BRECHT NÃO ANIVERSARIA, É ANIVERSARIANTE
Portrait of German playwright Bertolt Brecht (1898 - 1956) as he sits on a desk, twentieth century. (Photo by Fred Stein Archive/Archive Photos/Getty Images)
PRODUÇÃO AFINSOPHIA. ORG
“Eu, Bertolt Brechet, nasci nos negros bosques.
No colo de minha mãe me fui para a cidade
Ainda pequenino. Mas o frio dos bosques
Enquanto eu viver hei de sentir.”
Eu, Bertolt Brechet, nascido em 10 de fevereiro de 1898 em Augsburg, estou pelo mundo para perturbar o mundo burguês com sua moral da barriga: sentimento-gastronômico-capitalista. “Primeiro a barriga depois a moral”.
Cai o muro de Berlim, mas a luta continua em mim. Onde houver a fome, o desespero, a hipocrisia, a traição, a injusta justiça, a psicopatologia do lucro, a falsa democracia, o voto-delirante, lá estarei com meu Teatro Dialético que reflete a luta do proletariado. O teatro que encena o movimento real dissipando o fetichismo, a mistificação, a mitificação, a reificação e a alienação que se pretendem realidade inquestionável. Mas não passa de delirante abstração. Os trabalhadores que o digam.
Não proponho ilusões estéticas. Meu método é um laboratório, onde o espectador experimenta diretamente, através de minhas peças e poemas, o mundo burguês com sua perversa estrutura psicopatológica. Para isso criei o Método do Distanciamento, onde o espectador mantém sua faculdade racional para poder analisar o que está presenciando. Embora não crie muita empatia, todavia, leva o espectador a experimentar os sentimentos traduzidos na peça encenada. É o teatro que o espectador se torna cientista-social para conhecer o mundo em que si e encontrar e buscar transformações humanamente necessárias na sociedade da luta de classes. Onde o trabalhador seja o principal personagem da dramaturgia-humana.
Nasci em uma mundo burguês, como meu amigo, o filósofo Sartre, e aprendi a ser servido, mas reneguei a existência parasitária. Aprendi cedo como essa gente gosta de ser servida e enganar o povo. Escrevi muitas peças de teatro, poemas, crônicas, roteiros cinematográficos, romances, artigos e o escambau! Não deixo pedra sobre pedra dessa imoral burguesa que não fede, porque é asséptica. Com todo respeito ao jovem-rebelde, Cazuza.
Estou muito contente, porque fiquei sabendo que o pessoal do Teatro Maquínico da AFIN, em Manaus, como também a moçada da Universidade do Amazonas (UEA), vem montando algumas peças minhas. Maravilha! Sei que o mesmo ocorre em outras cidades do Brasil. Apesar dos “terremotos”. Arte é a potência capaz de acabar com o “Analfabeto Político”, o que o companheiro Paulo Freire sabia muito bem. Um povo educado não precisa de herói. Ainda mais, herói fantasiado pelas força s reacionárias e covardes. Herói não libera potências reais, como diz o companheiro filósofo Baudrillard.
Envio meus abraços a insigne, talentosa e inteligente companheira, Petra Costa por sua magnífica obra cinematográfica, Democracia Em Vertigem, que arrepiou de inveja, ódio, vingança, castigo, os nazifascistas. Os lúcidos sabem que o Oscar é somente o Oscar. Todos sabem para o que ele serve. Basta perceber que no plano comercial não há cinema, mas tão somente filme. E a arte é o cinema, o filme é a película. Saber que ate Pasolini detinha.
Não esquecendo uma abração no Sapo Barbudo e em todos os democratas, posto que a democracia é o berço da sensibilidade, inteligência e ética. Atributos que os nazifascistas nem em sonho têm. E vocês sabem, de nazifascismo eu sou pós-doutorado nesse tema. Os enfrentei em todos os flancos, ainda mais depois que mataram meus amigos Paul Nizan e Walter Benjamim.
Desejo que nesta quadra momesca, aproveitem a força revolucionária da alegria de Dionísio. O deus do teatro e da vida, como diz o conterrâneo Nietzsche. Não esqueçam de entortar algumas doses da saborosa troaca mastigando um fabuloso jaraqui frito. U,lá,lá! Que vontade, são Marx!
No mais, “Nos futuros terremotos eu espero
Não venha a apagar-se o meu charuto por causa da amargura.
Eu, Bertolt Brecht, atirado às cidades
Desde a floresta negra, no colo de minha mãe, em tenra idade”.