DOIS GOLPES NO FAMILIARISMO MÉDICO-INSTITUCIONAL AMAZONENSE

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GREVE DO SIMEAM

Ontem, em assembléia realizada na faculdade de medicina da UFAM, os mais de 1200 médicos filiados ao SIMEAM (Sindicato dos Médicos do Amazonas) decidiram entrar em greve por tempo indeterminado. Em alguns postos de saúde, já não houve atendimento na manhã de hoje.

Os grevistas reinvidicam aumento do piso salarial e a incorporação de gratificações e do abono Salário-Base, além de melhorias nas condições de trabalho e a implantação do PCCS (Plano de Cargos, Carreiras e Salários) da categoria. O piso salarial nacional é de R$ 7,5 mil. Os pisos definidos por Governo do Estado e pela Prefeitura de Manaus são de, respectivamente, R$ 380 e R$ 300. Com os abonos e gratificações, chega a R$ 3 mil, aproximadamente. A grande preocupação dos médicos é que, com a aposentadoria, as gratificações e abonos desaparecem, e o que sobra é apenas o salário definido pelos patrões.

O que não acontece com as aposentadorias de médicos que passaram por cargos como reitor e secretário de saúde, por exemplo. Estes, embora sejam uma minoria quase sempre ligada a uma ou duas famílias, podem ficar tranqüilos. Em entrevista recente a uma emissora de tevê, o atual secretário de saúde do Estado, Wilson Alecrim, disse que a greve era um direito, mas lembrou aos colegas de profissão que o salário pago no Amazonas é o maior do Brasil. O que, pelas informações já divulgadas pelo SIMEAM (acima), não é real.

Caso aceitem as reivindicações dos grevistas, SUSAM e SEMSA aumentarão em mais de R$ 80 milhões a folha de pagamento. Um verdadeiro choque de gestão, considerando o modelo advindo do liberalismo do Estado Mínimo implantado na rede de saúde estadual.

NOVAS REGRAS PARA O CURSO DE MEDICINA

Outro assunto que deve tirar o sono de reitores e secretários de saúde principalmente da família Alecrim, que ocupam os dois cargos, na SUSAM e na Nilton Lins , é a movimentação do MEC, que prepara novas regras para os cursos de medicina.

No governo FHC, o Ministério da Educação se destacou pelo fortalecimento das universidades privadas, que tiveram uma verdadeira pandemia. Calcula-se, pelos números do próprio MEC, que as faculdades de medicina tenham pelo menos dobrado neste período. O atual ministro, Fernando Haddad, que já fez o mesmo processo de regulação no ano passado com as faculdades de Direito (que diminuiu as vagas para o curso oferecidas pela Uni Nilton Lins, do governador Eduardo Braga), convidou o médico e professor universitário, defensor da CPMF, ex-ministro do governo FHC, e uma das poucas vozes lúcidas da medicina brasileira, Adib Jatene, para coordenar a equipe que irá definir as novas regras de funcionamento das faculdades de medicina no Brasil. Perigo à vista para as universidades descompromissadas com a importância social da medicina, visto que Jatene já se declarou contrário à criação/manutenção de cursos sem critério ou garantias de implantação responsável e que garantam um ensino de qualidade. Como ficará o curso de medicina da Nilton Lins, implantado pela família Alecrim (a coordenadora do curso é a esposa do secretário, Graça Alecrim), que teve a aprovação do MEC de Paulo Renato Souza em tempo recorde, quando de sua implantação?

Jatene pretente reformular e normatizar as Residências Médicas, que hoje são definidas pelas instituições, sem um critério único, o que faz com que os processos de seleção para as vagas possam ser definidos ao gosto do freguês, como no caso recente do Hospital Tropical de Manaus.

Com a greve dos médicos e a possibilidade de novas regras que enfraqueçam o familiarismo que toma conta das universidades e instituições médicas em Manaus, é possível que os médicos-reitores, carreiristas, secretários e afins já pensem na aposentadoria compulsória. De preferência, pra eles, com todos os abonos e gratificações, é claro. Para a população, eles saindo, já é um ganho.

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