Operação Narco Fluxo mirou chamados ‘escudos de conformidade’, onde famosos naturalizam movimento de capital ilícito no Sistema Financeiro.

Ele transita não apenas no ecossistema dos influenciadores digitais como tem vários pontos de contato com personagens diretamente envolvidos nesse jogo — entre eles o pastor Itamar Vieira, ligado à rede da Igreja Lagoinha em Angola, e o fisiculturista Renato Cariani, réu por fornecer insumos para a produção de cocaína do PCC.
1. O Eixo Marçal–MC Ryan SP e a Operação Narco Fluxo
A conexão financeira: R66 Air Ltda
Dados de inteligência financeira revelaram que a R66 Air Ltda — empresa de Pablo Marçal e da Marçal Participações, com capital social de R$ 3,8 milhões, constituída em 5 de dezembro de 2023 e sediada em Alphaville, Barueri — efetuou uma transferência de R$ 4,4 milhões para o artista MC Ryan SP. Esse valor foi o maior recebido pelo funkeiro no período analisado pelo Coaf, entre maio de 2024 e outubro de 2025.
Quatro elementos merecem atenção na análise da empresa:
O nome. R66 é o modelo do helicóptero Robinson R66 Turbine — exatamente a aeronave que a PF aponta como objeto possível da transação. A empresa foi batizada com o nome do equipamento que, segundo os investigadores, pode ter sido o objeto real da negociação.
A data de constituição. Dezembro de 2023 — menos de um ano antes da transferência para MC Ryan SP e poucos meses antes do início da campanha eleitoral de 2024.
O CNAE. Holdings de instituições não financeiras (K-6462-0/00) é uma classificação ampla, típica de empresas de participação societária — não de compra de aeronaves ou imóveis. É uma estrutura que não revela operacionalmente o que a empresa faz, o que é comum em holdings patrimoniais mas também característica de empresas usadas para movimentação financeira opaca.
A estrutura em camadas. A sócia da R66 Air é a Marçal Participações — ou seja, Marçal não aparece diretamente como pessoa física, mas via outra empresa sua. É o padrão de distância formal recorrente em toda a sua rede.
A defesa de Marçal afirma tratar-se de compra de imóvel no Condomínio Aruã, em Mogi das Cruzes, totalizando R$ 7,3 milhões com permuta de veículo e outro imóvel. A PF contesta: o valor de R$ 4,4 milhões é compatível com o preço de mercado do helicóptero Robinson R66 Turbine, e o padrão da movimentação — em que a conta pessoal de Ryan atuou como “elo de trânsito para sua própria pessoa jurídica” — corresponde à tipologia de “uso de contas de passagem”, cuja função é dificultar a identificação do beneficiário econômico final.
A estrutura de lavagem da Narco Fluxo
MC Ryan SP é apontado como peça-chave no núcleo de lavagem para o PCC, operando sob tutela financeira de Frank Magrini, operador da facção com histórico de tráfico e roubo a bancos, que teria financiado o início da carreira do funkeiro em 2014. A investigação, originada na análise de um backup do iCloud do contador Rodrigo Morgado — preso na Narco Bet anterior —, identificou três eixos de ocultação: pulverização de capital via venda de ingressos e ativos digitais sem lastro; dissimulação por criptoativos (USDT) e transferências fracionadas; e interposição de terceiros pelo “aluguel de CPFs” e empresas de fachada. O “operador de mídia” da organização era Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, responsável por promover os artistas e as plataformas de apostas que serviam de duto para a lavagem.
O Coaf rastreou R$ 1,6 bilhão em movimentações imediatas, mas a PF estima que a rede possa ter movimentado R$ 262 bilhões — evidenciando um sistema financeiro paralelo de proporções sistêmicas.
2. A Arquitetura das Fintechs e o Labirinto Societário
A criação de fintechs e bancos digitais é o pilar de infraestrutura de Marçal para converter influência em autonomia financeira. O objetivo declarado de “transformar o processo eleitoral em um modelo de negócio” — formulação do próprio relator que manteve sua inelegibilidade no TRE-SP em dezembro de 2025 — encontra nas zonas cinzentas do sistema bancário o ambiente ideal para operar sem o escrutínio do Banco Central.
