LÍBANO, ISRAEL, ORMUZ E URÂNIO TORNAM CADA VEZ MAIS FRÁGIL O CESSAR-FOGO ANUNCIADO POR TRUMP
afinsophia 09/04/2026 0
VAI DURAR?
Presidente do Irã disse que bombardeios no Líbano tornam as negociações ‘inúteis’
- SÃO PAULO (SP)
- REDAÇÃO BRASIL DE FATO
Os bombardeios israelenses no Líbano, as reservas de urânio enriquecido do Irã e se o país cobrará pedágios no Estreito de Ormuz são alguns dos pontos que colocam em risco crescente o cessar-fogo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nesta quinta-feira (9), o presidente do Irã disse que bombardeios no Líbano na quarta-feira (8), que mataram mais de 200 pessoas, demonstram o descumprimento dos compromissos por Israel, o que torna as negociações “inúteis”.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, declarou que “o Líbano e todo o Eixo da Resistência, como aliados do Irã, são parte inseparável do cessar-fogo” com os Estados Unidos mediado pelo Paquistão. Qualquer “violação do cessar-fogo” será recebida com “uma resposta firme”, advertiu ele.
Desde que o cessar-fogo provisório de duas semanas foi acordado na terça-feira (7), Teerã e Washington têm apresentado versões conflitantes sobre a inclusão ou não do Líbano no pacto. Já o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarou que seu país atacará o movimento islamista libanês pró-iraniano Hezbollah “onde quer que seja necessário”.
Violência israelense
O Líbano observa um dia de luto nacional nesta quinta-feira após uma intensa onda de ataques israelenses que matou mais de 200 pessoas. Israel realizou seus ataques mais intensos contra o Líbano desde o início do conflito.
Pelo menos 203 pessoas foram mortas e mais de mil ficaram feridas nos ataques de quarta-feira em Beirute e em outros locais do país, de acordo com uma contagem atualizada do ministro da Saúde libanês, Rajan Nasreddine. Netanyahu ainda insistiu que seu país continuará atacando o Hezbollah, se necessário. Os bombardeios, que atingiram várias partes da capital, Beirute, sem aviso prévio, provocaram cenas de pânico.
“As pessoas começaram a correr para todos os lados”, relatou Ali Younes, que esperava sua esposa perto de Corniche al-Masraa, uma das áreas atingidas.
O secretário particular e sobrinho de Naim Qassem, líder do Hezbollah, foi morto em um dos bombardeios, anunciou o exército israelense nesta quinta-feira. Alegando razões de segurança, o governo libanês proibiu, em Beirute, as armas pertencentes a grupos não estatais e pediu ao “exército e às forças de segurança que estendam imediatamente o controle” sobre essas armas, anunciou o primeiro-ministro, Nawaf Salam.
Segundo as autoridades locais, mais de 1.700 pessoas morreram no Líbano desde que Israel iniciou ataques aéreos e uma invasão terrestre no mês passado.
Ormuz
Em represália à guerra lançada por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro, o Irã bloqueou quase totalmente o Estreito de Ormuz, por onde transitam parte do petróleo, gás e fertilizantes do mundo, o que abalou a economia global. Teerã aceitou reabrir temporariamente a passagem, uma vitória reivindicada por Trump, mas exige seu controle em seu plano.
Não se sabe como funcionaria, na prática, a soberania iraniana sobre o estreito. Irã e Omã, que também faz fronteira com a via marítima e atuou como mediador entre Washington e Teerã, anunciaram, nos últimos dias, que mantiveram conversas para concluir um protocolo destinado a supervisionar o tráfego no estreito.
Segundo uma fonte diplomática iraniana, o novo mecanismo prevê uma taxa de passagem — cobrada em criptomoedas — organizada em colaboração com Omã. O Sultanato de Omã não se pronunciou a respeito.
