GILBERTO MARINGONI: INSTABILIDADE CATASTRÓFICA
Javier Milei, Jair Bolsonaro e Donald Trump. Foto: Reprodução
Aliás, se olharmos para três casos recentes do extremismo reacionário construído em cima do desespero popular – Trump, Bolsonaro e Milei -, podemos verificar que o projeto vai ficando cada vez mais nítido. É uma economia que combina fortíssima concentração de capital, internacionalização sem freios, desregulação total para os de baixo (e regulação estrita em cima) e um “pacto social” hobbesiano. Estado forte para o topo da pirâmide social, Estado fraco para a base. O salve-se quem puder é embalado como livre iniciativa total, daí o anarcocapitalismo ser uma denominação precisa.
DO NOSSO LADO TEMOS QUE TIPO DE PROPOSTA? Um projeto neoliberal envergonhado, com ações focadas aqui e ali, tentativas de se aplacar a sanha do grande capital fazendo enormes concessões a ele e tocar o dia a dia como se não houvesse amanhã (ou seja, sem estratégias definidas). O conjunto é sempre embalado por discursos despolitizantes – pois não há explicação plausível para essa opção em meio à radicalização política – e uma fé cega de que no fim tudo dará certo.
Não são formulações distintas, mas a mesma diretriz com ênfases próprias. André Singer e Fernando Rigistsky classificaram o lulismo em sua fase atual como a dinâmica de “fazer, no atacado, concessões à burguesia e, no varejo, buscar as brechas por meio das quais consiga beneficiar, em alguma medida, os segmentos populares”. Inexiste objetivo claro, a não ser o de manter um status quo um pouco mais soft.
O QUE TEMOS É A DISPUTA ENTRE UM NEOLIBERALISMO puro e duro e um neoliberalismo mais humano. Essa é a natureza da “polarização” em que vivemos. É uma polarização de nuances, de embates personalistas entre lideranças, mas não é uma polarização real entre políticas distintas (evidentemente prefiro viver numa sociedade do neoliberalismo soft do que em sua vertente neofascista). Nessa lógica, o capital – todas as suas frações – prefere o lado mais prático e objetivo, o da extrema-direita e do neofascismo. Ele pula desse barco apenas quando a opção começa a se tornar disfuncional para os negócios, como ocorreu com Bolsonaro.
Enquanto não tivermos um claro projeto de desenvolvimento, centrado no Estado nacional, com marcas antiimperialistas, seguiremos a disputar alternâncias de curto alcance com a extrema-direita, num quadro de instabilidade institucional permanente. Não se trata de um conjunto de ideias tiradas de alguma cartola, mas de uma construção política a ser feita com distintos setores sociais para a construção de uma frente transformadora. Enfrentará muito mais dificuldades de formulação e concretização do que o ultraliberalismo fascistizante, que rema a favor da maré da alta finança.
VALE AQUI UM EXEMPLO do quadro em que nos encontramos. É o das das votações plebiscitárias para a constituinte chilena. O que explica a população, num intervalo de pouco mais de um ano, rejeitar duas propostas excludentes de ordenamento institucional? Há especificidades locais, mas ali estavam dois construtos colocados para o escrutínio popular. O primeiro era um amálgama progressista confuso e segundo um nítido texto de extrema-direita, neoliberal, privatista e restritivo em termos democráticos.
É algo, me parece, mais complexo do que um empate catastrófico. O adjetivo da expressão pode permanecer, mas no lugar de empate eu usaria o conceito de instabilidade. Instabilidade catastrófica.