EM CÚPULA DE MADRID, BRASIL CONDENOU BLOQUEIO DOS EUA A CUBA: “ERA DA DIPLOMACIA DA FORÇA JÁ PASSOU”
afinsophia 05/11/2026 0
Com apoio do Brasil, México, Uruguai e Nicarágua, chanceler cubano exige fim de medidas coercitivas: ‘Limites desumanos’
- SÃO PAULO (SP)
- REDAÇÃO BRASIL DE FATO
Os chanceleres do Brasil, de Cuba, México, Uruguai e Nicarágua condenaram o bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba durante a 30ª Cúpula Ibero-Americana, encerrada nesta quinta-feira (5) em Madri, na Espanha. Os diplomatas se posicionaram contra as medidas endurecidas pelo governo de Donald Trump nos últimos meses, como um cerco energético que deixou a ilha sem combustível.
Representante do Brasil no encontro, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o país se opõe com firmeza ao embargo econômico, comercial e financeiro e às ações de Washington para cortar ilegalmente o fornecimento de energia a Cuba. “Os Estados Unidos têm adotado ações que atingem os mais vulneráveis, prejudicando o desenvolvimento sustentável de Cuba”, criticou.
“Desde a comunidade ibero-americana, não podemos aceitar os retrocessos. Não podemos nos conformar com ameaças ao importante acervo de conquistas básicas de nossos países”, declarou Vieira.
O chanceler defendeu uma ordem internacional baseada no multilateralismo, e não em hegemonias. “O Brasil vai continuar a apoiar a visão de que a ordem mundial do século 21 está assentada nas virtudes do equilíbrio de poder e do multilateralismo, e não em ações obsoletas de hegemonia e esferas de influência”, sustentou. “A era das arrogâncias unilaterais, dos protetorados e da diplomacia da força já passou”, acrescentou.
Vieira também retomou o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro. “Somos chamados a optar entre o multilateralismo ou o unilateralismo, a democracia ou o extremismo, a soberania ou a subordinação”, lembrou o chanceler, citando o petista. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, completou, recorrendo a outra frase de Lula.
Para o ministro, a coesão entre os países da região é condição para enfrentar esse cenário. “Se estivermos mais coesos, teremos mais autonomia e peso”, ressaltou.
Cerco energético
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez, detalhou o impacto das medidas adotadas por Washington ao longo deste ano. “Durante os últimos dez meses, o povo cubano sofreu o reforço sem precedentes do bloqueio econômico estadunidense, a imposição de um cerco energético equivalente a um bloqueio naval e a aplicação de sanções secundárias a indivíduos ou entidades que estabeleçam relações comerciais com Cuba”, relatou.
“Os Estados Unidos levaram sua obsessiva guerra econômica contra Cuba a limites desumanos de castigo coletivo”, denunciou Rodríguez, que agradeceu aos países ibero-americanos que votaram a favor da resolução contra o bloqueio aprovada pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) na semana passada.
O chanceler avaliou que o mundo vive um momento marcado pelo unilateralismo e pela “pretensão imperialista e inviável de impor a paz por meio da força”, como definiu, e cobrou que a conferência preserve sua autonomia. “Isso só será possível se defendermos com determinação a atuação independente da Conferência Ibero-Americana, sem ingerências, exclusões nem pressões externas”, afirmou. “Diante da arbitrariedade e do uso abusivo do poder imperialista, devemos agir de acordo com os princípios fundacionais da comunidade”, defendeu.
Rodríguez resgatou ainda perguntas feitas por Fidel Castro na cúpula de Santiago do Chile, há 30 anos, que, segundo ele, seguem sem resposta. “Se fecharmos os olhos e não agirmos com a unidade, a lucidez e a energia que este momento crucial da nossa história exige, o que será de nossos Estados no século 21? O que restará da nossa independência?”, questionou, citando o líder da Revolução Cubana.
Posição histórica do México
Pelo México, o secretário de Relações Exteriores, Roberto Velasco, abriu o discurso com uma mensagem da presidenta do país. “Trago a esta cúpula a saudação fraterna da presidenta Claudia Sheinbaum, a primeira mulher que governa o México e a voz de um povo que decidiu mudar o rumo de sua história”, disse.
Velasco reafirmou os princípios da política externa mexicana. “Acreditamos no entendimento entre nações soberanas, no direito internacional, na democracia, na autodeterminação dos povos e na solução pacífica das controvérsias, princípios que nossa Constituição consagra e que hoje valem mais do que nunca”, declarou. “Por isso, reiteramos nossa posição histórica de rejeição ao embargo e a outras medidas econômicas coercitivas contra Cuba”, concluiu.
Também se manifestaram contra o bloqueio os chanceleres do Uruguai, Mario Lubetkin, e da Nicarágua, Valdrack Jaentschke.
Divisão na região
O tema foi o ponto mais difícil de negociar na Declaração de Madri, documento final da cúpula. O texto não cita o bloqueio expressamente, mas inclui um trecho que rejeita a coerção entre Estados. Argentina, Colômbia, Costa Rica e Paraguai se desmarcaram desse parágrafo. Na edição anterior do encontro, realizada em Cuenca, no Equador, em 2024, a declaração final saiu sem consenso.
Os mesmos quatro países estiveram entre os que votaram contra a resolução da ONU pelo fim do bloqueio, ao lado do Equador e dos Estados Unidos. Chile, Honduras e Peru se abstiveram. A resolução foi aprovada com 130 votos a favor, incluindo o do Brasil, 17 contrários e 25 abstenções, o menor apoio a Cuba em 30 anos. A queda é atribuída à pressão do governo Trump sobre países aliados.