Marçal é mais um que surfou na desregulação que abriu o sistema a organizações criminosas. Como apurou o Sindicato dos Bancários, fintechs expandiram sem as mesmas obrigações de KYC e AML dos bancos tradicionais. A brecha central, identificada pela Receita Federal nas Operações Quasar, Tank e Carbono Oculto (agosto de 2025), é a “conta-bolsão”: uma conta aberta em nome da própria fintech num banco comercial, por onde transitam de forma não segregada os recursos de todos os clientes, tornando quase impossível rastrear qualquer centavo. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, foi direto na coletiva da Carbono Oculto: “Todos nós sabemos que no cerne de todas as operações aparecem as fintechs.” Para o promotor Lincoln Gakiya, do MP-SP, “melhor do que você ter laranjas para lavar o seu dinheiro é você ter o seu próprio banco. Infelizmente, é isso que a gente está assistindo.”
Red flags regulatórios: General Bank e BRM1
O General Bank, anunciado por Marçal como “seu banco autorizado pelo BC”, opera na realidade sem licença do Banco Central — a análise técnica revela uso de “conta-bolsão” via sistema Asaas, exatamente o mecanismo que a Receita Federal identificou como instrumento central de lavagem do PCC. A cadeia intermediária tem três camadas: a plataforma Asaas (com licença do BC) como infraestrutura de fundo; a BRM1 de Rogério Tavares Pierro como intermediária que monta fintechs para terceiros em regime de whitelabel — ou seja, fornece toda a estrutura técnica e regulatória para que qualquer um lance “seu banco” com marca própria sem precisar obter licença; e a B4A de Bruno Pierro (filho de Rogério) como desenvolvedor do produto que Marçal apresenta ao público.
O nexo com a Operação Concierge
A BRM1 tem uma lista de clientes que vai além do General Bank. Um deles é o YouBanking, que compartilha CNPJ com a Zuri — antiga Blindei, fintech projetada especificamente para evitar bloqueios judiciais, com participação na sua concepção do delegado da PF José Navas Júnior. O modo de operação do Zuri/Blindei é, segundo investigadores ouvidos pelo Intercept, idêntico ao das fintechs da Operação Concierge, que investigou fraudes de R$ 7,5 bilhões e lavagem para o PCC via T10 Bank.
O T10 Bank operava por meio do banco Bonsucesso. Paulo Henrique Pentagna Guimarães, fundador do Bonsucesso/BS2, doou R$ 100 mil à campanha de Marçal via Pix. O histórico da família Pentagna Guimarães inclui: o Bonsucesso listado pela Receita Federal entre os bancos que emprestaram dinheiro ao Schahin, que movimentou propinas em contratos da Petrobras; e o BS2 identificado pela PF na Operação Concierge como banco que deixou de reportar ao Coaf movimentações suspeitas do T10 Bank.
A recorrência de parcerias com entidades sob investigação não é acidental. Aponta para uma omissão deliberada nos protocolos de KYC e AML (protocolos para prevenir lavagem de dinheiro) — a chamada “cegueira deliberada”, termo usado pela própria PF para descrever a conduta de bancos que fecham os olhos para o que não querem ver.
3. Alianças de Risco e a “Negligência Reiterada”
Marçal formaliza relações com indivíduos que já figuram como réus em processos criminais graves, utilizando a prestação de serviços técnicos como camada de distanciamento jurídico. O padrão é consistente: em todos os casos, quando questionado, ele afirma desconhecer a situação judicial do parceiro.
Renato Cariani (fisiculturismo / indústria química)
A PF indiciou Cariani por tráfico equiparado, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Sua empresa Anidrol desviou aproximadamente 12 toneladas de insumos — acetona, éter etílico, ácido clorídrico, lidocaína, fenacetina — para a produção de cocaína e crack pelo PCC, entre 2014 e 2021. O elo com a facção era Fábio Spínola Mota, preso na Operação Downfall por tráfico internacional. Em junho de 2024, quando Cariani já era réu e a investigação da PF estava em curso, Marçal lançou com ele o curso “Super Humano” em Alphaville, a R$ 297 o ingresso, e vinha compartilhando publicamente nas redes o programa de emagrecimento elaborado pelo fisiculturista.
