LUIS FELIPE MIGUEL: E O IRÃ, TAMBÉM TEM DIREITO DE DEFESA?

0
israel-ataca-consulado-ira-damasco-rtp

15 de abril de 2024 –

Reprodução vídeo RTP

E o Irã, também tem direito de defesa?

No sábado, o Irã atingiu Israel com drones e mísseis.

É uma resposta ao atentado do dia 1º de abril, quando Israel matou sete militares, inclusive um general, em ataque a um consulado iraniano na Síria.

A despeito da desproporcionalidade da resposta, o governo de Israel diz (e a mídia repete): estão exercendo o direito de defesa.

Não é preciso ter nenhuma simpatia pelo regime teocrático iraniano para reconhecer a gravidade da agressão israelense.

A pergunta que fica é: então o Irã tem igual direito de defesa?

Em resposta ao atentado terrorista contra suas instalações diplomáticas em Damasco, ele pode chacinar a população de Israel?

Nada de “direito de defesa”. Biden alardeou novamente sua “aliança inabalável com o sionismo e a Europa foi na mesma toada.

Na imprensa brasileira, destaque para a “indignação” da diplomacia israelense, pelo fato de que o nosso governo, embora expressando preocupação com a escalada do conflito, não condenou unilateralmente a ação iraniana.

O Irã, prudentemente, disse que o ataque de sábado – dirigido, cabe registrar, exclusivamente contra alvos militares – esgotava sua resposta à agressão israelense e que se absteria de novas iniciativas.

Com isso, não cai na armadilha de Netanyahu, que precisa desesperadamente de um jeito de transformar Israel em “vítima”, para tentar ganhar terreno na opinião pública mundial.

O motivo? O desgaste crescente gerado pelo apoio a um regime que despertava repulsa cada vez maior na opinião dos cidadãos.

Israel tenta se apoiar na memória do Holocausto judeu, mas esse estratagema está desgastado, seja porque o sofrimento vivido anteriormente não justifica infligir hoje sofrimento a outros, seja porque uma parcela significativa da comunidade judaica está se insurgindo contra esta usurpação.

Diante disto, o outro caminho em que Israel aposta é o fortalecimento de seus laços com a extrema-direita mundial, com a qual possui muitas afinidades e com a qual conta para fazer pouco caso dos horrores contra o povo palestino.

A solidariedade à Palestina e a paz no Oriente Médio são dois motivos a mais para combater e derrotar a extrema-direita.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.