Por sua vez, o presidente estadunidense declarou que estuda um plano para impor pedágios em colaboração com Teerã, segundo a emissora americana ABC. Em declarações que chocaram muitos, Trump afirmou que uma joint venture entre os EUA e o Irã poderia ser formada para estabelecer pedágios no Estreito de Ormuz.
“É uma forma de garantir a segurança — e também de protegê-lo de muitas outras pessoas”, disse ele. A Casa Branca afirmou posteriormente que o presidente magnata considerou a ideia, mas acrescentou que sua prioridade imediata “é a reabertura do estreito sem quaisquer limitações, sejam elas na forma de pedágios ou de qualquer outra natureza”.
A Marinha da Guarda Revolucionária iraniana indicou que os navios que atravessarem o Estreito de Ormuz deverão seguir duas rotas alternativas, próximas às costas iranianas, alegando a possibilidade de haver “minas” na rota habitual, mais distante da costa. As embarcações deverão passar perto da ilha de Larak, que a revista marítima Lloyd’s List apelidou de “posto de pedágio de Teerã”.
União Europeia e países do Golfo já se posicionaram contra a cobrança de pedágio ou o controle permanente da via fluvial pelo Irã. À revista estadunidense Time, Daniel Fried, ex-embaixador dos EUA que chefiou o Departamento de Estado para Assuntos Europeus e Eurasiáticos durante o governo Bush e a política de sanções durante o governo Obama, disse que o Irã agora exige que os navios notifiquem suas forças armadas antes de navegarem pelo Estreito de Ormuz.
“Isso é algo que os iranianos não tinham antes do início da guerra”, disse. “Então, já estamos em desvantagem. Isso é um problema. Se seu principal objetivo é restaurar o status quo, você não vai conseguir.”
Enriquecimento de urânio
Trump justificou a guerra acusando Teerã de estar prestes a fabricar uma arma atômica, uma afirmação que não foi corroborada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e que o Irã nega.
O Irã defende seu direito a manter um programa nuclear para uso civil, especialmente para geração de energia, mas Donald Trump reiterou, na quarta-feira, que não haverá “nenhum enriquecimento”.
Ele também propôs uma solução para recuperar as reservas iranianas de mais de 400 kg de urânio altamente enriquecido, que foram alvo de bombardeios americanos em junho de 2025 e que se acredita terem ficado enterradas.
Os dois países trabalhariam juntos para “desenterrar e retirar” o que o presidente estadunidense chamou de “pó nuclear”. Trump afirmou à AFP que essa questão estava “perfeitamente resolvida”. Caso contrário, “não teria aceitado um acordo”, insistiu.
Os primeiros ataques dos EUA e israelenses no fim de fevereiro ocorreram quando Washington exigia de Teerã a entrega de suas reservas de urânio enriquecido.
O alívio das sanções
O Irã, submetido a duras sanções devido a seu suposto programa nuclear, exige que elas sejam suspensas. Donald Trump as restabeleceu durante seu primeiro mandato, em 2018, após retirar os Estados Unidos do histórico acordo nuclear de 2015 com o Irã. O texto previa uma redução das sanções em troca de limitações rigorosas ao enriquecimento de urânio e de um controle reforçado das instalações do país.
Essas medidas punitivas asfixiam há décadas a economia iraniana, uma crise que desencadeou protestos — estimulados abertamente pelo serviço secreto de Israel, o Mossad — que foram reprimidos com violência em janeiro. Trump prometeu, então, ajudar o que chamou de “manifestantes legítimos” e afirmou que a guerra provocaria a queda da República Islâmica, mas mudanças de governo não constam na agenda das próximas conversas.
Estados Unidos e Israel também exigiram limitações ao programa iraniano de mísseis balísticos, assim como o fim do apoio de Teerã a seus grupos armados aliados, como o Hezbollah no Líbano ou os huthis no Iêmen Nenhum desses tópicos é mencionado no plano iraniano de dez pontos.