META ADMITIU RESTRIÇÕES A CONTAS DE LULA E RECOMENDAÇÕES IRREGULAR DE FLÁVIO BOLSONARO
Funcionários da empresa reconheceram falhas que prejudicaram o alcance da campanha do presidente e favoreceram a exposição do candidato do PL; plataforma nega interferência eleitoral
LulaCRÉDITO: AGÊNCIA SENADO | DIVULGAÇÃO
247 – Documentos internos da Meta revelam que a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrentou restrições no Instagram durante a disputa eleitoral de 2026, enquanto o perfil de Flávio Bolsonaro (PL) recebeu recomendações automáticas consideradas irregulares pelas próprias equipes da plataforma. As mensagens mostram que funcionários reconheceram os problemas, discutiram possíveis consequências jurídicas e cobraram providências dos engenheiros responsáveis pelos sistemas. As informações foram divulgadas pela Folha de São Paulo, que obteve conversas internas de funcionários da companhia.
Os registros apontam que Lula ficou impedido de impulsionar determinadas publicações por quase 24 horas, enquanto o perfil de Flávio Bolsonaro apareceu em sugestões de busca no Instagram e seu canal de apoio foi exibido em resultados do WhatsApp, contrariando restrições estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A Meta atribui os episódios a falhas técnicas e nega qualquer favorecimento político.
Um dos registros mais relevantes envolve uma mensagem do funcionário identificado como A. G., que reconheceu que a conta de Lula estava “limitada” em comparação à de Flávio Bolsonaro. O empregado também demonstrou preocupação com a “alta chance” de uma ação judicial em decorrência do episódio.
A avaliação ocorreu após uma falha registrada em 9 de outubro, quando o perfil oficial do presidente perdeu temporariamente a possibilidade de pagar para ampliar o alcance de publicações já disponíveis no feed do Instagram.
A restrição não interrompeu completamente a publicidade da campanha. Anúncios anteriormente contratados continuaram circulando, e a equipe de Lula ainda conseguia promover conteúdos por meio dos chamados dark posts, publicações publicitárias que não aparecem diretamente no perfil do anunciante.
Entretanto, a impossibilidade de impulsionar postagens do feed comprometeu uma das principais estratégias de divulgação eleitoral na rede social. Essa modalidade permite ampliar a distribuição de conteúdos já publicados e contribui para o desempenho das campanhas nos mecanismos de entrega da plataforma.
Segundo cálculos da própria campanha petista, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas deixaram de receber os anúncios durante o período de restrição.
Funcionários cobraram solução urgente para problema na conta de Lula
As mensagens obtidas pela Folha mostram que o episódio provocou preocupação entre os funcionários da Meta encarregados de acompanhar as operações eleitorais brasileiras.
A explicação inicialmente apresentada foi a existência de um problema técnico no gerenciador de anúncios. Engenheiros da empresa nos Estados Unidos foram acionados, mas a solução demorou várias horas.
Nas conversas, integrantes da equipe brasileira demonstraram insatisfação com o tempo de resposta e avaliaram que os responsáveis pela engenharia talvez não tivessem compreendido a urgência da situação, especialmente por envolver a conta publicitária do presidente da República durante uma campanha eleitoral.
Os funcionários relataram ter solicitado a classificação da ocorrência como SEV2, categoria utilizada para identificar problemas graves que exigem atendimento prioritário.
A preocupação também envolvia a repercussão política da falha. A funcionária identificada como M. A. afirmou que, mesmo depois de resolvido o problema, seria necessário definir como explicar o ocorrido aos integrantes da campanha de Lula.
Outro funcionário, identificado como M. V., informou que deputados envolvidos na campanha presidencial já estavam cobrando esclarecimentos sobre as restrições.
Inicialmente, a empresa relacionou a dificuldade a uma interrupção global de dados que havia afetado mais de 3 mil contas em 7 de outubro. O problema prejudicou, entre outras funcionalidades, a visualização das métricas de determinadas publicações.
Os registros, contudo, apontam diferenças entre os episódios. A falha global ocorreu no dia 7 e durou aproximadamente cinco horas, enquanto a restrição enfrentada pela campanha de Lula aconteceu no dia 9 e persistiu por quase 24 horas.
