia da sensação,
da qual extraí a epígrafe destas notas filosóficas. Türcke em crítica
filosófica explícita dialoga com o texto de Graciliano que, na inerência da
secura do estilo e do conteúdo, recusava, avant la lettre, a medida pós-
moderna da apreensão sensitiva do real. A pobreza de mediações e o
consequente mutismo das vidas de Vidas Secas, de Graciliano, tanto quanto
os excessos da abrangente medida epidérmica e excitativa da pós-verdade,
objeto da Filosofia da sensação de Türcke, se constituem em formas
cognitivas de aprisionamento.
05. Segundo Türcke, “uma pessoa se torna o que é por meio daquilo
que ela reúne, daquilo que ela concentra. Concentração é o seu âmago. Mas
ela não lhe “pertence”, tal como um nariz ou uma camisa”. Em diálogo
com Türcke, e no itinerário de sua reflexão filosófica, penso que
concentração é tempo mobilizado, é tempo que nos move, de forma
autônoma ou heterônoma. O que concentra a atenção pode igualmente
libertar ou aprisionar. A concentração como “excitação ligada” é uma
forma de heteronomia cognitiva. Agarrado pela sensação, ou “distração
concentrada” (Türcke), o sujeito acostuma-se a cultivar a “si mesmo sem si
mesmo”, conforme nos diz Adorno, mestre de Türcke. É preciso dizer que
distraídos não venceremos. Perde a posse de si mesmo o sujeito quando o
que preside sua concentração subtrai ao tempo sua potência reflexiva.
06. Segundo Kant, o tempo, como forma a priori da sensibilidade, é o
operador de nossa experiência interna. Pensador necessário e incontornável
quando se trata de definir o modo humano que estrutura o fenômeno do
conhecimento, a compreensão da razão em Kant, é preciso dizer, ficaria a
meio caminho, limitada a um complexo formal e abstrato, se a ela não fosse
agregado o constitutivo fundamental da práxis. Devemos a Marx o passo
epistemológico fundamental para a compreensão desse devir. Mas devemos
reconhecer também que, mesmo em sua constituição formal e abstrata, o
tempo em Kant não é o da sensação pós-moderna. É forma de
sensibilidade, abstrata e formal sim, mas da alçada da interioridade. A
considerar esse itinerário filosófico devedor da afirmação do cogito de
Descartes, que se dialetiza de forma abstrata em Kant, posto que numa
dialética ainda carente de história, que se historiciza em Hegel, mas num
devir histórico idealmente movido, é somente na tradição da dialética
materialista e histórica, marxiana e marxista, que o tempo se reconcilia com
o homem como ser social. Fora da ontologia social só há lugar para a
experiência do tempo em sua forma alienada e alienante de “distração
concentrada”.
07. O que quer que seja e que haja e poderá ter havido antes e haverá
após o que somos enquanto realidade hominizada, nunca o saberemos.
Apenas sabemos que o que designamos por natureza nos preexiste, nos
constitui e a nós subsistirá. O mito do capital nos infesta com a ideia de que
podemos prescindir da natureza e à custa de sua destruição edificar uma
segunda natureza, superior e abstraída da finitude. Ao contrário da estrutura
mítico-sapiencial dos povos originários, não enraizada na dicotomia
natureza-cultura, em que o tempo da vida não se aparta do tempo da
natureza, o mito do cientificismo positivista, base do sistema capitalista,
sacrifica a temporalidade e a finitude por meio da ideologia do instante
experimentado como eterno-presente. Para escapar ao tempo como
“distração concentrada”, que simultaneamente destrói o tempo da natureza
e priva o ser social da medida do tempo como espaço da formação humana,
o que nos cabe é trazer o tempo para os trilhos da práxis. Desde Manaus, no
centro da Amazônia Ocidental, é preciso imprimir no devir histórico a
verdade de que o tempo da Amazônia não foi, não é e nunca será solúvel
no tempo do capital.
* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e
Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Em Manaus, AM, aos 28 dias de fevereiro do ano (ainda) coronavirano de 2021.