MAIORIA DOS FUZIS USADOS PELO COMANDO VERMELHO VEM DOS EUA,

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30/05/26 • 

Por Henrique Fernandes Alvarez Vilas Porto

Em fevereiro de 2025, respondendo ao governo Trump, que havia acabado de designar cartéis mexicanos como grupos terroristas e acusado o governo mexicano de cooperar com eles, a presidente mexicana afirmou: “Se existe alguma aliança desse tipo em algum lugar, ela está nas lojas de armas dos EUA que vendem armamento de alta potência para esses grupos criminosos”. Uma investigação da CBS Reports de 2023, revelou que dezenas de redes de cartéis de armas, operando como células terroristas, pagam a americanos para comprarem armas em lojas e sites de venda online por todo o país (CBSNews, 2025).

Agora, o governo Trump designa o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), facções criminosas brasileiras que oprimem, sobretudo, os brasileiros mais pobres, como organizações terroristas. Mas essa ação esconde uma contradição importante. A maior parte das armas utilizadas por facções criminosas cariocas, como o CV, são fabricadas nos EUA. Se Trump quer tanto acabar com esses grupos, ao ponto de designá-los como terroristas, não seria mais fácil combater a evasão de armas para eles?

A Origem das Armas Ilegais no Brasil

O Brasil possui hoje aproximadamente 20 milhões de armas ilegais em circulação, segundo estimativas apresentadas à Comissão Parlamentar de Inquérito do Tráfico de Armas (CPI das Armas). Compreender de onde vêm essas armas é condição necessária para qualquer política pública séria de segurança. Os dados acumulados por uma década de rastreamento da Polícia Federal (PF), complementados por pesquisas recentes do Instituto Sou da Paz e da Polícia Militar do Rio de Janeiro, apontam de forma consistente para uma mesma direção: os Estados Unidos são a principal origem indireta do armamento pesado que chega às mãos das facções criminosas brasileiras.

A distinção entre origem direta e indireta é central para entender a rota. Relatório da Divisão de Repressão a Crimes contra o Patrimônio e ao Tráfico de Armas da PF, com base no rastreamento de 9.879 armas apreendidas, constatou que o Paraguai responde pelo fornecimento da maioria dos revólveres e armas de menor calibre, enquanto os Estados Unidos são a origem da maior parte do armamento pesado, especialmente pistolas e fuzis de alto desempenho (Exame, 2018). O próprio relatório qualificou os EUA como o maior fornecedor indireto de pistolas e fuzis ilegais do país, resultado direto do livre comércio de armas em lojas e feiras norte-americanas. Noventa e nove por cento das unidades rastreadas entraram no Brasil por fronteira terrestre, com a Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina como principal via de acesso, seguida pelos pontos de passagem em Ponta Porã (MS) e Guaíra (PR) (Correio, 2018).

Pesquisa mais recente da Polícia Militar do Rio de Janeiro, divulgada em maio de 2025, aprofundou esse diagnóstico com dados operacionais atualizados. O levantamento revelou que 95% dos fuzis apreendidos pela corporação em 2024, num total de 638 unidades, foram fabricados fora do Brasil. Desse universo, 295 fuzis tinham origem identificada nos Estados Unidos, 46% do total de armas estrangeiras apreendidas. Uma leitura preliminar da inteligência da PM referente aos primeiros meses de 2025 indicou que 60% dos fuzis apreendidos no período foram fabricados em território norte-americano (CNN Brasil, 2025). Dados da PF e de pesquisas independentes estimam que, do total de armas estrangeiras que chegam ao Brasil, 80% têm origem nos EUA e os outros 20% provêm de países como Alemanha, Bélgica, Áustria e Israel (ANCAC, 2025).

