FILÓSOFO JOSÉ ALCIMAR: PAULO FREIRE, AMÓS COMÊNIO E DESCARTES: O MÉTODO COMO ESSÊNCIA DA CONSCIÊNCIA

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PAULO FREIRE, AMÓS COMÊNIO E DESCARTES: O MÉTODO
COMO ESSÊNCIA DA CONSCIÊNCIA

José Alcimar de Oliveira *

 

Mas não seria desejável que a formação cultural do homem da ciência se fizesse apenas pelo estudo
abstrato dos métodos lógicos sem a correspondente ligação com a práxis do trabalho científico (Álvaro
Vieira Pinto)
Há 105 anos, no dia 19 de setembro, nascia em Recife, PE, Paulo
Reglus Neves Freire, nosso Paulo Freire, o maior educador brasileiro de
todos os tempos, cidadão universal da educação. Sua Pedagogia do
oprimido, de 1968, seu livro mais conhecido e objeto de estudo nas principais
universidades dos cinco continentes, é a terceira obra na área de ciências
sociais e humanas mais citada no mundo, segundo a London School of
Economics. O projeto político de pensar a alfabetização de adultos como
uma teoria dialética do conhecimento confere a Paulo Freire um estatuto
pedagógico só comparável ao da Didática Magna de João Amós Comênio,
que defendia, no século XVI, o sagrado direito de ensinar tudo a todos, em
todos os níveis, e sem distinção de qualquer natureza.

 

Se vivesse no Brasil do século XXI, Comênio seria vítima do
mesmo ódio político e da mesma execração pública que vastos setores da
classe dominante continuam a dirigir a Paulo Freire. Pela via da pedagogia e
do método, o Brasil que parte grossa de nossa alegada (e não menos grossa)
elite defende para o povo é de ordem pré-comeniana e pré-cartesiana, a
considerar que ambos, Comênio e Descartes, foram contemporâneos. Nesses
tempos desinibida contenção cognitiva, de ódio ao pensamento e de
criminalização do trabalho educativo, chegar ao estágio do tribunal crítico
da razão que o projeto kantiano pensava para a humanidade, pode parecer
um abraço entre distopia e delírio.

 

Exilado do Brasil pela ditadura empresarial-militar em 1964, Paulo
Freire só pôde regressar à sua pátria em 1979 por força da Lei da Anistia e
sua volta definitiva ocorreu apenas em 1980, quando foi convidado a lecionar
na PUC-São Paulo. Em maio de 1982 esteve pela primeira vez em Manaus,
e foi calorosamente recebido e saudado pela população, sobretudo
estudantes, trabalhadoras e trabalhadores da educação. A Manaus de 2026
ganharia muito se revisitasse, pelo exercício da memória, a Manaus que
recebeu Paulo Freire em 1982. No devir da história não há progresso linear e a possibilidade do que é ruim piorar nunca pode ser descartada. As sombras
do obscurantismo costumam ser mais velozes em aprisionar consciências do
que a capacidade da razão em criar saídas rumo ao conhecimento que
ilumina.

 

Mais de 40 anos depois de sua vinda a Manaus e aos 105 anos do seu
nascimento, o Patrono da Educação Brasileira está, há pelo menos dez anos,
sobretudo a partir do golpe jurídico e parlamentar de 2016, submetido à mais
retrógrada campanha de desqualificação que já se fez a um pensador
brasileiro. Se antes foi exilado em vida, agora é exilado em morte. Quanto
menos o leem mais o detestam. Enquanto seus leitores sentem-se intimidados
e muitos nem ousam pronunciar seu nome, os fanáticos andam à solta, nas
instituições de ensino e fora delas. Vítima do ódio e da ignorância de gente
boçal e reacionária, Paulo Freire é de outro Brasil. O Brasil de Paulo Freire,
o nosso Brasil, é o país da educação “como prática de liberdade”, da
educação como “um ato de conhecimento, (como) uma aproximação crítica
da realidade”. Em Paulo Freire método não é procedimento técnico, é antes
teoria do conhecimento. Não criou um método, mas uma teoria dialética
(porque dialógica) da educação.

 

O que ocorre neste 2026 é a demonstração da parte de um Brasil que
regride rumo às sombras. É triste verificar, sobretudo nas redes sociais,
pessoas que nunca leram uma só linha da grandiosa obra de Paulo Freire
seguirem esse andor de ignorância e intolerância. Sou um leitor e admirador
de seus livros desde 1978, quando iniciei o Curso de Filosofia e Teologia no
antigo Cenesch. Triste do país que desonra seus mestres. Triste do país que
promove o fanatismo. O fanático se alimenta da vontade de crença e sua
cabeça obstinada é permanentemente reativada por um tipo de dissonância
epistemológica, estado cognitivo de uma mentalidade oprimida, fidelizada,
que consiste em rejeitar de forma quase instintiva aqueles conteúdos cuja
consciência foi programada para rejeitar, independentemente da força
objetiva da prova. O fanático é sempre possuído pelo objeto de sua crença.

