ALIADOS DE FLÁVIO BOLSONARO, RUEDA E ACM NETO ARTICULARAM LEVANTE DE VORCARO SOBRE APOSENTADORIAS NOS ESTADOS
Mensagens obtidas pela PF revelam atuação da cúpula do União Brasil para levar bilhões de reais dos fundos de previdência ao Banco Master. Esquema de articulações alcançou governos do PL e do União Brasil.
Opresidente do União Brasil, Antônio Rueda, e o vice-presidente da legenda, ACM Neto, que integram a cúpula partidária envolvida na campanha de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais, atuaram nos bastidores para abrir as portas de fundos de previdência estaduais ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Mensagens de WhatsApp extraídas pela Polícia Federal do celular do banqueiro revelam uma rede de articulações políticas que alcançou governos estaduais do PL e do União Brasil, além de indicados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), na administração dos recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões de servidores públicos.
As conversas foram reveladas nesta sexta-feira (16) em reportagem de Fábio Serapião, Natália Portinari e Cézar Feitoza, no UOL, e mostram como Rueda era tratado por executivos do Master como peça importante para viabilizar operações em diferentes estados.
O avanço do banco sobre os recursos previdenciários ocorreu especialmente entre 2023 e 2024, período em que o Master buscava ampliar sua captação de recursos.
Em proposta de colaboração premiada rejeitada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR), Vorcaro afirmou que Rueda e ACM Neto teriam negociado comissões equivalentes a 10% dos valores investidos pelos institutos de previdência.
Segundo a investigação, o Master repassou R$ 6,4 milhões a escritórios de advocacia de Rueda e R$ 5,4 milhões a uma empresa de consultoria de ACM Neto. Os dois negam irregularidades e sustentam que receberam pelos serviços profissionais prestados.
A revelação ocorre em meio à aproximação da federação União Brasil-PP com Flávio Bolsonaro. No dia 5 de outubro, um dia após o primeiro turno das eleições, a cúpula da federação sinalizou apoio ao candidato do PL.
“O negócio vai ficar gigante”: a ofensiva sobre os fundos estaduais
A articulação começou a ganhar corpo em novembro de 2023, quando Fernando Mascarenhas, então diretor comercial do Master, comunicou a Vorcaro que havia sido procurado por Antônio Rueda.
Após a aproximação, Mascarenhas organizou uma viagem para reuniões em Rondônia e Amazonas, com a participação do dirigente do União Brasil, além de dois intermediários identificados como Ricardo e Raphael. A viagem ocorreu em uma aeronave particular de Vorcaro.
Em 21 de novembro de 2023, Mascarenhas comemorou, em mensagem ao banqueiro, a perspectiva de captar R$ 1,2 bilhão até o final daquele ano. Vorcaro respondeu com entusiasmo: “Foguete”.

O tratamento dado a Rueda pelos executivos do Master evidencia a importância política atribuída ao dirigente nas negociações. Em outra conversa, Luiz Rennó, executivo do banco, lamentou que o político não tivesse se aproximado da instituição mais cedo, afirmando que ele tinha acesso a vários estados.
A dimensão da ofensiva apareceu em julho de 2024, quando Mascarenhas encaminhou a Vorcaro uma relação de operações em andamento.
A lista incluía R$ 400 milhões no Amapá, R$ 350 milhões no Rio de Janeiro, R$ 250 milhões no Amazonas, R$ 160 milhões em Campos dos Goytacazes, R$ 500 milhões em Maricá, R$ 100 milhões em Belo Horizonte e R$ 200 milhões em Alagoas.
Somadas, as operações mencionadas alcançavam R$ 1,96 bilhão. Eram valores em negociação, não uma comprovação de que todos os recursos foram efetivamente transferidos.
Rueda mandou Vorcaro apagar mensagens no dia da aprovação de R$ 200 milhões no Amapá
Um dos episódios mais reveladores ocorreu em 12 de julho de 2024, durante as negociações com a Amapá Previdência, instituto responsável pelos recursos de aposentadoria dos servidores estaduais. Naquela manhã, uma notícia sobre problemas envolvendo títulos do Banco Master na Caixa Asset provocou preocupação entre os executivos.
O tesoureiro do banco, Alberto Felix, informou a Vorcaro que uma operação não seria concluída naquele dia em razão da repercussão negativa. Na mesma conversa, relatou que Rueda havia determinado a suspensão das operações, segundo informações recebidas de um intermediário.
Às 11h45, o presidente do União Brasil apagou dez mensagens consecutivas de sua conversa com Vorcaro e pediu ao banqueiro que também excluísse as mensagens. Cerca de uma hora depois, Mascarenhas informou que R$ 200 milhões haviam sido aprovados no Amapá.


