METADE DO BRASIL NÃO DÁ A MÍNIMA PARA DEMOCRACIA, SOBERANIA E CORRUPÇÃO

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Publicado por Paulo Henrique Arantes

A desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial deve-se a vários fatores. Relacionemos alguns (são muitos mais, é claro).

1) O reacionarismo intrínseco à maioria dos brasileiros, que, ao longo do tempo e por imposição socioeconômica e cultural de uma elite sem caráter, apenas almeja alçar-se ao topo da pirâmide social, nada se empenhando para que o país se torne menos desigual. Para metade do eleitorado brasileiro, o que importa é ascender socialmente, tanto faz se numa democracia ou numa ditadura. Fosse diferente, essa gente numerosa nem sequer cogitaria eleger alguém identificado com o golpismo;

2) O apoio velado (ou franco) da mídia mainstream ao candidato da extrema-direita. Constatação óbvia e já anunciada neste espaço. A imprensa corporativa também está pouco ligando para a preservação da democracia, ainda que discurse pelas liberdades de imprensa e expressão, hipocritamente. Sua ocupação diuturna é satisfazer “o mercado” e apontar a questão fiscal como o maior dos problemas brasileiros, nada além disso. Claro, os “furos” a partir de vazamentos seletivos servem, na ponta, a essa finalidade;

3) A pouca ou nenhuma importância que o eleitor dá de fato à corrupção. O brasileiro médio, triste constatar, é o adepto da Lei Gérson, norma que manda levar vantagem em tudo (com perdão ao nosso genial Canhotinha de Ouro). Flávio Bolsonaro é um notório corrupto. Não é necessária uma condenação judicial para dizê-lo. Não bastassem as pregressas rachadinhas e aquisições de imóveis com dinheiro vivo e outras aberrações, o caso Master revelou-o pedindo uma fortuna ao mafioso Daniel Vorcaro, a quem trata por “irmão-tamo-junto-sempre” – um escândalo que pouco arranhou sua intenção de voto;

4) O efeito STF. Merecida ou equivocada – só uma investigação dirá -, a torrefação da imagem de Alexandre de Moraes prejudicou Lula – impossível não fazer a correlação. Some-se a ela a presidência pusilânime de Edson Fachin na corte maior, que fez vista grossa à proteção dada a Flávio pelo relator do caso Master, André Mendonça, e permitiu chicanas do juiz bolsonarista contra integrantes do próprio tribunal;

5) A total despreocupação de metade do eleitorado com a soberania nacional. Claríssimo está que, se eleito, Flávio Bolsonaro abrirá as portas do Brasil para o imperador Donald Trump, que abocanhará nossos minerais raros a exemplo do que faz com o petróleo venezuelano. Em paralelo, Trump ganhará um aliado incondicional na Guerra Fria que trava contra a China. O irmão-agente-conspirador, Eduardo, está nos Estados Unidos atuando contra seu país, é um condenado que pode ser preso de pisar aqui, a não ser que o novo presidente da República venha a ser seu irmão e providencie alguma chicana que lhe permita ocupar o Itamaraty. Metade do eleitorado não liga para isso;

6) A escolha de Fernando Haddad, e não Geraldo Alckmin, para enfrentar Tarcísio de Freias em São Paulo. Há muitas justificativas aceitáveis para Lula insistir em Haddad, mas está cego quem ainda não percebeu que o ex-ministro é ruim de voto. O desempenho de Haddad foi bem ruim. Uma votação expressiva em São Paulo, como Alckmin certamente obteria, manteria o eleitorado lulista engajado e evitaria o desinteresse local no segundo turno da eleição presidencial. Lula vem sendo teimoso quanto a Fernando Haddad;

7) A campanha morna realizada por Lula e sua equipe. Na opinião deste jornalista, que degusta campanhas eleitorais profissionalmente desde 1989, a campanha eleitoral do presidente Lula, ao menos neste primeiro turno, foi pouco enfática tanto em informar as realizações do seu governo quanto em desnudar seu principal adversário.

Segundo turno pela frente. Dos problemas elencados acima, ao menos três podem ser superados já, com inteligência, empenho e um pouco de criatividade cívica. Os demais exigem transformações profundas, as quais demandam mais tempo.

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro “O que a Vida quer é Memória – O Brasil de Lula no Mundo de Trump” (Editora Autografia). Editor da newsletter “Noticiário Comentado” (paulohenriquearantes.substack.com).

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