ZUENIR VENTURA, 95 ANOS, JORNALISTA, ESCRITOR, AUTOR DO LIVRO, 1968 – O ANO QUE NÃO EXISTIU

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Trajetória marcante na imprensa brasileira e autor de obras históricas como “1968” e “Cidade partida” marcam o legado do escritor

Zuenir VenturaCRÉDITO: DIVULGAÇÃO

247 – O jornalista e escritor Zuenir Ventura, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos. A morte foi confirmada pela família, informa o jornal O Globo.

Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir Carlos Ventura era filho de José Ventura, pintor de parede, e Herina de Araújo, dona de casa. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Para apoiar o orçamento doméstico sem deixar de lado os estudos — exigência rigorosa de sua mãe —, ajudou o pai na pintura e trabalhou como office-boy.

Na adolescência, conseguiu uma bolsa de estudos em seu colégio em troca de dar aulas para turmas do então ensino primário (atual ensino fundamental), período em que passou a alimentar o sonho de se tornar professor. Aos 20 anos, transferiu-se para a capital fluminense e ingressou no curso de Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na faculdade, Zuenir teve aulas com grandes nomes da literatura e do pensamento nacional, entre eles Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. Foi convidado pelo professor Celso Cunha para lecionar português na Faculdade de Jornalismo da UFRJ e, por indicação do professor Hélcio Martins, conseguiu uma vaga como arquivista no jornal Tribuna da Imprensa.

A transição para a redação ocorreu por acaso no ano de 1960. Com a morte do escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus em um acidente, o então diretor do jornal, Carlos Lacerda, procurava um profissional na redação para escrever sobre o autor. Zuenir, que passava pelo local e tinha Camus como uma de suas paixões, voluntariou-se para a tarefa e estreou como repórter.

A partir desse episódio, Zuenir conciliava o trabalho nos veículos de imprensa com as salas de aula. Durante décadas, lecionou na Escola de Comunicação da UFRJ e na Escola Superior de Desenho Industrial, onde foi apelidado carinhosamente pelos estudantes de “Mestre Zu”, sendo reconhecido pelo afeto no trato e pela exigência no rigor acadêmico.

Paralelamente ao magistério, construiu uma sólida carreira no jornalismo brasileiro e ocupou postos de liderança. Após realizar uma temporada na França como bolsista no Centro de Formação de Jornalistas, em Paris, atuou como editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação da Fatos & Fotos, chefe de reportagem da O Cruzeiro e editor-chefe da sucursal do Rio da revista Visão. Em 1967, destacou-se como um dos criadores do jornal alternativo O Sol.

Mesmo na gestão de redações, manteve a preferência pelo trabalho de campo e pela apuração presencial de histórias reais. Zuenir defendeu que nada substitui o contato direto e o olhar atento nas ruas, definindo a atividade jornalística como um trabalho humilde de garimpagem e de preparação da matéria-prima para o aprofundamento futuro dos historiadores.

Sua observação do cenário político e social dos anos 1960 resultou na publicação de “1968 — O ano que não terminou”, lançado em 1988. A reportagem dissecou o panorama sociocultural e a transição para o período mais repressivo da ditadura militar iniciada em 1964, tornando-se sucesso de crítica e público e servindo de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”, exibida pela TV Globo em 1992.

A vivência intensa do período também o levou à prisão em dezembro de 1968, logo após a promulgação do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Zuenir permaneceu preso durante três meses e dividiu a cela com o psicanalista Hélio Pellegrino.

Na sequência de sua trajetória, esteve na revista Visão como chefe da sucursal carioca até 1977, migrou para a Veja e, em 1981, transferiu-se para a IstoÉ. Em 1985, ingressou no Jornal do Brasil. Em 1989, após um mês de apuração sobre o assassinato do líder ambientalista Chico Mendes, assinou uma série de reportagens que conquistou os prêmios Esso e Vladimir Herzog, dando origem posteriormente ao livro “Chico Mendes – Crime e castigo”.

Em 1999, estreou como colunista do jornal O Globo. Naquele período, lançou reportagens de grande impacto social como “Cidade partida” (1994), obra agraciada com o Prêmio Jabuti que abordava a divisão socioeconômica do Rio de Janeiro a partir de apurações na comunidade de Vigário Geral, palco de uma chacina com 21 mortos no ano anterior.

Mais tarde, em 2008, publicou “1968: O que fizemos de nós”, cruzando as transformações culturais das décadas anteriores com os comportamentos da juventude do século XXI. Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira antes pertencida ao dramaturgo Ariano Suassuna. Na posse, foi recebido por sua ex-professora Cleonice Berardinelli.

Em 2022, aos 91 anos, foi homenageado com o prêmio Faz Diferença pelo livro “Minhas histórias dos outros”, em que resgatou episódios e encontros com personalidades da cultura e política brasileira, como Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.

Zuenir Ventura deixa a esposa, Mary Ventura, e dois filhos, o jornalista Mauro e a editora Elisa.

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