ARTISTAS, MOVIMENTOS POPULARES E INTELECTUAIS CONVOCAM MANIFESTAÇÃO POR CESSAR-FOGO EM GAZA
People search rubble for survivors and the bodies of victims in the aftermath of Israeli bombardment in Rafah in the southern Gaza Strip on November 6, 2023, amid continuing battles between Israel and the Palestinian militant group Hamas. (Photo by Mohammed ABED / AFP)
NÃO AO GENOCÍDIO
Ato na USP está marcado para quinta (9) e pede posição incisiva do Brasil contra a violência no território palestino
Nara Lacerda
Brasil de Fato | São Paulo (SP)
07 de Novembro de 2023
População procura por sobreviventes e corpos de vítimas nos escombros de um bombardeio israelense em Rafah, no sul da Faixa de Gaza – Mohammed Abed / AFP
Uma manifestação pelo cessar-fogo na Faixa de Gaza foi convocada para esta quinta-feira (9), pelo comitê USP pela Democracia. O ato reunirá movimentos populares, entidades, artistas e intelectuais que cobram, além do fim dos bombardeios israelenses, um posicionamento mais incisivo do governo brasileiro em relação ao tema.
“Estamos diante de um momento na História em que silenciar-se equivale a compactuar com um dos mais brutais genocídios que a humanidade já viu. A contagem dos mortos cresce num compasso que desafia a imaginação. A cada dez minutos, uma criança é enterrada sob os escombros”, afirma o manifesto divulgado pelo grupo e que norteia o ato.
Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP e integrante do grupo que organiza o evento, afirma que o confronto traz consequências globais, com instabilidade no mundo todo. Segundo ele, a guerra declarada por Israel provoca um questionamento sobre como a comunidade global lidará com a autonomia dos povos daqui por diante.
“Esse conflito também coloca uma questão central para o nosso futuro político, que é se nós vamos ou não aceitar a existência de povos apátridas em situação de completa perda de direitos elementares e sujeitos a um tipo de poder discricionário externo. Isso talvez explique – entre outras coisas – porque esse é um conflito tão decisivo para todos aqueles que entendem que só podem existir direitos humanos se eles forem radicalmente universalizados.”
O professor afirma que o posicionamento do Brasil é importante pela relevância regional do país e pelo fato de que diversas comunidades árabes e judaicas vivem em território nacional.
“O Brasil acolhe as duas comunidades em uma proporção numérica considerável. É uma das 10 maiores comunidades judaicas existentes no mundo e tem uma forte migração árabe, principalmente da Síria e do Líbano, além de outros países. Isso também nos toca de maneira muito forte. O Brasil pode dar um exemplo de o que uma sociedade marcada pela presença dessas duas comunidades está disposta a aceitar.”
Com mais de 4,5 mil assinaturas até o momento, o manifesto está aberto para apoio público (clique aqui para acessar). O texto aponta “falência do sistema internacional” nos esforços para encerrar o “genocídio” e tece críticas à postura de países da União Europeia e dos Estados Unidos.
“É urgente paralisar o massacre perpetrado por Israel, enfrentar a brutal ocupação militar dos territórios palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza, a anexação ilegal e limpeza étnica de Jerusalém Oriental, o sistema de segregação, humilhação e apartheid exercido sobre os palestinos de toda a Palestina histórica, incluindo o território do Estado de Israel onde representam 20% da população”, enfatiza o documento.
Entre os apelos ao governo brasileiro, está o pedido para que sejam revogados acordos militares e de segurança já firmados com Israel. Além disso, o grupo quer que o Brasil se manifeste favoravelmente à reativação do comitê da ONU contra o crime de apartheid, com objetivo de que a entidade averigue e encaminhe para julgamento as violações que ocorrem no território palestino.
O manifesto também pede posicionamento público explícito contra os ataques ao povo palestino. “Apelamos às autoridades para que o governo brasileiro sinalize de maneira enfática que não estamos dispostos a compactuar com o crime contra a humanidade em perpetuação na Faixa de Gaza; nem com a sua extensão, já em curso, para toda a Cisjordânia.”
Nas palavras do professor Safatle, o cenário impõe a necessidade de defesa rígida das leis internacionais.
“Até que ponto nós estamos dispostos a sustentar o direito Internacional e a lei Internacional? Porque há legislação internacional a respeito desse conflito. As Nações Unidas já apresentaram duas resoluções a respeito da necessidade de desocupação dos territórios que devem ser territórios para a formação do estado palestino. A pressão internacional deve ser pela realização da lei Internacional como a única garantia de que nós vamos ter alguma possibilidade de consenso na resolução de conflitos entre nações ou entre uma nação e um estado por vir, que é a situação na qual a Palestina se encontra.”
A manifestação está prevista para começar às 18h, no Auditório Milton Santos, que fica na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), no campus Butantã da USP, na cidade de São Paulo.
Edição: Thalita Pires