O MUNDO FLERTA COM A PESTE DE CAMUS E A CEGUEIRA DE SARAMAGO, POR HENRIQUE RODRIGUES
“O fundamento de nossas vidas foi forjado no movimento dos corpos, na liberdade, metáforas da própria existência. Não à toa tememos duas coisas: a prisão e a morte”
Por Henrique Rodrigues*
Muito foi falado nos últimos dias sobre obras literárias que têm como temática o caos das epidemias devastadoras. Sem dúvidas, as mais lembradas e referidas são ‘A Peste’, do franco-argelino Albert Camus, e ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, do português José Saramago, dois vultos do pensamento no século XX e vencedores do Nobel de Literatura.
Similares em certos aspectos, embora muito divergentes em tantos outros, as duas obras guardam semelhanças naquilo que diz respeito à construção do cenário caótico, assim como na maneira inebriante como sufocam o leitor gradativamente. No entanto, é nas diferenças, sobretudo nas perspectivas dos autores, que as duas leituras podem ser feitas: a da esperança e a da desolação absoluta.
Na ficção de Camus, um surto de peste toma a linda cidade branca de Orã, que existe de verdade, banhada pelo Mar Mediterrâneo, na costa da Argélia. Sua população é empurrada para a solidariedade e para tocar a consciência sobre nosso papel como seres humanos, ainda que isso respingue num certo egoísmo ‘natural’, comparado por vezes ao tal senso de preservação. Mesmo em nossa realidade atual, frente a essa repentina pandemia, quem ainda não se perguntou “como ficarão as coisas?”, ou então “como posso me precaver para evitar privações que assolarão outras pessoas?”.
A questão do desabastecimento nos supermercados e o reforço de nossa despensa (que para alguns tornou-se estoque) retrata isso muito bem. Um leve desespero, que nos faz agir estranhamente, como se fosse existir apenas o hoje.
A incerteza fere de morte a naturalidade com que nos acostumamos a pensar no futuro. É absolutamente inédito, e aflitivo para nossa geração, pensar apenas no presente.
A separação física e o isolamento forçado, como na quarentena da cidade argelina, que para muitos ainda soam irreais ou apenas como devaneio, é o que traz sofrimento psíquico e esgarça nossa concepção de realidade. Nunca o fizemos. O fundamento de nossas vidas foi forjado no movimento dos corpos, na liberdade, metáforas da própria existência. Não à toa tememos duas coisas: a prisão e a morte.
Justamente elas, que são os elementos centrais e inevitáveis na peste e na cegueira, e também fiadoras da nossa autonomia.
Camus fala da inexistência de destinos individuais e nos insta a aceitar que, num cenário desolador e de desespero, o que surge é a construção de uma história coletiva.
Pode soar como sádica, ou até mesmo vingativa, a afirmação contida em ‘A Peste’, mas ela é um indiscutível cristal de verdade:
“A única maneira de juntar as pessoas ainda é mandar-lhes a peste.”
Nasce aí a esperança. É algo que emociona, mas também nos deixa em pânico.
Já o mundo da cegueira generalizada, concebido por Saramago, é um mundo sem referências. As pessoas não têm nome, os lugares não são distinguidos. Alí, somos apenas o que somos.
Cegos, não estabelecemos limites morais. Aliás, essa falta de freios foi o que conduziu a humanidade ao seu estágio mais primitivo.
Como castigo e fardo, aprendemos da pior forma a reenxergar, desta vez pelo tato. É tateando que, talvez, possamos recobrar a capacidade de ver o outro como semelhante, sem que deixemos o materialismo, ao qual tomamos como totem sagrado, cegar-nos outra vez.
A conhecida passagem de ‘Ensaio Sobre a Cegueira’, caracterizada pela exótica e peculiar sintaxe saramaguiana e pelo puxado português europeu do autor, serve-nos de mea-culpa quando a consciência nos bater à porta:
“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão (…) Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem (…)”.
Saramago estabelece o caos por etapas. Pouco a pouco nos falta tudo.
Só sobra, mesmo, dor e arrependimento.
É a desolação absoluta.
*Henrique Rodrigues é jornalista e professor de Literatura Brasileira