O episódio ganha relevância diante das relações políticas que cercavam a administração da previdência estadual. O comitê responsável pela aprovação dos investimentos era presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre, indicado ao cargo pelo senador.
Além dele, Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado, integrou o conselho fiscal da Amprev entre 2023 e 2025, período em que ocorreram os investimentos de R$ 400 milhões no Master, segundo levantamento publicado pela revista piauí.
Comissões milionárias e o dinheiro dos aposentados
As conversas mostram que a captação de recursos públicos era acompanhada de discussões sobre pagamentos a intermediários. Em 18 de julho de 2024, Alberto Felix consultou Vorcaro sobre uma comissão referente à operação do Amapá, mencionando R$ 8,9 milhões.
No dia seguinte, perguntou se poderia pagar uma nota de R$ 8 milhões. Vorcaro autorizou. Em 1º de agosto, a tesouraria do Master registrou R$ 11 milhões em pagamentos classificados como comissão da operação do Amapá.
Naquele momento, a previdência estadual já havia transferido R$ 300 milhões ao banco.

A consultoria mencionada nas mensagens era atribuída a Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido como Ricardo Gordo, apontado pela PF como lobista de Vorcaro no Rioprevidência.
O percentual de 10% praticado pela consultoria é o mesmo citado por Vorcaro em sua proposta de delação ao descrever os supostos acordos com Rueda e ACM Neto.
Em reportagem publicada em setembro, o UOL revelou que, segundo o banqueiro, a aplicação desse percentual sobre os investimentos intermediados teria gerado uma obrigação de aproximadamente R$ 200 milhões com os dois dirigentes partidários. Vorcaro não informou quanto desse valor teria sido efetivamente pago.
Rio de Janeiro: indicado de Rueda movimentou bilhões no governo do PL
No Rio de Janeiro, a conexão política do Master passava pelo governo de Cláudio Castro, do PL, mesmo partido de Flávio Bolsonaro.
Segundo a investigação da PF, Deivis Marcon Antunes, ex-presidente do Rioprevidência, foi indicado ao cargo por Antônio Rueda em articulação com Castro. O instituto, responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores fluminenses, destinou cerca de R$ 2 bilhões ao Banco Master, segundo a Polícia Federal.
Deivis foi preso em fevereiro de 2026, em um dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, que investiga as fraudes envolvendo a instituição financeira.
A ligação entre Rueda e o governo de Castro é especialmente relevante diante da aliança eleitoral de 2026: o União Brasil integra a federação com o PP, que oficializou apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, em 6 de outubro.
Amazonas: ex-contador de campanha de Wilson Lima autorizou R$ 50 milhões
No Amazonas, as operações do Master alcançaram a estrutura previdenciária durante o governo de Wilson Lima, do União Brasil, legenda comandada nacionalmente por Rueda.
Uma autorização de investimento de R$ 50 milhões foi assinada por um dirigente da Amazonprev que havia tomado posse apenas 28 dias antes. O responsável pela autorização havia atuado como contador da campanha de reeleição de Wilson Lima.
As conversas mostram que o Amazonas estava no roteiro das viagens organizadas por executivos do Master com a participação de Rueda desde novembro de 2023. Em junho de 2024, Fernando Mascarenhas informou a Vorcaro sobre a perspectiva de uma captação de R$ 50 milhões na Amazonprev.
Posteriormente, em julho de 2025, o lobista Julio Cezar Avelino relacionou a influência política no Amazonas à existente em Rondônia, mencionando uma ligação com Rueda. Os registros revelam uma estratégia de expansão que não se limitava a um único estado e alcançava administrações comandadas por políticos de diferentes partidos, com destaque para o União Brasil e o PL.
Jatinhos, apartamento e contratos milionários
A proximidade entre Rueda e Vorcaro ultrapassava as reuniões de negócios. Em dezembro de 2023, o banqueiro colocou suas aeronaves executivas à disposição do presidente do União Brasil.
Em maio do ano seguinte, enviou um avião para transportar a família do dirigente à Fórmula 1, em Miami, nos Estados Unidos. As conversas também registram pedidos de hospedagem e referências à disponibilização de um apartamento e de acomodações no hotel Rosewood, em São Paulo.

