DENISE ASSIS: PRONTO. O PAÍS TEM UM HERÓI
4 de março de 2024 –
Pronto. Temos, enfim, um herói. Uma versão asséptica, bem arrumada, que satisfaz a todos: ao Alto Comando, que conseguiu, arredondar o discurso, estancando as investigações para o alto, para baixo, e para os lados. O importante é jogar as fardas na lavanderia, “limpar” a instituição, resolver. Perfeito para os que anseiam por “virar a página”. Bom demais para os que choramingam pelos cantos de arrependimento, mas não confessam, porque aprenderam a morrer pela pátria, mas não a ter coragem de confessar os seus crimes. Estão aí os 60 anos do golpe de 1964 que não nos deixam mentir.
As “oito horas” de depoimento do general Marcos Freire Gomes tira da cena policial os maus militares, os que enodoaram as fileiras, ameaçaram a democracia e embarcaram na volúpia de poder do mau militar – que nem mais ele era.
E quem nos defende das versões edulcoradas, da indignação que faz o estômago dar cambalhotas, ante a perspectiva visível de construírem o distanciamento até 2026, quando o general Marco Freire Gomes, com o seu uniforme de gala, surgirá na ribalta com os galardões reluzentes para, tal como o general Lott, virar o candidato moralizador e viável?
Com o depoimento sob sigilo e a conivência dos que têm pressa em “arrumar a casa”, agora, sim, a versão cola, torna-se mais palatável e crível. O discurso elaborado na pipeta do alto comando cai bem, ganha verossimilhança.