“NARRATIVA É PODER E MEMÓRIA ESTÁ NA DISPUTA POLÍTICA CONSTANTEMENTE”, AFIRMOU CINEASTA, MARCELO FONSECA
afinsophia 09/09/2026 0
CENSURA
Marcelo Fonseca conta tentativa de censurar documentário sobre o papel da Usina Cambahyba na ditadura
- SÃO PAULO (SP)
- LARISSA BOHRER E LUCAS KRUPACZ E MARIA TERESA CRUZ
O documentário “Usina Cambahyba: Das Cinzas da Tortura à Terra Prometida”, do diretor Marcelo Fonseca, sofreu tentativa de censura e intimidação. O filme conta a história da antiga usina de cana-de-açúcar Cambahyba, em Campos dos Goytacazes (RJ), envolvida em denúncias sobre ocultação de corpos na ditadura empresarial-militar.
Na véspera da estreia, na cidade de Macaé (RJ), a produtora recebeu uma notificação extrajudicial de advogados ligados à usina, pedindo a retirada de conteúdos do ar, com possibilidade de responsabilização civil e criminal.
“É um caso que nos chama muita atenção, porque é muito preocupante. Nós temos uma República de 137 anos, temos 41 anos de República Velha, tivemos quase 10 anos de ditadura do Estado Novo, 20 anos de ditadura civil-militar empresarial, o recente golpe contra a presidenta Dilma [Rousseff] e agora também no 8 de janeiro. É uma República ainda muito frágil e documentários como esses fortalecem a democracia”, afirma Fonseca ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A alegação para vetar o curta, segundo Fonseca, é que a obra conteria “fatos caluniosos” e “fantasia”. Contudo, o diretor reforça que o documentário está fundamentado no trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV), em 2012, em denúncias do Ministério Público Federal e na condenação, em 2023, de Cláudio Guerra, ex-agente do Dops, autor do livro “Memórias de uma guerra suja” (Editora Topbooks), que confessou ter incinerado 12 corpos de desaparecidos políticos na usina.
A gravidade da situação exigiu até mesmo medidas de segurança reforçadas para a realização da primeira sessão pública em Macaé, no dia 19 de agosto. “Nós somos alvos de uma tentativa muito clara de censura e de intimidação, a ponto de termos que fazer a estreia do documentário sob uma escolta da Polícia Militar. É algo que não pode passar batido, não pode ser comum diante de uma democracia”, reforça.
A usina também se envolveu em disputa de terra desde os anos 1960, com a conquista, apenas neste ano, pelo Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) do assentamento Cícero Guedes no local. “É um território marcado por sangue, pela luta por terra, pela luta do trabalhador.”
O cineasta enquadrou a tentativa de vetar o filme como um reflexo da disputa política e do controle sobre a memória histórica do Brasil. “É um grupo empresarial tentando controlar a memória de um tempo, e isso é muito danoso, porque o documentário se insere em um contexto de atualizar essa história. Quando nós temos uma população que, por exemplo, defende o AI-5, que vai para as ruas defender a volta da ditadura, é porque a memória da ditadura não foi suficientemente firmada”, argumenta.
Marcelo Fonseca reafirma que vai defender a obra nos tribunais. “Narrativa é poder. Quem controla a narrativa? A memória também está em disputa política constantemente”, ressalta.