APÓS DEVASSA CONTRA CLÁUDIO CASTRO, GOVERNO DO RIO CASSA REGISTRO DA REFIT
Investigação aponta que gestão Castro teria atuado para proteger grupo de Ricardo Magro
ARefit, antiga Refinaria de Manguinhos, teve a inscrição estadual cassada pelo governo do Rio de Janeiro. A medida administrativa ocorre após a Polícia Federal deflagrar a Operação Sem Refino, que investiga o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o empresário Ricardo Magro. A Secretaria de Fazenda (Sefaz-RJ) desativou de ofício o cadastro da empresa, classificando a situação como “impedida” e inviabilizando a operação da refinaria como contribuinte do ICMS no estado.
A decisão encerra uma sequência de embates institucionais em torno do conglomerado. A ofensiva federal teve início em setembro de 2025, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) interditou cautelarmente instalações da Refit no desdobramento das operações Cadeia de Carbono e Carbono Oculto. A agência reguladora, com apoio da Receita Federal, apontou suspeita de importação irregular de gasolina declarada como “nafta” ou “condensado”, uso de tanques não autorizados e ausência de evidências de processo efetivo de refino.
Interdição e suspeita de blindagem política
Com a interdição da ANP, a Refit foi obrigada a paralisar as atividades ligadas aos equipamentos e produtos sob investigação. A partir desse estrangulamento operacional, a Polícia Federal passou a rastrear indícios de que a máquina pública fluminense foi mobilizada para proteger a empresa.
A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na Operação Sem Refino detalha a suspeita de que a gestão Cláudio Castro atuou para minimizar o impacto das sanções federais. O principal indício é uma legislação proposta pelo Executivo estadual e apelidada por investigadores de “Lei Ricardo Magro”. A norma instituiu um programa de parcelamento de créditos tributários cujas condições teriam sido formatadas para atender aos interesses da refinaria em meio ao cerco da Receita e da ANP.
Cassação inviabiliza operações fiscais
Com o cadastro estadual desativado, a antiga Refinaria de Manguinhos — que hoje opera em recuperação judicial — perde a capacidade legal de emitir notas fiscais e de realizar transações comerciais regulares sujeitas à fiscalização tributária no Rio de Janeiro.
A cassação altera o cenário institucional do caso. A mesma empresa que, segundo a PF, contou com a proteção da máquina estadual durante o avanço das investigações federais, perde agora o registro de operação sob a atual gestão da Fazenda fluminense, logo após a devassa que atingiu o núcleo político do Palácio Guanabara.
Sonegação bilionária e ramificações financeiras
Ricardo Magro, controlador da Refit, é investigado por suspeita de sonegação, lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e evasão de divisas. A Receita Federal classifica o grupo como o maior devedor contumaz do país, com passivo superior a R$ 26 bilhões, além de identificar a movimentação de mais de R$ 70 bilhões em um único ano operada por meio de empresas, fundos de investimento e offshores.
O fluxo financeiro investigado abrange desde a importação de combustíveis até estruturas complexas de blindagem patrimonial, com ramificações políticas e no aparelho de segurança. A PF localizou R$ 500 mil em espécie na residência de um policial investigado e rastreou repasses milionários da Refit a empresas ligadas à família do senador Ciro Nogueira. Antes do avanço da PF sobre Cláudio Castro, lideranças partidárias cumpriam agendas em eventos internacionais financiados pela refinaria.
Conexões financeiras e offshores em Delaware
O modus operandi baseado na triangulação de recursos via fundos de investimento e offshores aproxima as apurações da Refit de outros inquéritos sobre financiamento político e lavagem de capitais. O uso de jurisdições com sigilo fiscal, especificamente o estado norte-americano de Delaware, é o ponto de convergência nas investigações da PF.
A mesma arquitetura de blindagem internacional é alvo de escrutínio nas apurações envolvendo o Banco Master e o financiamento do projeto audiovisual Dark Horse, associado a aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Investigações paralelas apontam que donos do fundo utilizado no caso Dark Horse abriram uma offshore em Delaware, repetindo o padrão de ocultação de beneficiários finais e evasão de divisas atribuído às engrenagens da Refit. Em ambos os casos, as autoridades rastreiam a simbiose entre o mercado financeiro, empresas de fachada e o trânsito de capitais fora do controle público brasileiro.
Posicionamentos
A Refit nega irregularidades. A companhia atribui o passivo tributário a gestões anteriores à atual administração e afirma ter recolhido cerca de R$ 1 bilhão aos cofres fluminenses no último exercício. A empresa também repudia acusações de fraude em declarações fiscais e de ligação com o crime organizado.
A defesa de Cláudio Castro declarou que o ex-governador está à disposição da Justiça e que as propostas legislativas e decisões de sua gestão seguiram estritos critérios técnicos e legais. Os advogados ressaltam ainda que a Procuradoria-Geral do Estado moveu ações de execução fiscal contra a refinaria.