EUA-TRUMP, EXIGIRAM SUBMISSÃO DE MERCADO E TERRAS RARAS PARA POUPAR BRASIL

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Documentos obtidos por Jamil Chade revelam pressão da gestão Trump por capitulação econômica antes de impor tarifaço de 25%

Foto de Gage Skidmore – Wikimedia Commons

Os Estados Unidos exigiram que o governo brasileiro barrasse investimentos da China no setor de minerais críticos e abrisse integralmente o mercado nacional para produtos americanos. As exigências constam na proposta enviada pela equipe de Donald Trump ao Brasil no início de 2026, obtida com exclusividade pelo jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias.

O documento detalha o que analistas consideram uma pressão comercial: ou o país cedia a soberania de setores estratégicos, ou enfrentaria retaliações. A investida culminou no anúncio, na quarta-feira (15), de uma sobretaxa de 25% sobre as exportações brasileiras aos EUA.

Em carta de três páginas enviada em 9 de janeiro, o representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer, rejeitou contrapropostas brasileiras e cobrou “melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA“.

O texto cobrava do Brasil a eliminação de tarifas sobre etanol, jatos comerciais, automóveis e produtos químicos americanos, além da aceitação automática de certificados sanitários e de segurança automotiva dos EUA, sem exigências adicionais.

Mineração e controle digital

A ofensiva focou especialmente no avanço chinês na América Latina. Washington exigiu a adoção de medidas para limitar investimentos de “atores não-orientados pelo mercado“, termo diplomático para se referir a Pequim, em mineração e refino de terras raras. A proposta demandava, inclusive, a revisão da venda da operação de níquel da mineradora Anglo American, visando garantir prioridade a empresas americanas.

Na área digital, a gestão Trump pressionou por consultas prévias a empresas americanas antes de qualquer regulamentação de mídias sociais ou e-commerce no Brasil, além do apoio à moratória permanente de tarifas sobre transmissões eletrônicas na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Reação e crise diplomática

O Palácio do Planalto reagiu de forma incisiva à aplicação da barreira alfandegária e anunciou que acionará a Lei de Reciprocidade Econômica para retaliar o mercado americano, além de recorrer ao mecanismo de solução de controvérsias da OMC. Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação da Presidência, o governo classificou o tarifaço de 25% como um “marco lastimável” e “ilegal“.

O governo brasileiro argumenta que os EUA acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit comercial com o Brasil nos últimos 15 anos e que, em 2025, 76% das importações vindas dos EUA entraram no país isentas de impostos.

A justificativa de Washington para a punição baseia-se na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, alegando que o Pix, as decisões do Judiciário contra plataformas digitais, a fiscalização ambiental e o mercado de etanol prejudicam as companhias norte-americanas. O Planalto rebateu as acusações: “O Pix é um patrimônio do nosso povo […]. Não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas“.

Disputa política interna

O embate comercial aprofundou a polarização política no Brasil. No comunicado oficial, o governo federal atribuiu a escalada da crise à atuação da família Bolsonaro, classificando-os como “falsos patriotas“.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, chegou a enviar ofício ao USTR pedindo o adiamento da tarifa por 180 dias, para que passasse a valer apenas após as eleições brasileiras, medida criticada pelo presidente Lula (PT) como “entreguismo“.

O deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por sua vez, defendeu publicamente as sanções econômicas dos EUA, condicionando o fim das barreiras à aprovação de uma anistia para os condenados pelos atos de 8 de janeiro. Eduardo foi recentemente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a quatro anos e dois meses de reclusão por coação no curso do processo, justamente por incitar autoridades americanas a punirem o Brasil.

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