“ELE OUVE MUITO AS PESSOAS”: FERNANDO MORAIS REVELA BASTIDORES DE NOVA BIOGRAFIA DE LULA

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Escritor passou quatro anos e quase 20 viagens internacionais ao lado do ex-presidente para reconstituir sua história; livro traz episódios inéditos sobre alianças frustradas, Zé Dirceu e arrependimentos

Crédito: Reprodução/ Youtube TV GGN
Fernando Morais levou quatro anos para concluir o segundo volume da biografia de Luiz Inácio Lula da Silva — mas, se for contar desde o início do projeto, já são mais de uma década colado ao personagem. Desde que Lula deixou a presidência e passou o cargo a Dilma Rousseff, em 2011, o escritor mineiro de Mariana passou a acompanhar o ex-presidente em viagens pelo mundo, descobrindo cedo qual era o melhor ambiente para uma entrevista.

“O melhor lugar para entrevistar ele é dentro de avião, porque não tem telefone, não tem secretário, não tem deputado, não tem senador, não tem interrupção nenhuma”, contou Morais em entrevista ao programa TV GGN 20H.

Foram quase 20 viagens por quatro continentes. Uma delas, até Nova Delhi, rendeu 23 horas de conversa na ida e outras 23 na volta.

O Lula que queria o centro — e o PT que resistia

Um dos fios condutores do novo volume é a tensão permanente entre o instinto político de Lula, sempre inclinado a construir alianças mais amplas, e a resistência interna do PT, que por muito tempo defendia chapas ideologicamente puras.

Morais lembra que, já em 1994, Lula chegou perto de fechar uma chapa com Tasso Jereissati. “O noivado já estava de aliança comprada”, brincou o biógrafo. Mas o plano naufragou com a chegada do Plano Real, que dividiu o partido: enquanto Lula se irritava com a eficácia da nova moeda, o então vice convidado, Aloizio Mercadante, hoje presidente do BNDES, reconhecia que o real estava funcionando. A chapa não sobreviveu às contradições.

Em 1994, Lula também tentou contratar o marqueteiro Duda Mendonça para sua campanha. O PT vetou, chamando-o de “malufiça”. Só conseguiu trazê-lo em 2002, o ano da vitória. “Só deu certo quando fizeram a Carta ao Povo Brasileiro”, resumiu Morais, referindo-se ao documento que sinalizou ao mercado financeiro que um governo Lula respeitaria os contratos e a estabilidade econômica.

Presidente do BC

Para ilustrar o tamanho da desconfiança que o PT enfrentava nos meios financeiros, Morais recuperou um episódio revelador. Em 2002, Antonio Palocci e Clara Ant foram ao encontro de Olavo Setúbal, então presidente do Banco Itaú e maior banqueiro do Brasil, com duas malas de documentos sobre o plano de governo.

Setúbal nem deixou que abrissem as pastas. “Isso é uma fantasia. O império não vai permitir que vocês ponham em prática nenhum plano de governo”, teria dito. E encerrou a reunião com uma condição objetiva: “Na hora que vocês souberem quem vai ser o presidente do Banco Central, vocês voltam para conversar comigo.”

Zé Dirceu

O papel de José Dirceu na trajetória de Lula é outro capítulo central do livro. Morais traçou uma trajetória improvável: o jovem que passou pela ALN, fez treinamento militar em Cuba, voltou ao Brasil com o rosto alterado por cirurgia plástica para escapar da ditadura, e acabou se tornando o interlocutor de Lula com os setores mais conservadores da sociedade.

Em 2002, após a Carta ao Povo Brasileiro, foi Dirceu quem Lula enviou aos Estados Unidos para conversar com o governo Bush e tranquilizar Wall Street. “Tem uma foto dele passando a mão no chifre daquele touro da porta da Bolsa de Valores dos Estados Unidos”, lembrou Morais.

O biógrafo também revelou que, no aniversário de Dirceu quando ele já era ministro, havia convidados do Partido Republicano americano sentados à mesa. “Eram ultraconservadores. O que eles estão fazendo aqui?”, questionou Morais ao anfitrião. “São meus convidados”, respondeu Dirceu simplesmente.

Mas a relação entre Lula e seu principal operador político tinha seus custos. Morais contou um episódio protagonizado por Vladimir Palmeira, que teve sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro sabotada por Dirceu para viabilizar uma aliança com o então governador Garotinho.

Anos depois, num almoço de solidariedade ao próprio Dirceu, Palmeira compareceu. Morais perguntou como ele conseguia ser tão generoso com quem o havia traído. A resposta foi direta: “O Zé Dirceu foi só o executor. Quem me decapitou foi o Lula.”

Gilberto Carvalho

Morais foi enfático ao identificar uma ausência no terceiro governo Lula: a de Gilberto Carvalho, descrito como o “grilo falante” do presidente, aquele que o advertia sobre os riscos do caminho que o governo estava tomando e servia de ponte com os movimentos sociais e com a Igreja.

A ligação entre os dois vem de longe. Em 1979, durante a primeira grande greve do ABC, Carvalho voltou da Europa com o paletó recheado de dinheiro, contribuição dos sindicatos franceses para os grevistas, o equivalente a mais de 20 mil dólares da época.

“Ele era o sujeito que advertia o Lula para os riscos que o governo estava correndo”, disse Morais. Por isso, ficou aliviado ao saber que Carvalho foi chamado de volta para a coordenação da próxima campanha. “É o melhor exemplo desse círculo que ajudou Lula nas três campanhas e que tinha se afastado um pouco.”

Arrependimentos

Perguntado sobre o que Lula lamenta em sua trajetória política, Morais foi preciso: a aproximação com Paulo Maluf, que incluiu levar Fernando Haddad para “beijar o anel” do político paulista. “Aquela foto foi um horror. Ele se arrepende muito daquilo, acha que foi um impulso que não devia ter tido.”

Mas o biógrafo fez questão de matizar a imagem de Lula como um político teimoso. Pelo contrário: o que mais o impressionou, ao longo de anos de convivência, foi a disposição do ex-presidente para ouvir. Morais descreveu sua forma de governar como um método deliberado, convocar lados opostos de um debate, deixá-los argumentar, e só então tirar suas conclusões.

Para ilustrar, lembrou do conflito recorrente entre Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, e Miguel Jorge, ministro da Indústria, sobre a construção de usinas na Amazônia. Lula ouvia um, ouvia o outro, estudava com pesquisadores da Embrapa e da Esalq, e então decidia.

E decidia com humor. Morais contou que, quando um dos filhos de Lula reclamava das usinas por destruírem ecossistemas amazônicos, o presidente ia escondido desligar o chuveiro elétrico enquanto o rapaz tomava banho. “É assim que você quer que a Amazônia fique? Se não construir a usina, não vai ter banho quente para ninguém.”

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