Alguns ingênuos acreditam que a filosofia é uma experiência criativa que não implica os simples mortais, e muito menos ínfimos infames como os lambaios. Engano ledo. A filosofia é a potência criadora da alegria ontológica do mundo. A potência trágica da emergência infinita do novo. Nisso tem o lambaio como a força negativa do existir, aquele que escolheu ser puxa-saco, vil rastejante, porque fez a leitura da superioridade de um outro, seu patrão, pela ótica de sua deformidade moral. Quando este outro, o que se permite ser lambido, não é nada mais do que sua própria auto-imagem, também lambaio. Por isso, a simbiose: um não pode existir sem o outro. O lambaio crê na idéia que seu ser superior fez para si mesmo: ser superior a ele, lambaio. Sua lógica escotômica é: “Se ele é superior, eu, babando seu saco, também serei.” Um obstáculo ao movimento da vida, que a filosofia tenta enfraquecer para fluir a alegria.

Historicamente, podemos dizer que a lógica da babação vem das antigas. Não foi por “descuido ou fantasia”, como diz a canção popular, que o filósofo Epicuro disse: “O ímpio não é aquele que despreza os deuses da multidão, mas sim aquele que adere às idéias que a multidão faz dos deuses.” Sem pudor, o lambaio adere à idéia que a multidão faz dos deuses. No atual, os governantes, que também são lambaios, mas que para o vil lambaio são deuses, por isso ama servi-los. Para Epicuro, um ímpio: ama uma idéia, nunca uma realidade.

A historia desfila ramos imensos de famílias que rastejaram pela existência afora na sedução da babação. Famílias que se escolheram lambedoras de saco. Aqui em Manaus têm casos múltiplos de famílias capachos que vêm do tempo da borracha. Com direito ao orgulho rastejante descendente. Fator de excitação repugnante, que estimula algumas pessoas a exclamarem indignadas: “Meu Deus, como esse(a) cara não tem vergonha de ser um(a) descarado(a) puxa-saco!” Convite ao o filósofo Marx: “A vergonha já é uma revolução… A vergonha é uma espécie de cólera contra si mesmo.” O que se infere ser o baba-ovo impossibilidade da vergonha e revolucionário em si mesmo. Alienado, não pode encolerizar-se contra si, pois encontra-se preso na idéia que tem de seu patrão. A sua verdade. Nessa verdade, jamais poderá entender, com Marx, que a “verdade é universal, ela não me pertence, pertence-nos a todos, possui-me, eu não a possuo”. E porque o capacho toma sua atitude como universal, todos são lambaios. Todos são possuídos pelo amor da babação. Por isso ele é inimigo da democracia, do socialismo, do homem/histórico. Daí querer a aparência da notoriedade. Da importância. Tudo no frisson do rastejar.

Todavia, o lambaio não dorme o sono dos justos que os injustos acreditam dormir. Há a inquieta filosofia, como o homem histórico, sujeito da criação contínua que perturba essa degenerescência burguesa, fazendo sua voz a voz de Prometeu: “Podes estar seguro de que jamais trocarei o meu miserável destino pela tua escravidão. Prefiro estar amarrado a este rochedo do que ser o criado fiel…” É a filosofia sendo “fruto de sua época, de seu povo”, como afirma Marx. O homem corrompido, é certo, mas o homem de sua época. E a época em Manaus é a época dos governantes enlambaiados no despudor da ofensa à dignidade manauara.

Porém, a filosofia, aderindo ao otimismo do Fórum Social Mundial, com sua máxima “Outro Mundo é Possível”, acredita que outra Manaus é possível, mas sem lambaio.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.