 

Para falar da grande paternidade, Paulo Freire é um filho legítimo do
pensamento dialético de Sócrates, Jesus, Hegel, Marx e dos grandes
pensadores e educadores do século XX. A sua pedagogia dialógica, cujo
conteúdo classista é devedor da tradição da dialética materialista e histórica,
se constitui não a partir do sujeito burguês, pertencente ao que Habermas
denomina de uma comunidade ideal de fala, mas antes do sujeito histórico
submetido como classe à situação estrutural do mutismo, da impossibilidade
de falar de si como oprimido e de falar contra a opressão de classe.

 

O sujeito social histórico a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia do oprimido é
revelador de sua opção classista: “aos esfarrapados do mundo e aos que neles
se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo,
com eles lutam”.
Dentre os pensadores e educadores do século XX, um pensador pouco
lembrado é Álvaro Vieira Pinto, a quem, na sua Pedagogia do oprimido,
Paulo Freire chama de “mestre brasileiro”. A este grande mestre (de Darcy
Ribeiro, inclusive) Paulo Freire manifesta seu agradecimento por ter
consentido que citasse em sua Pedagogia do Oprimido sua portentosa
Ciência e Existência: Problemas Filosóficos da Pesquisa Científica antes da
publicação. Faço questão aqui de mencionar que adquiri das mãos do poeta
Dori Carvalho o meu exemplar de Ciência e Existência no dia 12 de abril de
1983, na Livraria Maíra, em Manaus. Sob alguns aspectos Manaus já foi bem
melhor. Tinha até livraria com selo de Maíra. Já disse mais de uma vez que
a melhor definição de Paris, que eu nunca conheci, e que há 155 anos foi
palco do primeiro Governo Operário e Comunal da História, me veio de
Walter Benjamin: um imenso salão de biblioteca atravessado pelo Sena.
Quisera que o maior monumento de Manaus fosse uma grande biblioteca de
frente para o belo e maltratado rio Negro.

 

Em homenagem a Álvaro Vieira Pinto, reproduzo uma citação de
Ciência e existência feita por Paulo Freire em sua Pedagogia do oprimido:
“O método é, na verdade, a forma exterior e materializada em atos, que
assume a propriedade fundamental da consciência: a sua intencionalidade. O
próprio da consciência é estar com o mundo e este procedimento é
permanente e irrecusável. Portanto, a consciência é, em sua essência, um
‘caminho para’ algo que não é ela, que está fora dela, que a circunda e que
ela apreende por sua capacidade ideativa. Por definição, a consciência é,
pois, método, entendido este no seu sentido de máxima generalidade. Tal é
a raiz do método, assim como tal é a essência da consciência, que só existe
enquanto faculdade abstrata e metódica”. Diria que somente pelo método a
leitura da palavra, sempre antecedida pela leitura do mundo (Paulo Freire) é
que o oprimido pode dialetizar o mundo e a palavra.

 

Paulo Freire lidava com pessoas, com nome-carne-e-osso, e desde
o oprimido como classe. Diferentemente da burguesia, flácida e predatória,
que lida apenas com números. Paulo Freire, que foi por um breve período
secretário de educação do município de São Paulo, no governo da irredenta
paraibana Luíza Erundina, tinha posição de classe definida e inconteste:
caminhava com o Brasil da Silva e não se curvava ao Brasil Faria Lima. Tinha consciência histórica do destino de sua pedagogia classista, inclusive
de seus limites, porque a educação não pode tudo, mas pode alguma coisa,
costumava dizer. Em síntese, entre o messianismo pedagógico que ilude e o
reprodutivíssimo pessimista que imobiliza (mesmo que crítico), educar é
disputar projetos no solo concreto da história, porque só podemos garantir os
espaços que ocupamos. E para o projeto educativo de Paulo Freire, tempo é
antes de tudo espaço da formação humana a partir da vida dos esfarrapados
do mundo.

 

* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do
Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado em Educação (1998) e o doutorado em Sociedade e
Cultura (2011). É também teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA –
Seção Sindical e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e
Jaguaribe (em Jaguaruana – CE). Desde Manaus, AM, em setembro de 2026.

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