FLÁVIO BOLSONARO E ADVOGADO INVESTIGADO NA FRAUDE DO INSS: SAFÁRIS, IMÓVEIS E NEGÓCIOS

0
Flavio-Bolsonaro-na-Africa-do-Sul-com-Willer-Tomaz-768x613.jpg

Documentos apontam que os dois viajaram juntos para diferentes países, compartilharam o uso de imóveis e aeronaves e também atuaram em processos judiciais

Por: Julinho Bittencourt: 18/09/2026 –
– Flávio Bolsonaro na África do Sul com Willer Tomaz/Foto: Redes Sociais

Arelação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado Willer Tomaz ganhou novos elementos com as investigações da Polícia Federal sobre suspeitas de fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Documentos apreendidos pelos investigadores apontam que os dois viajaram juntos para diferentes países, compartilharam o uso de imóveis e aeronaves e também atuaram em processos judiciais.

Um dos episódios mais recentes envolve um apartamento na Vila Nova Conceição, bairro nobre da zona sul de São Paulo. O imóvel foi cedido por Willer para que Flávio o utilizasse durante a campanha presidencial. A informação foi revelada pela revista Piauí e confirmada pelo GLOBO. Adversários do senador levaram o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob o argumento de que a cessão deveria ter sido registrada como doação eleitoral.

O apartamento também chamou a atenção dos investigadores por sua cadeia de propriedade. Antes de ser adquirido por Willer, o imóvel pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e alvo de investigação por suspeitas relacionadas a uma fraude bilionária no sistema financeiro.

Willer declarou que “jamais manteve” relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. O advogado não respondeu sobre a utilização do apartamento por Flávio. O senador também não se manifestou sobre o imóvel.

Cinco viagens identificadas pela PF

A proximidade entre Flávio e Willer não se restringe ao episódio do apartamento. Ao analisar celulares e e-mails do advogado, apreendidos durante uma operação realizada no mês passado, a Polícia Federal encontrou registros de pelo menos cinco viagens internacionais feitas pelos dois no primeiro semestre de 2025.

Uma delas ocorreu em março, quando Flávio viajou com familiares e amigos para a África do Sul. O grupo permaneceu aproximadamente uma semana no país e incluiu um safári. Também participaram da viagem o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e Willer Tomaz.

Fotografias recuperadas pelos investigadores mostram Flávio, Weverton e Willer acompanhados de crianças em uma área de savana. Os três aparecem com camisetas semelhantes, com a inscrição “Big Five”, expressão usada no turismo de safári para designar elefante, leão, leopardo, rinoceronte e búfalo.

Os registros encontrados no material apreendido incluem ainda reservas, passagens aéreas e locações de veículos. Depois da viagem à África do Sul, Flávio e Willer viajaram juntos para Portugal em abril. No mês seguinte, voltaram à Europa, dessa vez acompanhados de familiares, passando por Portugal e pela França.

Documentos analisados pela PF mostram que uma agência de viagens chegou a tratar com uma funcionária do escritório de Willer da contratação de veículos para o grupo. Um carro seria utilizado em Lisboa e outro em Nice, no sul da França.

Willer afirma que as viagens foram particulares. Segundo ele, “são de caráter estritamente privado”, “decorrem de uma relação de amizade pessoal de longa data com o senador Flávio Bolsonaro e sua família” e “foram custeadas com recursos próprios e nada têm a ver com função pública, com contratos ou com qualquer interesse de terceiros”.

Flávio também reconheceu a amizade. Em nota, afirmou manter uma “relação de amizade” com Willer que considera “legítima” e disse que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”. O senador não informou se teve despesas pagas pelo advogado.

Weverton, que também mantém relação próxima com Willer, afirmou: “Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos”. O senador não respondeu quem custeou sua viagem à África do Sul.

Jatinho ligado a Vorcaro

Os registros da PF também apontaram uma viagem de Flávio e familiares aos Estados Unidos em janeiro de 2025, na véspera da posse de Donald Trump. Na ocasião, o senador, a mulher e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília ao lado de Willer e familiares do advogado.

O deslocamento foi feito em um jatinho da Prime You, empresa de aviação executiva que teve Daniel Vorcaro entre seus sócios. O ex-controlador do Banco Master permaneceu como sócio direto da companhia até setembro de 2025.