Em agosto de 2024, o departamento jurídico do Master apresentou a Vorcaro quatro contratações do escritório Rueda & Rueda Advogados, que somavam R$ 15,4 milhões.
As mensagens também revelam que Rueda participou da aproximação entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), instituição que posteriormente se tornou peça central nas investigações sobre o Master.
ACM Neto, o Rei do Lixo e a mensagem sobre Brasília
ACM Neto também aparece nas conversas com Vorcaro. Em setembro de 2024, o ex-prefeito de Salvador passou um fim de semana na residência do banqueiro em Trancoso, na Bahia, acompanhado de Rueda e do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA).
No mês seguinte, ACM Neto solicitou uma reunião reservada com Vorcaro e Rueda, realizada em uma charutaria de São Paulo.
Nove dias depois, o vice-presidente do União Brasil enviou uma mensagem ao banqueiro comemorando o andamento das articulações políticas em Brasília.

As mensagens seguintes revelam outra conexão. Em novembro de 2024, Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro, comunicou ao banqueiro que estava sendo procurado por Marcos Moura, empresário conhecido como Rei do Lixo e integrante da Executiva do União Brasil.
Vorcaro orientou Zettel a procurar Gustavo e um interlocutor identificado pelo apelido de “Minas”. “Minas” seria Antônio Carlos Freixo Júnior, apontado na proposta de delação de Vorcaro como responsável por gerar dinheiro em espécie.
O banqueiro afirmou, nessa proposta rejeitada pela PF e pela PGR, que ACM Neto recebia pagamentos em espécie por meio de recursos gerados por Freixo.

União Brasil e PL: a convergência política em torno de Flávio Bolsonaro
As revelações sobre a atuação de Rueda e ACM Neto no Banco Master surgem no momento em que a cúpula do União Brasil se aproxima politicamente do PL, partido de Flávio Bolsonaro.
Em 6 de outubro, a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, oficializou seu apoio ao candidato no segundo turno das eleições presidenciais. Rueda participou das articulações partidárias.
O movimento reúne dirigentes de legendas que também aparecem nas conexões políticas identificadas nas investigações sobre os fundos de previdência.
No Rio de Janeiro, a indicação do ex-presidente do Rioprevidência é atribuída pela PF a uma articulação de Rueda com o governo de Cláudio Castro, do PL. No Amazonas, o investimento de R$ 50 milhões foi autorizado por um ex-integrante da campanha de Wilson Lima, do União Brasil. No Amapá, a operação de R$ 400 milhões passou por um comitê comandado por um indicado de Davi Alcolumbre, também do União Brasil.
O caso do Amapá acrescenta uma dimensão às negociações eleitorais. Conforme revelou a Folha, dirigentes do União Brasil avaliaram condicionar seu apoio a Flávio Bolsonaro ao compromisso do PL com a reeleição de Alcolumbre à presidência do Senado em 2027.
O que dizem os envolvidos
Antônio Rueda afirmou ao UOL que manteve uma relação profissional com o Banco Master, com serviços advocatícios prestados mediante contratos, notas fiscais e recolhimento de impostos. Também criticou a divulgação de conversas que considera retiradas de contexto e destinadas a prejudicar sua reputação.
ACM Neto classificou os vazamentos como seletivos e negou ter interferido no Ministério da Previdência ou orientado institutos estaduais a investir no Master.
O ex-prefeito de Salvador também afirmou não conhecer Fabiano Zettel e sustentou que todos os pagamentos recebidos por sua consultoria correspondiam a serviços efetivamente prestados.
A Polícia Federal pediu buscas e apreensões em endereços ligados aos dois dirigentes do União Brasil, com base no material extraído do celular de Vorcaro, mas a medida não chegou a ser autorizada pelo Supremo Tribunal Federal.