A cadeia de tráfico evoluiu significativamente ao longo da última década. O modelo mais antigo consistia no contrabando de armas completas adquiridas legalmente em lojas americanas e revendidas por intermediários no Paraguai. O modelo contemporâneo, mais lucrativo e mais difícil de rastrear, opera através da importação de peças avulsas, as chamadas ghost guns. Um kit de componentes para montagem de um fuzil no padrão AR comprado nos Estados Unidos por aproximadamente mil dólares é montado por armeiros a serviço das facções e vendido no mercado ilegal brasileiro por até dez mil dólares, margem de lucro de 900% (The Conversation, 2026). Em 2023, a PF apreendeu, em uma área nobre do Rio de Janeiro, 47 rifles fantasmas calibre 5.56x45mm contendo peças da fabricante americana Magpul misturadas a componentes brasileiros, exibindo marcações falsas da Colt (Instituto Sou da Paz/O Globo, 2025). O padrão se repete nas fronteiras: em Mato Grosso do Sul, uma abordagem de rotina revelou fuzis com peças americanas e brasileiras escondidos nas portas de um automóvel, acompanhados de pistolas Glock com marcações paraguaias.

Pesquisa publicada em setembro de 2025 pelo Instituto Sou da Paz em parceria com a London School of Economics, a mais abrangente já realizada sobre o tema, analisou aproximadamente sete mil armas apreendidas na região Sudeste e encontrou que três em cada quatro fuzis apreendidos eram dos calibres 5.56x45mm e 7.62x51mm, os mesmos que se tornaram os mais populares entre Caçadores, Atiradores e Colecionistas (CACs) durante o governo Jair Bolsonaro, que entre 2019 e 2022 permitiu a aquisição de até 30 fuzis por CPF nessa categoria. O estudo demonstra a conexão direta entre a flexibilização do mercado legal de armas no Brasil e o aumento da oferta no mercado ilegal: entre o final de 2018 e 2022, o número de armas registradas para civis passou de 1,3 milhão para 2,9 milhões, e o desvio para o tráfico cresceu na mesma proporção (Instituto Sou da Paz, 2025). O número de fuzis de estilo militar apreendidos no Sudeste cresceu 11,4% entre 2019 e 2023, passando de 1.494 para 1.665 unidades.

Dois residentes do Condado de Broward, na Flórida, foram indiciados por autoridades norte-americanas por exportar ilegalmente peças de AR-15 para a Argentina e o Brasil sem licença do Departamento de Estado dos EUA, demonstrando que o problema também tem uma face criminal do lado americano da fronteira (CBS Miami). A dimensão da rede foi exposta pela PF quando mapeou o caminho de 43 mil armas vendidas ao PCC e ao Comando Vermelho por um traficante argentino que adquiria armamentos na Europa via Croácia, os passava pelo Paraguai para rapar as marcações e os distribuía às facções brasileiras (CNN Brasil, 2023).

O reconhecimento bilateral do problema levou à formalização, em abril de 2026, de um acordo de cooperação entre a Receita Federal brasileira e o U.S. Customs and Border Protection, com o lançamento do Programa DESARMA, que permite o rastreamento em tempo real de armas, munições e componentes de origem americana apreendidos no Brasil e vice-versa (Gov.br, 2026). A iniciativa é bem-vinda, mas evidencia, por si só, uma contradição estrutural: o mesmo país cuja legislação permissiva abastece os arsenais do crime organizado brasileiro torna-se peça indispensável na tentativa de solução. Enquanto a Segunda Emenda à Constituição americana e o lobby da indústria de armas impedirem reformas substantivas no controle doméstico de venda e exportação de armas e componentes nos Estados Unidos, o Brasil continuará tratando sintomas sem acesso às causas. Além de não ajudar, a designação dessas facções como terroristas apenas expõe a hipocrisia de alarmar a sociedade sobre um perigo que o próprio governo americano sustenta. Em breve, veremos os reais interesses desse gesto.