Willer afirmou que utilizou os serviços da empresa como cliente e que não sabia da participação de Vorcaro no quadro societário.

A passagem de Flávio e Willer pelos Estados Unidos já havia sido registrada em outro episódio. Segundo reportagem do colunista Lauro Jardim, os dois estiveram juntos no Hard Rock Hotel & Casino, na região de Miami, no fim de semana anterior à posse de Trump, em 20 de janeiro.

Em maio, Flávio voltou à Flórida com Willer em outro jatinho, emprestado por um empresário para quem o advogado prestava serviços jurídicos. Fernanda Bolsonaro, mulher do senador, também participou da viagem.

Relação antiga

A proximidade entre Flávio e Willer começou antes das viagens identificadas pela PF. O advogado, conhecido em Brasília por manter trânsito entre diferentes grupos políticos, tornou-se próximo do senador durante o governo Jair Bolsonaro.

Em 2021, uma reportagem da revista Veja mostrou que Flávio frequentava uma propriedade de Willer em Planaltina (DF), conhecida como “Rancho Tomaz”. O local fica a cerca de 72 quilômetros de Brasília e era utilizado pelo advogado para receber políticos.

Durante as investigações sobre o esquema de fraudes no INSS, a PF encontrou no celular de Weverton uma fotografia de um encontro realizado na propriedade em abril de 2023. A imagem mostra seis congressistas, de diferentes partidos, reunidos na área da piscina.

A relação também apareceu durante a CPI da Covid, em 2021. Flávio defendeu Willer quando integrantes da comissão tentaram quebrar o sigilo do advogado. Na ocasião, o senador o chamou publicamente de “meu amigo Willer Tomaz”.

Além da amizade, Flávio e Willer têm vínculos profissionais. Levantamento publicado pelo GLOBO em julho mostrou que os dois atuam conjuntamente em processos judiciais. Em uma das ações, que tramita no Superior Tribunal de Justiça (STJ), eles representam um dos sócios de uma indústria do Rio Grande do Norte em uma disputa empresarial envolvendo uma execução de R$ 159 milhões.

Imóveis em Angra dos Reis

A utilização de propriedades de Willer por Flávio também ocorre no litoral do Rio de Janeiro.

O senador já frequentou uma casa na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, sobre a qual o advogado adquiriu direitos possessórios. O imóvel está envolvido em uma disputa judicial relacionada a uma empresa ligada ao jogador de futebol Richarlison. Flávio visitou o local diversas vezes desde 2020 e chegou a ser arrolado como testemunha de Willer no processo.

Outra propriedade do advogado na região foi utilizada por Flávio em fevereiro deste ano para uma comemoração de aniversário de uma de suas filhas. Segundo o ICL Notícias, Willer afirmou ter emprestado o imóvel ao senador por causa da amizade entre os dois, “sem qualquer pagamento, contraprestação ou relação comercial”.

Investigação sobre o INSS

A relação ganhou maior relevância pública depois que Willer e Weverton passaram a ser investigados pela Polícia Federal no caso envolvendo descontos ilegais em aposentadorias e pensões do INSS.

Willer foi alvo de uma operação no mês passado. De acordo com a representação policial que fundamentou as buscas, ele seria um “hub financeiro, patrimonial e logístico” de integrantes do grupo investigado.

Segundo a PF, o advogado teria utilizado uma estrutura formada por “empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos” para dar sustentação ao grupo.

Um dos elementos citados pelos investigadores é o repasse de R$ 11 milhões de empresas relacionadas a Willer para a mulher de Weverton.

O senador também foi alvo de uma operação da PF em dezembro. Para os investigadores, ele teria exercido papel de “liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras” do grupo investigado por fraudes contra o INSS. Weverton nega irregularidades.

A PF afirma ainda que o parlamentar seria responsável por indicar beneficiários, cobrar pagamentos, acompanhar transferências e participar de decisões patrimoniais relacionadas ao grupo. Familiares do senador foram alvo da mesma operação que atingiu Willer.

Willer nega envolvimento em fraudes contra o sistema previdenciário e afirma que não é investigado por desvios de aposentadorias.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.