O VIADO! OU: COMO SE PROCESSA A PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA HOMOFÓBICA*
Imagem de soldados-nazistas travestidos com roupas de mulher na segunda guerra.
PRODUÇÃO AFINSOPHIA. ORG
O HOMOFÓBICO é uma criatura-triste com grande conflito em relação a sua vida sexual. É alguém emaranhado nas linhas desejantes da indefinição sexual que ficou apavorado com os dois gêneros, macho e fêmea, que iriam servir de indicadores definidores de sua sexualidade, mas em função desse pavor, se colocou em posição de dúvida.
Em função da ordem patriarcal seu, maior pavor ficou fixado na imagem, no caso do menino, do pai-lei, a autoridade-castradora repressora. No caso da menina, na imagem da mãe-fálica, como forma de ambivalência: amor-ódio. É esse medo que ele, ou ela, tem quando lembra ou encontra um homossexual,
O homossexual surge para ele como alguém que simboliza seu conflito homossexual e seu medo de ter que tomar consciência dessa realidade escondida no inconsciente como impulso contínuo em busca de liberação. Daí o ódio contra o homossexual e a necessidade de destruí-lo. É como se o homofóbico visse no homossexual a constante ameaça de revelação no exterior de seu conflito sexual interior. Por isso, o compulsivo estado de produção de defesas do Ego ameaçado por um tirânico Super-Ego, o pai.
É interessante observar que o homofóbico tem grande inclinação para exercer profissões que determinam ordens em virtude de ser portador de um caráter autoritário de defesa. Trata-se de autoritarismo decorrente da sua função psicopatológica. A história encontra-se repleta desse tipo. O que na verdade reflete apenas o pavor de uma criança desesperada sob o medo da imagem-paterna. O que torna verdadeira a sentença-psicopatológica: atras de um homem violento há sempre uma criança abandonada apavorada na escuridão de sua família.
O homofóbico confirma a lógica do ódio: destruir o que se encontra fora. Diante desse pavor, o homofóbico procura uma forma de atenuá-lo através do casamento. O casamento serve como defesa, para despistar o conflito sexual porque o apresenta, diante da sociedade, como heterossexual. Fortalecido muito mais por ser uma sociedade patriarcal. Casado, terá a respeitabilidade da moral-social que lhe servirá de amparo para não aumentar suas tensões. Entretanto, pode até equilibrar as tensões, mas não as elimina. Sua sexualidade malograda continuará sendo sua íntima companhia, seu aguilhão. E será exatamente em sonho que ele terá sempre encontro marcado. Sem esquecer que ele também se revela na relação com sua mulher, quando homem, ou marido, quando mulher.
Embora o ódio do homofóbico contra o homossexual procure se alojar fora, como projeção destrutiva, ele também aparece muitas vezes como ódio invertido no próprio homofóbico. Isso ocorre quando suas defesas são enfraquecidas e ele sente as pulsões sexuais, antes bem latentes, mais próximas do consciente. Não sabendo o que fazer contra elas, ele se odeia chegando algumas vezes ao suicídio.
O ódio por si mesmo sai de dois seguimentos paranoicos. Um, o resultado da vivência que teve de perseguir o homossexual, que se traduz como exclusão. Outro, por vê-lo como alguém que merece ser eliminado. Dessa forma, o ódio contra si mesmo se mostra, no primeiro seguimento, como julgamento e, no segundo, como eliminação. Como o ódio é de si mesmo, ele, contra si mesmo, apresenta-se como juiz e carrasco de si mesmo, o que ele não suporta. O juiz e o carrasco sempre foram para ele dois personagens muito importantes com alta relevância como senhores da verdade. Como se encontra nos nazifascistas. Os únicos verdadeiramente representantes do poder. O poder que ele sempre amou e venerou, e que agora o destrói através de suas próprias leis homofóbicas.
Como afirma a psicopatologia, toda rejeição-psicopatológica consciente é o medo da revelação-pulsional do inconsciente. O homofóbico rejeita o homossexual por medo de sua própria revelação-homossexual inconsciente. Um retorno doloroso à imago-castradora-paterna. O Aguilhão-Lei lhe incrustado pela sociedade patriarcal-falocêntrica-judaica-burguesa através da família. O agente reprodutor da semiótica-dominante do Estado-Paranoico.
*Texto extraído do livro Sob a Ordem da Zona Escura (2019), do filósofo, teórico da psiquiatria materialista, teatrólogo, autor das obras Um Jogo Filosofante, Tagarelando em Nietzsche, entre outros, Marcos José.