A campanha de Flávio Bolsonaro também teria sido atingida pelo problema global, com dificuldades para realizar um impulsionamento em 7 de outubro. Diante da situação, a equipe do candidato do PL teria desistido daquela operação e adotado outras formas de divulgação.
Perfil de Flávio apareceu em recomendações proibidas pelo TSE
Outro conjunto de mensagens internas revela problemas relacionados às recomendações automáticas de candidatos nas plataformas da Meta.
As regras eleitorais estabelecidas pelo TSE proíbem que perfis e canais de candidatos sejam promovidos por mecanismos de recomendação algorítmica. A finalidade é impedir que as plataformas favoreçam determinadas candidaturas por meio de seus sistemas de distribuição de conteúdo.
Apesar dessa proibição, funcionários da Meta identificaram que o perfil de Flávio Bolsonaro aparecia nas sugestões de busca do Instagram no início de outubro, enquanto contas de outros candidatos não recebiam o mesmo tratamento.
As conversas mostram que os próprios empregados reconheceram a irregularidade. O perfil de Flávio não deveria ser recomendado automaticamente, mas estava sendo exibido aos usuários.
Ao mesmo tempo, a conta de Lula apresentava um problema inverso: não aparecia corretamente nem mesmo quando os usuários pesquisavam seu nome exato, situação em que a exibição deveria ser permitida.
A justificativa técnica apresentada internamente foi que o nome de Lula era excessivamente longo para o funcionamento adequado do sistema de busca. Os funcionários afirmaram que a falha havia sido corrigida, embora ainda existissem diferenças nos resultados apresentados para pesquisas relacionadas aos dois candidatos.
A recomendação indevida do perfil de Flávio foi reconhecida nas conversas como uma falha da plataforma.
Canal de apoio a Flávio também foi exibido em buscas no WhatsApp
Os problemas de recomendação não ficaram restritos ao Instagram. Registros internos apontam que o WhatsApp também apresentou resultados incompatíveis com as limitações eleitorais impostas pelo TSE.
Ao pesquisar pelo termo “Exército do Lula”, usuários recebiam resultados que incluíam o Canal do Lula, o canal “Tropa do Flávio”, de apoio ao candidato do PL, e o Partido dos Trabalhadores.
Pelas regras aplicáveis às plataformas, canais eleitorais não podem ser sugeridos automaticamente aos usuários. Sua localização nas buscas deve depender da inserção do nome exato.
O canal “Exército do Lula” é administrado pelo deputado federal André Janones. Nesta semana, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou sua retirada do ar, mas o canal posteriormente voltou a funcionar.
A decisão judicial também foi discutida por funcionários da Meta. Em uma das mensagens, M. V. relatou ter recebido reclamações de políticos de esquerda sobre a determinação.
O empregado, entretanto, afirmou enxergar “o copo meio cheio” na situação. Segundo sua avaliação, caso a mesma medida tivesse atingido o candidato Renan Santos, a reação poderia ter sido mais intensa, com um protesto diante do escritório da empresa.
Registros também apontam problemas enfrentados pela campanha de Flávio
As conversas internas indicam que as falhas nos sistemas da Meta não atingiram exclusivamente a campanha petista.
Em 23 de setembro, contas publicitárias de Lula e Flávio Bolsonaro ficaram temporariamente impedidas de publicar anúncios por aproximadamente uma hora. O bloqueio foi provocado por uma identificação equivocada de “atividade suspeita”.
Outro episódio envolvendo o candidato do PL ocorreu em 1º de outubro, quando diversos anúncios de sua campanha foram rejeitados após os sistemas da plataforma detectarem possível utilização de inteligência artificial.
Naquele período, o uso da tecnologia estava submetido a restrições estabelecidas pelo TSE. A campanha de Flávio, entretanto, contestou a identificação e afirmou que não havia utilizado inteligência artificial nos conteúdos.
Os registros mostram ainda que funcionários da Meta demonstravam preocupação com o avanço de suspeitas de interferência da empresa na eleição brasileira.
Nas conversas, integrantes da equipe avaliaram que seria importante apresentar também os episódios que afetaram Flávio Bolsonaro, diante da percepção de que ganhava força uma narrativa de possível favorecimento eleitoral.
