“VIVEMOS UM MOMENTO HISTÓRICO DE AFIRMAÇÃO DO PODER CIVIL SOBRE O PODER MILITAR”, DIZ EUGÊNIO ARAGÃO
Exposição de supostas participações em intentonas golpistas faz com que sociedade repense o papel dos militares na defesa do País
Crédito: José Cruz/ Agência Brasil
Apesar do momento embaraçoso para os militares, o País vive um momento histórico, na visão de Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça em 2016, na gestão de Dilma Rousseff (PT). Segundo o jurista, trata-se de um momento de afirmação do poder civil sobre o poder militar. “Isso é praticamente único na história da nossa República, lembrando que os militares mandam ou são coadjuvantes de quem manda nesse país desde a Guerra do Paraguai. A nossa República foi proclamada por meio de um golpe militar. Temos uma conta muito alta a pagar por conta dessas intentonas militares.”
Convidado do programa TVGGN 20H da última sexta-feira (16), Aragão chama a atenção para o baixo nível intelectual daqueles que deveriam garantir a segurança do País. “A turminha que está aí é de um primitivismo, quase de demência da forma como se comportam nos seus cargos. Na hora que você aperta o parafuso, todos começam a chorar. Quanto tempo eles iriam aguentar em campo, para defender a pátria, se eles choram quando a PF [Polícia Federal] bate à porta”, observa.
Função
O jurista afirma ainda que um aspecto importante do atual cenário brasileiro é justamente a exposição do envolvimento de militares em tramas golpistas, pois além de servir para separar o joio do trigo, também mexe com a opinião pública, a fim de provocar debates sobre quais são os papéis e competências dos militares em um Estado democrático.
“Os militares precisam se conscientizar de que o país tem de ter forças armadas profissionais. Os riscos nesse mundo globalizado são enormes. O país só será levado a sério se tiver dentes. Um cachorro desdentados pode latir, mas não morde. O país tem de usá-los como uma forma de prevenção.”
Mas, para que as Forças Armadas adotem uma nova doutrina militar, a formação dos oficiais deve ter alterações. “Precisa de uma doutrina militar defensiva do Brasil, ter capacidade de se defender como grande ativo nacional. É esse o papel deles. O papel deles não é se meter em políticas”, continua o entrevistado.
Início da trama
Para Aragão, a eleição de Jair Bolsonaro como presidente da República “só aconteceu por uma forçação de barra das elites, que estavam sem candidato”, até porque o então deputado federal de carreira era desacreditado por todos.
Porém, a tentativa de golpe para tirar o PT do poder teria começado ainda em 2014, quando Michel Temer (MDB) se lançou candidato à vice-presidente na chapa de Dilma após uma convenção. “Não foi à toa que o Temer teve todo esse esforço para tirar todos os concorrentes do PTB”, emenda .
“No dia do golpe, quando saímos do Palácio do Planalto e horas depois chega Temer com aquela turma dele, aquilo parecia um monte de urubu entrando no Palácio do Planalto. Tudo homem velho, cabeça branca e ternos pretos. Aquela imagem foi tão assustadora”, conclui Eugênio Aragão.