Florindo Miranda Ciorlin (aviação)
A Operação Grão Branco (abril de 2021) desmontou a organização do megatraficante Ary Flávio Swenson Hernandes, suspeito de traficar mais de cinco toneladas de drogas. Florindo e seu irmão Ewerton foram presos: o empresário ministrava aulas de pilotagem para pilotos da organização criminosa, adquiria e regularizava aeronaves usadas no tráfico usando documentos falsos e laranjas. Em 28 de outubro de 2021 — seis meses após a prisão de Florindo, quando ele já era réu na 1ª Vara Federal de Cáceres —, Marçal assinou digitalmente uma procuração conferindo poderes a Florindo para representá-lo junto a órgãos do governo federal, conjuntamente com a empresa Aviation Participações. No Roda Viva, Marçal disse que Florindo atuou apenas como “despachante” numa compra de aeronave: “É igual você ir ao Detran.”
A utilização de procurações (caso Ciorlin) e parcerias de conteúdo (caso Cariani) permite a Marçal capturar expertise logística e técnica necessária para sua expansão, enquanto mantém disponível a justificativa de “desconhecimento” — uma estratégia de gestão de risco que prioriza a expansão de ativos sobre a integridade da rede.
4. Angola como Hub Estratégico e a Engenharia Social de Camizungo
Angola consolidou-se como peça-chave na logística do narcotráfico entre a América Latina e a Europa por sua vulnerabilidade institucional: ausência de acordos de extradição com o Brasil, corrupção em patentes militares e policiais, e portos de baixa fiscalização — Luanda e Lobito. O UNODC confirmou em seu relatório global de cocaína (2023) que o PCC controla diversas etapas da distribuição em países lusófonos africanos, usando a mesma logística do contrabando de produtos lícitos. A rota consolidada sai do Aeroporto de Guarulhos, passa pelo Aeroporto Quatro de Fevereiro em Luanda e segue para África do Sul, Namíbia e Moçambique — com destino final na Europa. Há informações de que André do Rap, número 2 do PCC e responsável pela logística internacional da facção, teria se refugiado em Luanda, país que não mantém acordo de extradição com o Brasil.
A engenharia social de Camizungo
O projeto na comunidade de Camizungo, a 50 km de Luanda, é o exemplo máximo da instrumentalização da filantropia como vitrine de credibilidade. O que Marçal vende como “desfavelização” autoral é a cooptação de um projeto missionário preexistente: em 2010, o casal paraibano Itamar e Fernanda Vieira chegou à região como missionário da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, fundada pela pastora Valnice Milhomens. Em 2018, criaram o Instituto Atos para captar doações humanitárias. Em 2019, Itamar — hoje pastor da Igreja Diante do Trono em Angola, denominação da família criadora da Lagoinha — convidou Marçal a entrar como captador de recursos, após Marçal conhecer o projeto por meio de uma seguidora.
A discrepância é expressiva: dos R$ 4,5 milhões arrecadados por Marçal em dois leilões transmitidos ao vivo, apenas R$ 1,7 milhão chegou efetivamente à Angola segundo a contabilidade do próprio Itamar — restando mais de 300 famílias em barracos de lata que atingem 50°C durante o dia, de 350 prometidas. O Intercept Brasil rastreou as doações até dois CNPJs sediados em Prata, cidade de 4 mil habitantes no interior da Paraíba: a ONG Atos, cuja sede não existia até o jornal publicar a primeira reportagem (Itamar admitiu que o escritório foi “montado às pressas” após a publicação); e o Centro Vida Nordeste, registrado em nome de “Zé da Banca”, dono de uma banca de apostas ilegais local, cujo funcionamento em uma fazenda do ex-prefeito João Pedro Salvador de Lima — condenado por improbidade administrativa — levanta questões sérias sobre o destino final das doações.
A promessa não cumprida gerou um efeito colateral agravante: dezenas de novas famílias migraram para Camizungo atraídas pela expectativa de casas, sobrecarregando os escassos serviços e acirando conflitos territoriais. A filantropia opaca criou uma armadilha social onde a carência do Estado é substituída pelo interesse de marca do influenciador.
5. Conclusão
O que o conjunto das investigações revela é um ecossistema integrado em que cada camada protege e alimenta a seguinte: a influência digital serve como “escudo de conformidade” que naturaliza fluxos financeiros; as fintechs sem licença permitem a opacidade das transações pela conta-bolsão; a rede religiosa internacional fornece legitimidade moral e plataforma de captação; e o padrão de distância formal — sempre um intermediário entre Marçal e o nó mais problemático — garante a disponibilidade da justificativa de desconhecimento.
É a lógica da extração de valor via zona cinzenta, operada com sofisticação institucional suficiente para permanecer no limite da legalidade estrita — e que, pela primeira vez, começa a ser mapeada em conjunto pelas investigações em curso.