COMO A MINERAÇÃO ILEGAL DE OURO NA ANAZÔNIA É CAUSA DIRETA DE SURTOS DE MALÁRIA ENTRE INDÍGENAS
afinsophia 20/04/2026 0
20/04/26 • 14:
Por Daniela de Angeli Dutra e Riley Casagrande
Os preços do ouro estão em níveis recordes e estamos muito preocupados. Como ecólogos de doenças, não é a instabilidade econômica que nos preocupa, mas sim o fato de que um aumento na mineração ilegal de ouro pode ter um impacto devastador na saúde humana.
Governo em prol do garimpo
Quando Jair Bolsonaro assumiu a presidência em 2019, fez da desregulamentação ambiental um pilar central do seu governo, alegando que as proteções ambientais e de terras indígenas prejudicavam o desenvolvimento econômico do Brasil. Ele também transferiu a autoridade de demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) para o Ministério da Agricultura.
Além disso, o então presidente emitiu decretos com o objetivo de desregulamentar a mineração do ouro na região amazônica. Esses decretos não faziam distinção entre a mineração regulamentada (portanto, legal), fora do território indígena, e a mineração dentro de terras indígenas, que é universalmente ilegal. Assim, garimpeiros ilegais invadiram o território Yanomami.
Em janeiro de 2023, quando Lula assumiu a presidência, o número de garimpeiros ilegais no território Yanomami, o maior território indígena da Amazônia, havia subido para 20 mil, aproximadamente dois terços da população Yanomami.
Malária e a crise de saúde dos Yanomami
Semanas após Lula assumir a presidência, o veículo de notícias independente Sumaúma divulgou uma reportagem citando números alarmantes de doenças e desnutrição entre os Yanomami. Repleta de imagens do sofrimento do povo indígena, a reportagem motivou o presidente a declarar estado de crise humanitária.
André Siqueira, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) e membro da equipe de médicos enviada ao território após a declaração da crise, relatou: “As condições da população eram devastadoras”. Quase todas as pessoas testadas apresentaram resultado positivo para malária.
Pequeno aumento na atividade mineração, grande aumento nos casos de malária
A publicação da Sumaúma e o relatório do Instituto Socioambiental relacionavam o influxo de garimpeiros ilegais durante o governo Bolsonaro à crise sanitária dos Yanomami e à proliferação da malária. Como pesquisadores que se dedicam a estudar como as modificações de uso do solo contribuem para a disseminação de parasitas, suspeitávamos que a mineração ilegal de ouro e a malária não eram fatores isolados que contribuíam para a mesma crise, mas sim parte de um sistema de causa e efeito que devastava o território e sua população.
A mineração ilegal de ouro pode disseminar a malária de diversas maneiras. Primeiro, quando os garimpeiros derrubam florestas e abrem clareiras nas margens dos rios para acessar os depósitos de ouro, criam o ambiente ideal para a proliferação do mosquito transmissor da malária na Amazônia.
Segundo, quando os garimpeiros viajam para o território, possivelmente vindos de áreas endêmicas de malária na América do Sul, podem transportar o parasita e aumentar sua transmissão.
Por fim, garimpeiros ilegais frequentemente utilizam mercúrio para extrair partículas de ouro de forma barata e fácil. Esse mercúrio é despejado nos cursos d’água da região, envenenando as pessoas que dependem dos rios para obter água e peixes, enfraquecendo seus sistemas imunológicos e tornando-as mais suscetíveis à infecção por malária.
Os dados detalhados sobre as condições de saúde e ambientais na Amazônia, coletados pelo Ministério da Saúde, permitiram não apenas estabelecer com segurança essa ligação entre garimpo e malária de que os povos indígenas suspeitavam há muito tempo, mas também quantificar essa relação, tornando-a concreta e passível de ação.
Ficamos chocados com os resultados: a relação era muito mais forte do que suspeitávamos. Descobrimos que cada aumento de 0,03% na mineração levava a um aumento de 20 a 46% nos casos de malária um a dois anos depois, resultando em um aumento de 300% nos casos de malária no território Yanomami entre 2016 e 2023.
Compreender a associação entre a mineração de ouro e a malária, que está na base da crise de saúde dos Yanomami, é apenas uma parte da solução. Queremos que nosso estudo seja uma ferramenta que permita que ativistas indígenas influenciem a intervenção e as políticas governamentais. Afinal, nossos resultados mostram que prevenir a mineração ilegal em áreas indígenas gera consequências importantes para a saúde dessa população vulnerabilizada.
Ações em muitas frentes pela saúde global
O governo Lula está empenhado em importantes esforços para expulsar os garimpeiros ilegais e estabelecer centros de saúde no território. Embora as hospitalizações por malária tenham diminuído ligeiramente desde 2023, a incidência de malária entre os Yanomami permanece alta, devido ao efeito retardado que identificamos em nossa pesquisa e à dificuldade de acesso a diagnósticos e tratamentos oportunos em regiões remotas.
Pesquisadores estão avançando para reduzir essa lacuna de acesso. Uma equipe internacional desenvolveu os “malakits”, que capacitam membros da comunidade sem formação médica formal a diagnosticar e tratar a malária no local. Esses esforços são de importância crucial, visto que os efeitos tardios da mineração ilegal de ouro continuarão causando incidência elevada de malária, a menos que as comunidades tenham amplo acesso ao tratamento.
Também é importante garantir os plenos direitos territoriais das populações indígenas e capacitá-las a defender suas terras. Essa é, comprovadamente, uma das maneiras mais eficazes de combater o desmatamento e proteger os ecossistemas.
Para enfrentar os surtos de malária, é também necessário diversificar a economia rural da Amazônia com foco na sustentabilidade, de modo que as pessoas tenham opções além da mineração e da exploração madeireira.
Consumidores informados também podem contribuir para a solução do problema, priorizando a compra de ouro reciclado ou abster-se de comprar ouro, enviando um sinal de que a extração de ouro não justifica o custo humano, a exemplo do que já foi feito com os diamantes nos anos 2000.
Os apelos para proteger a Amazônia são frequentemente feitos em termos ambientais. Como ecólogos de doenças, argumentamos que salvar a Amazônia também é uma medida indispensável de saúde global. Proteger a floresta, investir nos direitos territoriais indígenas, fomentar oportunidades econômicas saudáveis para as comunidades rurais e questionar o papel do ouro em nossa economia global são medidas essenciais para prevenir a disseminação contínua de uma das doenças infecciosas mais mortais do mundo.
Daniela de Angeli Dutra, Bangor University
Riley Casagrande, Stanford University