O HÁBITO NÃO FAZ O MONGE COMO O CARGO NÃO FAZ A AUTORIDADE

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O hábito não faz o monge. É um sábio dito-popular. Na verdade, é uma enunciação histórica-filosófica. Há monges por todos os lados.

O homem veste o hábito e se expressa como se fosse o monge. Uma representação trans-teológica que ele acredita figurar. Uma representação que lhe deixa crente de que é respeitado. Não é para menos. O hábito não é só veste. Ele é, também, costume internalizado como modelo-comportamental, e, como costume, ele é respeitabilidade, visto que seu hábito-costumeiro lhe permitiu dupla identidade. Uma a que ele acredita ser, e a outra a que os outros acreditam ele ser. Assim, não há hábito sem a confirmação dos outros. A formulação do costume.

O cargo não faz a autoridade. Um sábio dito-popular. Na verdade, é uma enunciação histórica-política. Há autoridades por todos os lados.

Em sociedade-democrática a autoridade é um ser-político constituído dos atributos fundamentais para o exercício das funções que lhes são designadas. Esses atributos, estão intimamente implicados em três componentes epistemológicos que sem eles não há autoridade:

I – Conhecimento do que é Sociedade.

II – Conhecimento do que é Estado.

III – Conhecimento do que é dimensão Ética-Social.

Aqui é preciso mostrar que autoridade não é só uma representação saída do corpus jurídico-burocrático-administrativo como expressão de uma instituição claramente do Estado. No sentido vulgar, há autoridade quando alguém exerce um poder sobre outro. Porém, o que interessa, no momento, é a autoridade dita institucional. A autoridade saída do cargo que se desdobra em dois significados: a autoridade que assim é considerada porque ocupa uma cargo; e, a autoridade, que ocupa um cargo por ser constituída pelos três componentes epistemológicos.

Essa autoridade conhece a dimensão da sociedade em seus predicados ontológicos imprescindíveis para a convivência entre seus membros-constitutivos. Seu corpus-discursivo, como práxis-social, na forma democrática, se enuncia como homologia, linguagem de todos, e, como homonoia, consciência de todos. Trata-se, assim, de uma autoridade-essencial, visto que age sempre impulsionada pela Razão-Coletiva.

No caso da autoridade, relativa ao Estado, ela é assim designada em função do conhecimento que tem desse corpus-político implicado como enunciador das instituições que devem ser dispostas aos interesses institucionais da sociedade como povo-organizado. Razão-suficiente de sua existência. O exercício-político dessa autoridade não pode ser colocado contra os direitos da sociedade-devir-povo que são os fundadores do Estado como corpus-político. A autoridade-política é concretização da ação popular através das instituições.

Já, no que se refere ao terceiro conhecimento, trata-se singularmente da síntese dois dois primeiro conhecimentos como práxis e pieses. A dimensão Ética -Social de uma autoridade só se revela quando esta autoridade se afasta de sua individualidade, da força castradora e culpante da família-privada, tornando-se um ser-social. Um agenciador-coletivo de enunciações relevantes do existir-alegre nos territórios existenciais. Sua Ética-Social é expressada na enunciação Estética: O que é de Todos é de Todos como forma sublime de existir.

O hábito do monge e o cargo da autoridade se confundem no Brasil atual. Há uma neurose-costumeira de se querer monge sem as partículas trans-teológicas. Assim, como se querer ser tomado com autoridade em função do cargo. Nos casos específicos das representações parlamentares e executivas, há exemplos por todos os lados de ditas autoridades que assim são designadas apenas pelos cargos que foram indicadas, mas sem qualquer atributo para os mesmos. Sem qualquer conhecimento do que é sociedade, Estado e Ética-Social. O que agride frontalmente os direitos da sociedade-devir-povo submetida a violência da irracionalidade compulsiva da força do poder.

  Estas duas representações não podem ser entendidas nelas mesmas, posto que os cargos que ocupam foram determinados pelo eleitor. Mas um eleitor especial: o eleitor-analfabeto-político. O eleitor, que em seu analfabetismo-político, não detém em si qualquer noção prática e teórica dos três componentes epistemológicos, da mesma forma que os candidatos que elege. Aliás, ele vota em quem lhe é semelhante nos quesitos alienação, ignorância, descompromisso, brutalidade, egoísmo e medo da vida. São os que não sofrem de angústia existencial, de acordo com o filósofo Sartre.  

Este tipo de autoridade insensível, acéfala e aética, que só pretende exercer o poder-neurótico, encontra-se esquadrinhado pelo mundo. É o professor que oprime o estudante, sãos os pais que impõem aos filhos os modelos perversos da semiótica-capitalística, os ministros que simulam competência, o patrão que ofende o trabalhador explorando sua potência-produtiva, o homem que agride a mulher, o policial que tortura, o pastor que mente aos fiéis, o adulto que espanca a criança, o racista que agride o negro, o índio, os quilombolas…, todos crentes que são autoridades. Mas, não são. 

O hábito não faz o monge e o cargo não faz a autoridade, mas infelizmente, no Brasil atual, os dois encontram-se muito bem postados. 

 

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