LUIS NASSIF: O JORNALISMO-SELA E A DESMORALIZAÇÃO DO JORNALISMO

0
lulinha-nas-manchetes-768x428

É HORA de os leitores — e, sobretudo, a própria categoria — aprenderem a separar o verdadeiro trabalho de reportagem dessa praga oportunista.

Um dos vícios mais deletérios do jornalismo contemporâneo é o jornalismo-sela: aquele em que o jornalista se deixa cavalgar pela fonte. Foi esse recurso, humilhante para a profissão, que marcou boa parte da cobertura da Lava Jato.

É hora de os leitores — e, sobretudo, a própria categoria — aprenderem a separar o verdadeiro trabalho de reportagem dessa praga oportunista.

A diferença é elementar.

O repórter reúne indícios, procura documentos, cruza informações, ouve versões conflitantes, constrói raciocínios e procura os elos capazes de conectar a cadeia dos fatos. A fonte é matéria-prima, jamais dona da pauta.

A independência jornalística não consiste em não ter opinião. Consiste em não entregar a terceiros — procuradores, policiais, ministros, políticos, empresários, advogados ou assessores — o direito de decidir o que é verdade e o que merece ser notícia.

Fazer jornalismo significa receber as informações com o mesmo ceticismo que todo repórter deve dedicar ao material fornecido por uma fonte interessada; ouvir o contraditório; conferir documentos; checar fatos, versões e fundamentos; e, só então, publicar.

O jornalista-sela faz o contrário. Recebe a versão pronta, monta nela e sai a galope. Pratica um subjornalismo a serviço de interesses alheios: sem filtro, sem ceticismo e, frequentemente, sem pudor.

Lembro-me de um evento promovido por Audálio Dantas, em Tiradentes, para discutir a cobertura da operação Lava Jato. O primeiro dia ficou a cargo da Abraji — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo —, que se transformou em repassador de releases, e teve Miriam Leitão como a guru do grupo no evento. Fui convidado a falar no segundo dia.

Expus minhas ressalvas à cobertura, especialmente à transformação de tantos jornalistas em meros repassadores de releases e vazamentos da Lava Jato. Uma das fundadoras da Abraji — já aposentada, mas consagrada como repórter investigativa — perguntou-me:

— O que você faria se estivesse no comando da cobertura?

Respondi:

— O óbvio: faria jornalismo.

Mas o jornalismo estava irremediavelmente cego. Deixou de fiscalizar a operação para funcionar, em grande medida, como seu braço de divulgação. E acabou servindo não apenas a métodos posteriormente questionados e invalidados pela Justiça, mas ao próprio processo de desconstrução da democracia brasileira.

O jornalismo-sela, portanto, não foi apenas um vírus oportunista, alimentado por vazamentos seletivos, versões interessadas e interpretações duvidosas. Tornou-se peça ativa no processo de desestabilização política do país.

Um exemplo recente foi a exploração inicial dos vazamentos do caso Master e, particularmente, a cobertura envolvendo Fábio Luiz. Jornalisticamente ridícula e politicamente perigosa, ela produziu semanas de cobertura abjeta: informações irrelevantes eram repetidas incessantemente até adquirirem, pelo simples efeito da repetição, uma importância que os fatos não lhes conferiam.

É uma velha técnica de fabricação de relevância: quando não se tem um fato grande, repete-se um fato pequeno até que ele pareça grande.

O problema é agravado pela extrema mediocridade das atuais direções de jornalismo dos grandes jornais, sempre prontas a embarcar na onda do concorrente. Bastava uma informação irrelevante virar manchete em O Globo para que Folha e Estadão corressem atrás, não para verificar se havia notícia, mas para não parecer que estavam perdendo uma.

Forma-se assim uma espécie de cartel da irrelevância: um veículo legitima o outro, a repetição substitui a apuração e o volume da cobertura passa a ser apresentado como prova da importância do fato.

É justamente aí que o jornalismo deixa de ser contrapoder e se transforma em instrumento de poder.

Fonte não é verdade. No máximo, fornece pistas. Vazamento não é investigação, é o início do processo. E jornalista não nasceu para ser sela. E ser sela não é fazer jornalismo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.