O BARCO AFUNDA NO RIO SEM MOVIMENTO

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O filósofo grego Heráclito afirmava que um homem não se banha duas vezes nas águas do mesmo rio. Depois da primeira entrada no rio, as águas da segunda entrada já serão outras. O problema que o filósofo nos coloca tem dois momentos.

  1. O movimento intensivo da vida, que não se repete; portanto, não é divisível, o Devir.

  2. O movimento extensivo percebido pelos sentidos e divisível.

Embora apareçam diferentes, os dois movimentos fazem parte da mesma especulação ontológica como questão sobre o Ser. Todavia, o devir Natureza-Naturante do rio , atributo da Natureza, foi ocultado pelo capitalismo, que fez prevalecer o movimento extensivo como forma de exploração do capital. Capturado o rio como elemento para o lucro, o capitalismo o dividiu em partes cada uma com um valor. Os preços das passagens, e os preços dos fretes são repartições de acordo com a divisão do espaço hidrográfico imposto pelo capital. Cada distância tem um preço. E em cada distância a ambição do lucro. Aí o leitmotiv da exploração hidrográfica do capital. É nesta ordem que os proprietários das embarcações que trafegam pelos rios do Amazonas fazem suas negociatas, calculando cada passageiro como um duplo número: a unidade passageiro e a unidade monetária. Nesta combinação matemática/financeira, eles descumprem as leis da navegação que cobram segurança neste tipo de transporte, e enchem as embarcações, não considerando qualquer moral que possa avaliar a vida dos passageiros como necessárias, pois o destino de cada viagem é o lucro.

Pois foi neste rio imobilizado pelo capital, neste rio alienado de seu devir, que o barco Dona Zilda afundou na madrugada de domingo em direção ao município de Itacoatiara, cidade próxima de Manaus, causando várias mortes, inclusive de crianças. Como fator técnico, humanamente/humana, posto como causa do fatal acidente, foi acusado um banco de areia que o barco bateu. O banco de areia no rio é Natureza. O barco que bateu no banco de areia, com peso além de suas possibilidades é da lei de navegação, é da ordem dos homens. Dos homens desnaturados.

Assim, é com indignado pesar que este bloguinho mais uma vez vem informar este tipo de banalização da vida produzida pela voracidade do capital que desliza nas superfícies dos rios do Amazonas, para naufragarem, enquanto decisões jurídicas não são tomadas.

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