Henrique Fernandes Alvarez Vilas Porto – Doutor em Políticas Públicas, Estratégia e Desenvolvimento (UFRJ / Mestre em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança (UFF)

REFERÊNCIAS

ANCAC. O caminho das armas irregulares do Brasil, e a culpa não é do CAC. Associação Nacional dos CACs, 27 out. 2025. Disponível em: <https://www.ancac.org.br/o-caminho-das-armas-irregulares-do-brasil-e-a-culpa-nao-e-do-cac/>. Acesso em: maio 2026.

CBS MIAMI. Former Broward residents accused of illegally exporting AR-15 parts to South America. CBS News Miami. Disponível em: <https://www.cbsnews.com/miami/news/broward-residents-arrested-accused-illegally-exporting-ar-15-parts>. Acesso em: maio 2026.

CBS NEWS. Mexico’s president warns U.S. against invading to fight cartels after Washington designates them as terrorist groups. 20 fev. 2025. Disponível em: < https://www.cbsnews.com/news/mexico-president-warns-us-invasion-cartels-terrorist-group-designation/ >.

CNN BRASIL. (2023) Da Europa ao Paraguai: a rota das 43 mil armas vendidas a facções do Rio e de SP. CNN Brasil, 6 dez. 2023. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/da-europa-ao-paraguai-a-rota-das-43-mil-armas-vendidas-a-faccoes-do-rio-e-de-sp/>. Acesso em: maio 2026.

CNN BRASIL. (2025) Estudo aponta que 95% dos fuzis apreendidos pela PM no Rio vêm do exterior. CNN Brasil, 22 maio 2025. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/rj/estudo-aponta-que-95-dos-fuzis-apreendidos-pela-pm-no-rio-vem-do-exterior/>. Acesso em: maio 2026.

CORREIO 24 HORAS. Armas do crime vêm de Paraguai e EUA e rota é pela Tríplice Fronteira, diz PF. Correio, 9 jan. 2018. Disponível em: <https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/armas-do-crime-vem-de-paraguai-e-eua-e-rota-e-pela-triplice-fronteira-diz-pf/>. Acesso em: maio 2026.

EXAME. PF: EUA são principal fonte de armas para o crime no Brasil. Exame, 10 jan. 2018. Disponível em: <https://exame.com/brasil/pf-eua-sao-principal-fonte-de-armas-para-o-crime-no-brasil/>. Acesso em: maio 2026.

GOV.BR. Brasil e EUA anunciam acordo de combate ao tráfico de armas e drogas. Agência Brasil/Secom, 10 abr. 2026. Disponível em: <https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/04/governo-do-brasil-formaliza-cooperacao-com-os-estados-unidos-para-combate-ao-trafico-internacional-de-armas-e-drogas>. Acesso em: maio 2026.

INSTITUTO SOU DA PAZ. (2025a) Cresce a apreensão de armas de estilo militar no Sudeste, revela pesquisa do Instituto Sou da Paz. São Paulo: ISP, 24 set. 2025. Disponível em: <https://soudapaz.org/noticias/cresce-a-apreensao-de-armas-de-estilo-militar-no-sudeste-revela-pesquisa-do-instituto-sou-da-paz/>. Acesso em: maio 2026.

INSTITUTO SOU DA PAZ. (2025b) Falhas no controle despejam armas de guerra no Sudeste, berço das maiores facções do país. O Globo/ISP, 10 out. 2025. Disponível em: <https://soudapaz.org/o-globo-falhas-no-controle-despejam-armas-de-guerra-no-sudeste-berco-das-maiores-faccoes-do-pais/>. Acesso em: maio 2026.

THE CONVERSATION. Descoberta de indústria clandestina de fuzis coroa quatro décadas de escalada bélica do crime no Brasil. The Conversation Brasil, 12 mar. 2026. Disponível em: <https://theconversation.com/descoberta-de-industria-clandestina-de-fuzis-coroa-quatro-decadas-de-escalada-belica-do-crime-no-brasil-265657>. Acesso em: maio 2026.

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