Apesar do reconhecimento de erros e restrições, as mensagens obtidas pela Folha não apresentam admissão de interferência deliberada da Meta no processo eleitoral. As discussões se concentram principalmente na gravidade das falhas, nas diferenças de funcionamento dos sistemas e na demora para solucionar os problemas.
Meta nega favorecimento e atribui episódios a falhas técnicas
Procurada pela reportagem, a Meta rejeitou as suspeitas de que seus sistemas tenham sido utilizados para beneficiar qualquer candidatura.
Em manifestação encaminhada à Folha, a companhia afirmou que “as alegações de que atua para interferir no processo eleitoral ou favorecer uma candidatura são falsas e não encontram respaldo nos fatos.”
A empresa sustentou que os problemas identificados tiveram origens diferentes, envolvendo interrupções técnicas de alcance internacional, erros específicos de funcionamento e mecanismos de aplicação das normas eleitorais brasileiras.
Segundo a Meta, “os episódios citados pela reportagem tiveram causas distintas: falhas técnicas globais, um erro específico prontamente corrigido e a aplicação de normas eleitorais brasileiras que valem igualmente para todas as candidaturas.”
A companhia também afirmou que parte das ocorrências não se limitou ao Brasil e atingiu anunciantes de outros países.
“Alguns desses episódios tiveram alcance amplo e afetaram diferentes contas e anunciantes em diferentes países. Não damos tratamento preferencial a candidato, partido ou posição política, e nossos sistemas não são projetados ou operados para fazê-lo”, declarou a empresa.
Campanha de Flávio contesta informações sobre bloqueios
A campanha de Flávio Bolsonaro também foi procurada para comentar os registros internos referentes ao bloqueio de anúncios em setembro e à rejeição de publicações em outubro.
Em resposta, a equipe do candidato negou que os episódios tenham provocado dificuldades em seus perfis e canais oficiais.
“As informações apresentadas pela reportagem não procedem. A campanha cumpre todas as regras da plataforma e do TSE e, por isso, não registrou nenhum problema com a conta de anúncio do candidato, que segue operando de maneira adequada e sem interrupção.”
Questionada sobre a atuação da Meta no processo eleitoral brasileiro, a campanha afirmou reconhecer que as plataformas estão submetidas à regulamentação nacional e que essas exigências podem influenciar os resultados de divulgação dos candidatos.
“A campanha entende que a plataforma está sujeita às regras da eleição brasileira e que, em função disso, o alcance e outras métricas do candidato podem ser afetados, o que tem sido compensado com estudos mais profundos e com o altíssimo rigor técnico da equipe.”
Restrições ampliam debate sobre o papel das plataformas nas eleições
Os episódios ocorreram em um cenário no qual a Meta ocupa posição central no mercado brasileiro de publicidade política digital.
O Google deixou de comercializar anúncios eleitorais no país em 2024, enquanto o Kwai mantém uma oferta limitada desse tipo de publicidade. Com isso, Instagram e Facebook passaram a concentrar uma parcela relevante das possibilidades de impulsionamento pago disponíveis às campanhas.
A importância desses serviços aumentou diante das regras do TSE que impedem a recomendação algorítmica de perfis eleitorais. Nesse ambiente, a contratação de anúncios se tornou um dos principais instrumentos para ampliar o alcance de conteúdos políticos nas redes sociais.
As mensagens internas obtidas pela Folha evidenciam que erros técnicos podem produzir efeitos distintos sobre candidaturas, mesmo quando não há comprovação de interferência intencional.
No caso de Lula, a impossibilidade de impulsionar publicações por quase um dia teve impacto estimado pela própria campanha em mais de um milhão de visualizações potenciais perdidas. Já as recomendações indevidas relacionadas a Flávio Bolsonaro expuseram inconsistências nos mecanismos que deveriam assegurar o cumprimento das determinações eleitorais.
A documentação também revela dificuldades de coordenação entre as equipes responsáveis pelo atendimento político no Brasil e os engenheiros encarregados de corrigir falhas nos sistemas da empresa.
Embora a Meta sustente que aplica as mesmas regras a todos os candidatos, os registros mostram que o funcionamento de suas ferramentas e a velocidade de resposta a problemas técnicos se tornaram questões relevantes para a disputa eleitoral de 2026.