MILLY LACOMBE AO ANALISAR A PERDA DE IDENTIDADE DA SELEÇÃO BRASILEIRA: “NEYMAR É SÓ UM SINTOMA”
afinsophia 30/05/2026 0
Jornalista discute o divórcio entre o torcedor e a camisa amarela e o impacto do modelo neoliberal nos clubes

Segundo a cronista, o esvaziamento da paixão nacional pela camisa amarela é resultado de um processo histórico de erros e de uma colonização tática ao estilo europeu que antecede o próprio fiasco do 7 a 1 na Copa de 2014. Ao afastar o time de sua essência e da periferia, a CBF acabou por converter a Seleção em um espelho das forças mais conservadoras do país.
“A Seleção tem muitos problemas para além do Neymar, né? E são problemas que estão vindo, é uma construção de problemas que começa muito antes do 7 a 1. […] A CBF tirou a Seleção, já não tem mais conexão com o povo. Aquela Seleção que tá em campo não é uma Seleção que nos represente. Aquela Seleção representa um Brasil institucional, que é um Brasil careta, é o Brasil covarde, é o Brasil conservador, é o Brasil da extrema-direita. Não à toa a camisa foi sequestrada pelos movimentos fascistas.”
Diante do visível desgaste da identidade nacional em campo, o papel desempenhado pelo camisa 10 assume uma dimensão simbólica, e, por isso, personificar a crise do futebol brasileiro na figura do jogador oculta a dinâmica de um sistema muito maior.
“Então eu acho que o Neymar é um problema, eu considero um problema, mas nesse bolo todo é um problema até pequeno, na verdade. O Neymar é um sintoma de tudo isso que a gente tá falando.”
O futebol como negócio
A financeirização do esporte e o avanço do modelo neoliberal sobre os clubes, impulsionado pela proliferação das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e pelo mercado bilionário das casas de apostas, também foram alvos de duras críticas pela jornalista. Para ela, o esporte não está isento dessa lógica capitalista”, onde a obsessão corporativa por desempenho técnico e lucratividade desidratou a capacidade do esporte de operar como uma “usina de afetos”, transformando o torcedor em mero consumidor de um produto de entretenimento.
“O futebol tá sendo transformado num negócio. E os clubes estão sendo transformados em empresas. Então torcedor, torcedora, não é mais torcedor ou torcedora: é cliente. Então, se você não pode pagar uma mensalidade para ser sócio — chamam de sócio, mas de sócio não tem nada, sócio-torcedor —, você não é interessante.”
Ao olhar para o futuro das arquibancadas e dos gramados, Milly defendeu que a resistência do futebol brasileiro reside justamente em recuperar a sua subjetividade e a sua imprevisibilidade poética, elementos que as diretorias executivas tentam sufocar diariamente.
“As pessoas que administram o futebol estão tentando matar ele, né? As entidades, os executivos… ao olhar para isso só como um negócio, a não entender que isso é parte da nossa subjetividade, que no Brasil isso é identidade nacional. A gente não está ali só para ganhar, a gente está ali para fazer entender afetos maiores, a gente está ali para se conectar uns aos outros. […] O futebol é mais sobre perder do que sobre ganhar. A gente perdeu de vista tudo isso. Então a gente está fazendo clientes que vão ao estádio e vaiam.”
Para aprofundar essa reflexão, Milly Lacombe e o jornalista Jamil Chade lançam o livro A terra é redonda – um bate-bola sobre política, paixões e futebol.
Assista à entrevista completa pelo link abaixo:
