Antigamente, um dos poucos momentos que as crianças tinham com uma tela era a televisão para assistir desenhos. Hoje, com celulares e tablets, o cenário é totalmente outro |Crédito: Rido/Shutterstock
O estudo “O Teto e a Tela”, realizado com mães e cuidadoras da zona sul da capital paulista e Diadema, na Grande São Paulo, mostra que o uso excessivo da internet na infância é uma consequência da sobrecarga feminina, da ausência de políticas de cuidado e da falta de infraestrutura urbana e cultural nos territórios. A pesquisa foi realizada pelo Observatório das Mulheres Periféricas, o Nós, Mulheres da Periferia, e o Instituto Salve Quebrada.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Amanda Stabile, diretora executiva do Observatório das Mulheres Periféricas, explica que o estudo foi realizado com 15 mães e cuidadoras com o objetivo de entender como a conectividade impacta a rotina de cuidado nas famílias. “Oferece um retrato das dinâmicas que acontecem nesses territórios e que muitas vezes são invisibilizadas no debate público. Uma das principais constatações da nossa pesquisa é que a hiperconexão nesses territórios não pode ser vista apenas como uma escolha individual ou uma questão de disciplina da família, mas está profundamente ligada à sobrecarga dessas mulheres, à ausência de redes de apoio, de políticas públicas, à falta de espaços de cuidado, de lazer, de convivência”, afirma.
Stabile conta que muitas das entrevistadas definem as telas como “uma babá que não têm”. A pesquisa revela ainda que a cobrança por um controle digital gera ainda mais sobrecarga. “Elas não só cozinham, trabalham, limpam, cuidam dos filhos; elas também precisam mediar o uso das telas, controlar conteúdo, negociar tempo de uso, acompanhar tarefas escolares, entender os riscos online. Ou seja, o digital não eliminou o trabalho de cuidado. Em muitos casos, ele criou mais uma camada de trabalho invisível”, aponta.
Amanda Stabile ressalta que o uso excessivo de telas decorre da vulnerabilidade. “Não é uma escolha individual, é uma consequência das desigualdades estruturais dessas famílias. Ao mesmo tempo que a gente não pode demonizar as telas, também há questões de riscos e culpas. Elas relatam muita culpa por não conseguir dar atenção [aos filhos]. Mas essa culpa não pode ser individualizada. A gente não pode perguntar apenas por que razão essa mãe está dando o celular para o filho, mas por que essa mulher está tendo que cuidar sozinha dessa criança”, questiona.
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.